


ENTREGANDO O CORAO

(MATT CADWELL: TEXAS TYCOON)


DIANA PALMER

Digitalizado: Chris

















CAPTULO 1


No alto da colina, via-se um homem sentado elegantemente em seu cavalo e uma jovem a observ-lo. Ele admirava o amplo pasto que se estendia diante deles. A fazenda era pequena para os padres texanos, mas, em Jacobsvilie, era grande o suficiente para colocar seu dono entre os dez maiores fazendeiros da regio.
 Empoeirada, no?  perguntou Ed Caldwell com um sorriso, alheio ao fato de ambos estarem sendo observados por outro cavaleiro a distncia.
 Dou graas a Deus por trabalhar na corporao e no aqui. Gosto de respirar um ar mais fresco e despoludo.
Leslie Murry sorriu. Seu rosto de traos clssicos no chegava a ser exatamente bonito, mas era muito marcante. Os cabelos loiros lhe chegavam at acima dos ombros e tinham um bonito caimento natural. Em seu semblante, o que mais se destacava eram os expressivos olhos acinzentados e os lbios bem delineados.
Leslie tinha uma personalidade bastante reclusa, mas nem sempre havia sido assim. Na poca da adolescncia, ela fora uma jovem muito ani5mada e expansiva. Mas no presente, com vinte e trs anos, lembrava mais uma monja do que uma mulher em plena juventude. Para quem a conhecera antes, a mudana fora radical. Conhecera Ed Caldwell na poca da faculdade, em Houston. Ele se formara quando Leslie estava no segundo ano. Mas ela desistira do curso no semestre seguinte, para ir trabalhar como secretria na firma de advocacia do pai dele, em Houston. A situao acabara se complicando por l, e Ed a socorrera mais uma vez. Na verdade, fora por causa dele que ela havia acabado de ser contratada como secretria executiva da Empresa Caldwell, que pertencia ao primo dele.
Leslie no conhecia Mather Gilbert Caldwell, ou Matt, como ele costumava ser chamado. As pessoas costumavam dizer que ele era uma pessoa gentil e agradvel. O prprio Ed vivia afirmando isso. De fato, estavam ali para que Ed pudesse apresent-la ao primo dele, mas, at aquele momento, s haviam se deparado com poeira, gado e cowboys.
 Espere aqui  disse Ed.  Vou dar uma volta pelas redondezas para ver se encontro Matt.
Dizendo isso, ele esporeou o cavalo e saiu em uma cavalgada meio desajeitada. Enquanto o via se afastar, Leslie teve de se esforar para conter o riso diante da maneira canhestra como Ed cavalgava. Ficou evidente que ele se sentia mais  vontade ao volante de um carro do que sobre a sela de um cavalo. Mas, evidentemente, ela no iria cometer a indelicadeza de dizer isso a ele. Afinal, Ed era o nico amigo com o qual ela sempre pudera contar e a ltima coisa que desejava no mundo era mago-lo. Ele tambm era o nico que sabia tudo sobre seu passado.
Leslie no tinha noo de que tambm estava sendo observada naquele momento. O desconhecido, que at ento se mantivera a certa distncia, decidiu se aproximar, sentindo-se estranhamente atraido por aquela figura feminina. O modo como ele se aproximou foi to sorrateiro que sua presena s foi notada quando o cavalo resfolegou, poucos metros atrs dela. Somente ento Leslie olhou para trs.
O desconhecido trajava uma roupa de trabalho, como a dos outros cowboys, mas a semelhana entre eles terminava a, pois a aparncia daquele homem era muito mais bem cuidada do que a dos outros que ela vira na fazenda. A atitude dele parecia um tanto intimidadora, com aquele ar determinado e a mo pousada sobre a coxa.
Naquele momento, os olhos negros de Matt Caldwell encontraram os dela.
 imagino qu Ed a tenha trazido at aqui  ele foi o primeiro a falar.
Leslie segurou as rdeas com mais fora. A voz dele tinha um tom profundo, inquietador.
 Eu... Sim. Ele... Ele me trouxe at aqui.
Matt estava surpreso com aquilo. Seu primo costumava gostar de mulheres glamourosas e sofisticadas. Vivia levando-as  fazenda para impression-las, mas Matt no se importava com isso. Contudo, tivera uma manh difcil e no estava com muita disposio para servir de anfitrio.
 Ento gosta dos ares da fazenda?  disse ele, sem fazer muita questo de parecer simptico.
 Se quiser, posso arranjar uma corda para voc tentar laar o gado.
Leslie se tornou ainda mais tensa. Quanta indelicadeza!
Eu... vim conhecer o primo de Ed. Ele  um homem muito rico.  Leslie se arrependeu no mesmo instante de haver dito aquilo. Como pudera dizer algo to idiota a um estranho?  Quero dizer, ele  o dono da empresa onde Ed trabalha. Onde eu trabalho  acrescentou.
Ele se inclinou um pouco para frente, estreitando o olhar.
 Qual  o verdadeiro motivo de voc ter vindo at aqui com Ed?
Leslie engoliu em seco. Aquele olhar intenso tinha um poder quase hipnotizador.
 No creio que isso seja da sua conta  respondeu.
Ele no disse nada e apenas continuou a olh-la.
 Por favor, pare de me olhar desse jeito  pediu ela.  Est me deixando nervosa.
 Veio conhecer o chefe, certo?  indagou ele.  Ningum lhe disse que ele no  uma pessoa fcil?
Leslie engoliu em seco mais uma vez.
 Dizem que ele  uma boa pessoa e que costuma ser gentil com os funcionrios  falou ela.  Algo que aposto que ningum nunca disse a seu respeito  acrescentou, indignada com a ousadia dele. 
Ele arqueou as sobrancelhas.
 Como sabe que no sou bom e gentil?  indagou ele, esforando-se para conter o riso.
Pela sua atitude, est evidente que voc no  im: pessoa confivel  respondeu ela, sem titubear. Nie manobrou o cavalo e se aproximou o suficiente :ira faz-la estremecer. Gostava de mulheres que no se intimidavam com seu mau humor.
 Se no sou uma pessoa confivel, em que situao isso a coloca nesse momento?  indagou
com deliberada sensualidade.
1 1eslie ficou to abalada com aquela sbita aproximao que tentou se afastar no mesmo instante. Segurando as rdeas com fora, agitou-as com tanto empenho que o cavalo se assustou e ergueu-se Nobre as patas traseiras, fazendo-a ir parar no cho. A queda foi violenta, machucando o quadril e o ombro esquerdo de Leslie.
m questo de segundos, o desconhecido j estava :io lado dela, tentando levant-la com cuidado.
Leslie tentou se desvencilhar do contato, ainda assustada com o que acabara de acontecer.
 No!  bradou ela, em um certo momento, levando Matt a afastar a mo que havia pousado sobre o brao dela.
Ele a olhou com um ar de curiosidade e de preoeupao ao mesmo tempo.
 Leslie!  gritou uma voz a certa distncia. Ed se aproximou com seu cavalo o mais rpido
possvel e assim que desmontou da sela ajoelhou- se ao lado dela.
Sinto muito  disse ela, recusando-se a olhar para o desconhecido que provocara o acidente.  Eu puxei as rdeas com muita fora e assustei o cavalo. Leslie notou que Ed olhou por cima do ombro para o desconhecido, que havia ficado de p.
 Voc est bem?  perguntou Ed, voltando a olh-la.
Ela assentiu. Porm, ambos notaram que Leslie estava muito trmula.
 Hum, vocs j se apresentaram?  indagou Ed, olhando de um para o outro.
Matt olhou para o primo. Ficara aborrecido com a reao da namorada de Ed. Ela o estava olhando como se ele houvesse feito aquilo de propsito quando, na verdade, ele fora o primeiro a tentar ajud-la.
 Da prxima vez em que decidir trazer uma maluca para minha fazenda, avise-me antes  disse ele, voltando a montar no cavalo.  E melhor ir buscar o carro para lev-la embora. Ela no parece se dar muito bem com animais.
 Mas ela monta muito bem  salientou Ed.
 Est bem, ento. At mais tarde.
Leslie viu quando o outro puxou o chapu para frente e saiu galopando com elegncia.
 Puxa  disse Ed, assim que ficou sozinho com Leslie , faz tempo que no o vejo to mal- humorado. Nem imagino o que o fez ficar assim. Em geral, ele  a cortesia em pessoa, principalmente quando h algum ferido por perto.
Leslie limpou o jeans e olhou para o amigo.
 Ele veio at mim e se aproximou demais enquanto estvamos conversando. Entrei em pnico. Espero que seu primo no o despea por isso.
Ed arqueou uma sobrancelha.
 No ouviu quando ele disse minha fazenda? Aquele  meu primo, Leslie.
Ela arregalou os olhos.

 Aquele era Matt Caldwell?
Ele assentiu. Ela deixou escapar um longo suspiro.
 Essa no. Que boa maneira de se apresentar ao patro antes de comear em um novo trabalho.
 Ele no sabe nada a seu respeito.
 E nem voc vai falar  replicou ela, com firmeza.  Estou falando srio, Ed. No quero ver meu passado sendo vasculhado novamente. Vim para c porque quero ficar longe de reprteres e de produtores de cinema, e  assim que pretendo me manter. J cortei os cabelos, comprei roupas diferentes e estou usando lentes de contato. Fiz tudo que me pareceu vivel para no ser reconhecida e no vou abrir mo do que conquistei. J faz seis anos  acrescentou ela, com tristeza.
 Por que essas pessoas no me deixam em paz?
 O reprter estava apenas seguindo uma indicao  disse Ed, em um tom gentil.  Um dos homens que a atacou foi preso por estar dirigindo bbado e algum ligou o nome dele ao que aconteceu com sua me, O pai dele  um poltico importante em Houston. Em um ano de eleio, era de se esperar que a imprensa fosse tentar descobrir qual era o envolvimento do filho dele no caso de sua me.
 Sim, eu sei, e foi justamente isso que levou aquele produtor idiota a pensar em fazer o grande filme do ano. Era s o que me faltava. E eu que pensei que tudo isso j houvesse terminado. Que ingenuidade a minha.  Aps uma breve pausa, ela prosseguiu:  Eu gostaria de ser rica e famosa. Talvez, assim, pudesse comprar um pouco de paz e privacidade.

Ed continuou a ouvi-la, em silncio. Olhando na direo para onde Matt havia seguido, Leslie continuou:
 Eu disse algumas indelicadezas para seu primo poue no sabia quem ele era. Acho que ele vai mandar que me despeam na segunda-feira logo cedo.
 S passando por cima do meu cadver  disse Ed.  Posso ser apenas um primo para ele, mas tambm tenho minha cota de influncia na empresa. Se ele a despedir, eu a defenderei.
 Faria mesmo isso por mim, Ed?
 Claro.
Ela sorriu.
 Fico feliz em poder contar com voc. Realmente no suporto que...  Ela engoliu em seco.  Voc sabe que eu no suporto que nenhum homem se aproxime fisicamente de mim. O terapeuta disse que  possvel que eu consiga mudar isso algum dia, com o homem certo. Mas eu no sei...
 No se preocupe com isso. Venha. Vou lev-la de volta para a cidade e lhe oferecer um sorvete de baunilha. Que tal?
Leslie sorriu para ele.
 Obrigada, Ed.
Ele deu de ombros.
Esse  apenas mais um exemplo do meu excelente carter  brir.cou. Olhando na direo para onde o primo seguira, acrescentou:  Matt no est muito normal hoje  disse como que para si mesmo.  Vamos?
A distncia, Matt Caldwell ficou observando os dois seguirem em direo ao carro de Ed. Seu mau humor piorara depois daquele incidente. A namorada de Ed o fizera se sentir um verdadeiro idiota e ele detestava se sentir assim.
No deixou de notar que ela permitira que Ed a tocasse enquanto caminhavam, sendo que, minutos antes, repelira seu contato como se ele tivesse alguma doena contagiosa.
Ed arranjara uma namorada esquisita dessa vez. Mas as preferncias de seu primo no lhe diziam respeito, concluiu, virando o cavalo e dirigindo-se ao local onde o gado se encontrava reunido, mais adiante. Talvez o trabalho ajudasse seu mau humor a desaparecer.
Ed levou Leslie at o prdio de apartamentos onde ela morava.
 Acha mesmo que ele no vai me despedir?
 perguntou ela, preocupada.
Ed balanou a cabea negativamente.
 No, ele no vai despedi-la. Eu j lhe disse que no deixarei que isso acontea. Agora pare de se preocupar, est bem? Leslie forou um sorriso.
 Obrigada mais uma vez, Ed.
 No h de qu. At segunda-feira.
 At.
Leslie ficou olhando o belo carro esporte desaparecer a distncia. Em seguida, subiu pensativa para seu apartamento. Naquele dia, fizera um inimigo sem querer, mas esperava que isso no acabasse afetando sua vida. De qualquer maneira, no havia mais como voltar atrs no que dissera a Matt Caldwell.

Na segunda-feira de manh, Leslie chegou  mesa de trabalho dez minutos antes do horrio, a fim de causar uma boa impresso. Simpatizara com Connie e Jackie, as outras duas mulheres que dividiriam com ela a organizao das tarefas administrativas de Ed, o vice-presidente de marketing e pesquisa da empresa.
O trabalho no era difcil e o ambiente lhe pareceu agradvel. A empresa ocupava todo um prdio no centro de Jacobsville. Na verdade, tratava-se de uma antiga manso em estilo vitoriano, que Matt havia mandado reformar para usar como sede de sua empresa. Havia dois andares de escritrios e uma cantina no local onde antes existira uma cozinha e uma sala de jantar.
Matt passava boa parte do tempo fora do escritrio, resolvendo problemas externos. Alm disso, viajava com freqncia, pois alm de seu prprio negcio, ele tambm fazia parte da diretoria de outras empresas. Sem dvida, Matt Caldwell era um homem muito bem-sucedido.
 Ele deve sair muito, no?  dissera ela, certa vez, quando Ed contara que o primo havia viajado para Nova York, para participar de um jantar de gala.
 Com mulheres?  Ed sorriu.  Ele vive tendo de dispens-las. Matt  um dos solteires mais cobiados do Texas, mas nunca leva nenhuma mulher suficientemente a srio. Para ele, acho que elas servem apenas para serem exibidas em festas. Talvez ele no queira se ligar a ningum por haver tido uma infncia difcil.

 O que aconteceu?  Leslie franziu o cenho.
 A me dele o abandonou quando ele estava com seis anos de idade.
Ela conteve o flego.
 Por qu?
 Ela arranjou um namorado que no gostava de crianas. Ele disse que no iria criar Matt, ento ela o deu para meu pai. Por isso ele foi criado comigo. Essa  a razo de sermos to prximos.
 E quanto ao pai dele?
 Ns... no falamos sobre o pai dele. Na verdade, achamos que nem a me dele sabia quem era o pai de Matt. Houve muitos homens na vida dela.
 Mas o marido dela...
 Que marido?  Ed a interrompeu.
 Pensei que ela fosse casada.
 Beth no era do tipo que se casa. Ela no queria se prender a nada nem a ningum. Ela tambm no queria ter Matt, mas os pais dela fizeram um escndalo quando ela falou sobre aborto. Eles queriam muito ter um neto e acolheram Beth e Matt assim que ele nasceu.
 Mas voc disse que foi seu pai quem o criou
 lembrou Leslie.
 E verdade. Nossos avs morreram em um acidente de carro e, um ms depois disso, a casa deles foi destruda por um incndio. Houve rumores de que o acidente foi intencional para o recebimento do seguro, mas nada foi provado. Quando o incndio aconteceu, Matt estava no jardim com Beth, logo cedo pela manh. Ela o havia levado para ver as rosas do jardim, o que no foi uma atitude l muito comum da parte dela. Essa foi a sorte de Matt, porque ele teria morrido se houvesse ficado na casa, O dinheiro pago pelo seguro foi suficiente para Beth comprar algumas roupas novas e um carro. Depois disso, ela deixou Matt com meu pai e foi embora com o primeiro homem que apareceu.
O tom de voz de Ed estava repleto de indignao.
 Meu av deixou algumas aes da fazenda para ele, junto com uma pequena herana que ele s poderia obter ao completar vinte e um anos. E foi isso que impediu Beth de colocar as mos nisso tambm. Quando ele herdou a herana, mostrou logo que tinha talento para administr-la e foi aumentando a fortuna.
 E o que aconteceu  me dele?  perguntou Leslie.
 Ouvimos dizer que ela morreu h alguns anos. Matt nunca fala nela.
 Puxa, ele teve uma vida difcil.
 Sim  anuiu Ed.  Mas voc tambm sabe o que  isso melhor do que ningum.
Leslie sorriu, com ar de frustrao.
 Acho que sim. Meu pai morreu h vrios anos. Minha me fez o melhor, que pde para nos sustentar. Ela no era muito inteligente, mas era bonita e usou o que tinha a seu dispor.  Leslie suspirou.  Ainda no consegui perdoar o que ela fez. No  horrvel voc destruir sua prpria vida e a de vrias outras pessoas em uma questo de segundos? E tudo por qu? Por cime, quando no havia sequer motivo para isso. Ele no se importava comigo, queria apenas se divertir  custa de uma garota inocente. Ele e os amigos bbados.  Ela estremeceu, sob o efeito das lembranas dolorosas.
 Minha me pensava que o amava, mas o acesso de cime dela no o poupou, e ele acabou morto.
 Concordo que ela no deveria ter atirado, mas no h desculpa para o que ele e os amigos estavam fazendo com voc, Leslie.
Ela assentiu.
 Eu sei. Mas prefiro esquecer tudo isso e seguir em frente.
Felizmente, para ela, Ed no tocou mais naquele assunto.


Matt apareceu no escritrio alguns dias depois, naquela mesma semana. Leslie no pde deixar de se perguntar qual o tamanho do problema que criara para si mesma naquele primeiro encontro.
Ela estava digitando alguns relatrios no computador e levantou a vista assim que sentiu a presena dele  porta. Seus olhares se encontraram.
Matt trajava um elegante terno cinza, com camisa branca e gravata verde-escura. Estava segurando um cigarro apagado, e Leslie torceu para ele no acender o cigarro ali, pois ela era alrgica  fumaa de tabaco.
 Ento voc  a nova secretria de Ed  falou ele.
 Sim  ela concordou.
 O que voc fez para conseguir o emprego?  perguntou Matt, com ironia.  E com que freqncia?
Leslie pestanejou. No estava entendendo direito o que ele estava insinuando Desculpe-me, mas no entendi a pergunta.
 Por que Ed a escolheu em detrimento de outras dez candidatas mais qualificadas?
 Oh, isso!  Leslie hesitou. Claro que no poderia contar a verdade a ele.  Tenho alguma experincia nesse ramo de negcios porque trabalhei como assistente do pai dele durante quatro anos, no escritrio de advocacia. Posso no ter o diploma de bacharelado, que seria prefervel, mas tenho experincia. Ed disse que, para ele, isso era suficiente.
 Por que no cursou a faculdade? Ela engoliu em seco.
 Cheguei a cursar alguns anos, mas... tive de parar por problemas pessoais.
 Continua tendo problemas pessoais, srta. Murry  afirmou Matt.  E pode me colocar como o primeiro deles. Eu tinha outros planos para esse cargo que voc est ocupando. Portanto, espero que seja mesmo to competente quanto Ed acredita que voc seja.
Dizendo isso, levou o cigarro aos lbios. Mas afastou-o logo em seguida e olhou para a ponta molhada. Ento suspirou, voltando a segur-lo entre os dedos.
 Voc fuma?  perguntou Leslie.
 Eu tento.
Enquanto ele falava, uma atraente senhora de meia-idade e com cabelos loiros se aproximou dele.
 Preciso que assine isto aqui, sr. Caldwell. E o sr. Bailey est esperando-o na sua sala, para falar sobre aquela comisso da qual o senhor quer que ele participe.
 Obrigado, Edna.

Edna Jones sorriu.
 Bom dia, srta. Murry. Est se mantendo muito ocupada por aqui?
 Sim  respondeu Leslie, com um sorriso sincero.
 No deixe que ele acenda isso  continuou Edna, apontando para o cigarro de Matt.  Se precisar de uma dessas...  Ela mostrou a pistola dgua que estava segurando.  Posso providenciar uma para voc.  Ela sorriu para Matt, que continuou srio.  Aposto que ficar contente em saber que j equipei cada uma das garotas das outras salas com uma destas, sr. Caldwell. Portanto, pode contar conosco para ajud-lo a parar de fumar.
Matt continuou olhando para ela, que riu feito uma garota vinte anos mais nova, antes de acenar para Leslie e sair andando pelo corredor. Matt pensou em fazer uma careta de zombaria, mas se conteve a tempo. No era bom demonstrar nenhuma fraqueza ao inimigo.
Olhou com frieza para Leslie, ignorando o brilho de divertimento nos olhos dela. Ento assentiu e seguiu Edna pelo corredor, com o cigarro molhado entre os dedos.




CAPTULO II


Desde aquele primeiro encontro no trabalho, ficou muito claro que Leslie que Matt desaprovava totalmente o fato de ela estar ali. A implicncia de Matt chegava ao ponto de ele pedir a ela que fizesse tarefas desnecessrias, como digitar dados a respeito do gado de dez anos antes e que nunca haviam sido passados para o computador.
At mesmo Ed ficou aborrecido ao saber daquilo.
 Temos secretrias para fazer esse tipo de servio  resmungou ele, olhando as pginas impressas sobre a mesa dela.  Preciso de voc para os projetos.
 Ento diga isso a seu primo.
Ed balanou a cabea negativamente.
 No com o humor que ele tem andado. Matt anda meio esquisito ultimamente.
 Sabia que a secretria dele anda armada?
 brincou Leslie.  Ela carrega uma pistola dgua consigo.
Ed riu.
 Matt pediu a ela que o ajudasse a parar de fumar. Comprou uma poro daqueles brinquedos e deu uma para cada secretria. Todas as vezes que Matt leva um cigarro aos lbios, elas atiram nele.
 Garotas perigosas  falou ela, rindo.
 Pode apostar que sim. Eu j vi...
 No h nada para fazer por aqui?
Uma forma firme e grave soou atrs de Ed.
 Desculpe-me, Matt  Ed disse imediatamente.  Eu estava apenas inteirando Leslie a respeito de algumas coisas. Deseja alguma coisa?
 Preciso de uma atualizao a respeito das cabeas de gado que mandamos para Balienger
 disse ele. Ento voltou-se para Leslie e estreitou o olhar.  Esse tipo de trabalho  seu, no? Ela assentiu, engolindo em seco. Ed foi at a
sala dele, logo ao lado, atender ao telefone que havia comeado a tocar. Leslie se tornou tensa quando Matt se aproximou de sua mesa e pegou alguns papis para examinar.
 Pensei que voc tivesse experincia nisso  disse a ela.  Metade do texto est digitado errado.
Leslie olhou para os papis e assentiu.
 Sim, est, sr. Caldwell. Sinto muito, mas no fui eu quem datilografou isso.
Claro que no havia sido ela. Aqueles papis tinham mais de dez anos!, pensou indignada.
Matt se afastou da mesa, enquanto examinava o restante dos papis.
- Ento passe isso tambm para o computador, junto com todos os outros relatrios  mandou ele.  Isso est um lixo.
Pelo visto, ele queria mesmo provoc-la de alguma maneira. Leslie sabia que havia centenas de relatrios como aqueles para serem digitados e que o trabalho no demoraria horas nem dias, mas meses para ser completado. Mas j que ele era o dono da empresa, claro que teria de obedec-lo.
 Seu desejo  uma ordem, chefe  disse em um tom seco, recebendo um olhar surpreso por parte dele.  Ento devo deixar de lado tudo que Ed me pediu para fazer e passar os prximos meses me dedicando a isso?
A brusca mudana de atitude de Leslie pegou-o desprevenido.
 No estipulei um limite de tempo para isso
 disse a ela.  S mandei que fizesse.
 Oh, sim. Claro, senhor  ela concordou de imediato.
Ele respirou fundo, parecendo impaciente.
 Est se mostrando muito solcita, srta. Murry. Ou isso  apenas porque eu sou seu patro?
 Sempre tento fazer aquilo que me pedem, sr. Caldwell. Bem, quase sempre. Desde que haja um motivo plausvel.
Ele arqueou uma sobrancelha.
 E o que voc definiria como motivo plausvel?
 Um motivo que contenha um fundo profissional e no uma implicncia pessoal  respondeu ela, de pronto.
Leslie se surpreendeu quando ele a olhou de uma maneira diferente e no respondeu. Ento ele foi at a porta da sala de Ed e olhou para dentro.
 Ed, j conseguiu aquele relatrio que Angus nos prometeu?  disse ele.
Ed terminou o telefonema com algumas poucas palavras e mostrou a Matt a pasta que estava segurando.
 Est aqui. No lhe entreguei antes porque queria verificar os ltimos ndices de crescimento e de ganho de peso do gado. Eu queria colocar isso em sua mesa ainda hoje, mas acabei ficando sem tempo de examin-lo.
Matt pegou a pasta e examinou os papis por alguns segundos.
 Est aceitvel. Ele fez um bom trabalho.
Enquanto ele falava, Leslie o observou discretamente. Sentiu um aperto no peito ao pensar no garoto de seis anos que fora abandonado pela me. Sua prpria infncia tambm no havia sido fcil, mas a de Matt fora ainda pior.
Ao sentir que estava sendo observado, ele olhou para ela. Embaraada, Leslie desviou o olhar no mesmo instante. Matt se perguntou o que ela estivera pensando para ter aquela reao.
 Precisa de mais alguma coisa?  a pergunta de Ed interrompeu-lhe os pensamentos.
Matt deu de ombros.
 Por enquanto, no.  Olhou mais uma vez para Leslie.  No se esquea de refazer os arquivos que eu pedi.
Depois que Matt saiu, Ed continuou olhando para a porta fechada durante algum tempo.
 Que arquivos?
Leslie explicou os detalhes a ele.
 Mas aquilo est desatualizado  murmurou Ed, pensativo.  E ele nunca se importou com aqueles dados. No entendo por que ele lhe pediu isso.

Ela se inclinou para frente.
 Porque foi uma forma de me irritar e de me fazer trabalhar mais ainda!  cochichou Leslie, em um tom irritado.
Ed arqueou as sobrancelhas.
 Mas Matt no  do tipo que faz esse tipo
 Isso  o que voc pensa.  Leslie pegou os papis que Matt havia deixado sobre a mesa  Comearei por esses quando terminar de organizar sua correspondncia. Acha que ele vai querer que eu fique depois do expediente? Mas vai ter de me pagar as horas extras.  Sorriu ao acrescentar:  Quem sabe isso no o desanime um pouco?
 Deixe-me primeiro perguntar a Matt  Ed se voluntariou.  Faa seu trabalho normal, por enquanto.
 Tudo bem. Obrigada, Ed.
Ele deu de ombros.
 Para que servem os amigos?  disse, com um sorriso.


O escritrio era um timo lugar para se trabalhar. Leslie se divertia vendo as outras secretrias sabotando as tentativas de fumar de Matt. Um dos momentos divertidos que ela presenciou foi quando Matt estava tentando acender um cigarro e a secretria dele se escondeu atrs de uma das plantas do escritrio e mirou a pistola dgua no cigarro, apagando-o.
Outro incidente engraado foi quando ele deixou cigarro aceso sobre a mesa de Bessie David e ela acidentalmente o deixou cair na xcara de caf dele, que se encontrava logo ao lado. Matt olhou para a xcara, ento lanou um olhar acuador para Bessie.
 O senhor nos deu permisso para isso  lembrou Bessie.
Com uma careta de desgosto, ele deixou a xcara para trs e saiu. Leslie presenciara tudo de um canto da sala, de onde no fora vista. Durante todo o tempo, tivera de se esforar para conter o riso. Surpreendia-se com a maneira como Matt era amigvel e gentil com os empregados. Com ela, no entanto, ele continuava mantendo uma atitude implicante. Em certos momentos, perguntava-se o que ele faria se ela usasse a pistola dgua que a secretria dele havia lhe dado. Quando deu por si, estava rindo, imaginando Matt Caldwell correndo atrs dela, furioso, pela rua principal de Jacobsville.
Alguns dias depois, Matt apareceu no escritrio de Ed segurando um cigarro entre os dedos. Apesar da atitude das outras secretrias, Leslie no disse nada ao v-lo segurando o cigarro apagado.
 Quero ver a resposta da Associao dos Criadores de Gado sobre o teste de brucelose.
Leslie olhou para ele.
 Desculpe-me?
Matt olhou-a em silncio por um instante. Ele estava se acostumando  presena dela cada vez mais, e no estava gostando nada disso.
 Ed me disse que voc tinha uma cpia do relatrio  disse ele.  Chegou junto com a correspondncia de ontem. 

 Est bem.
Leslie sabia onde a correspondncia fora deixada. Em silncio, foi at a caixa de entrada e pegou o envelope com o smbolo da Associao dos Criadores de Gado. Ento o entregou a Matt.
Durante o tempo em que a observara, Matt notou que ela estava mancando um pouco. No era possvel ver as pernas dela, porque Leslie estava usando uma saia longa, como tantas outras com as quais ele j a vira vestida. Era como se Leslie no gostasse de chamar ateno sobre seu corpo.
 Voc est mancando. Foi consultar um mdico depois da queda que sofreu na minha fazenda?
 No foi preciso  respondeu ela, sem hesitar. Foi um machucado leve que agora est dolorido.
S isso.
Matt apertou o boto do interfone sobre a mesa dela.
 Edna, marque uma consulta para a srta. Murry com Lou Coltrain o mais rpido possvel. Ela caiu de um cavalo, na minha fazenda, e ainda est mancando. Quero que ela faa alguns exames para ver se est tudo bem.
 No!  Leslie protestou.
 Avise-a quando a consulta estiver marcada. Obrigado  ele agradeceu e desligou.  Ento os olhos negros encontraram os de Leslie.  Voc ir ao mdico, sim.
Ela desviou o olhar. Detestava mdicos. O mdico da sala de emergncia, em Houston, um homem j aposentado e que no parecia haver sido muito dedicado  profisso, havia feito com que ela se sentisse totalmente humilhada enquanto a examinava, dizendo coisas horrveis a respeito de sua moral. Ela nunca se recuperara daquele trauma duplo, apesar do esforo dos terapeutas com os quais ela havia se tratado depois.
Enrijeceu o maxilar e olhou para Matt mais uma vez.
 Eu j disse que no estou machucada.
 Voc trabalha aqui. Eu sou seu patro e voc ser examinada. Ponto final.
Leslie sentiu vontade de pedir demisso. Gostaria de poder faz-lo, mas no teria para onde ir se saisse dali. Houston estava fora de cogitao. Sabia que seria encontrada pelos reprteres assim que colocasse os ps na cidade, apesar de seu disfarce.
Ela respirou fundo, tentando se controlar. Matt pareceu surpreso com aquela atitude.
 No quer se certificar de que o ferimento no a deixar manca permanentemente?
Leslie levantou o queixo, com ar de orgulho.
 Sr. Caldwell, eu sofri um acidente quando tinha dezessete anos e minha perna ficou com uma leso permanente. Eu sempre manquei um pouco. Portanto, no foi a queda do cavalo que provocou isso.
Matt pareceu conter o flego por alguns segundos.
 Mais um motivo para voc ir fazer os exames
 replicou ele.  Pelo visto, gosta de viver perigosamente porque no deveria nem haver montado naquele cavalo.
 Ed disse que o cavalo era manso. Na verdade, foi por minha culpa que ele empinou. Eu o assustei quando puxei as rdeas de repente.


Matt estreitou o olhar.
 Sim, eu lembro. Estava tentando se afastar de mim. Pelo visto, acha que eu tenho alguma doena contagiosa.
 No  isso  refutou Legue.  S no gosto de se tocada.
Ed a toca quando quer.
Leslie no imaginou como responder quilo sem ter de contar tudo a ele. E no suportaria que ele soubesse a verdade srdida sobre seu passado.
 No gosto de ser tocada por estranhos  disse apenas.  Mas eu e Ed nos conhecemos h muitos anos. E... diferente com ele.
Matt estreitou o olhar.
 Deve ser.
O sorriso irnico que ele mostrou em seguida deixou-a aborrecida.
 Voc parece um rolo compressor, no?  falou de repente.  S porque  rico e poderoso acha que nenhuma mulher  capaz de resistir a voc.
Matt no gostou de ouvir aquilo. Um brilho perigoso surgiu nos olhos dele.
 No deveria dar ouvidos a fofocas  disse ele, em um tom perigosamente calmo.  Ela era uma garotinha mimada que pensava que o pai poderia comprar o homem que ela quisesse. Mas quando ela descobriu que isso no era possvel, comeou a trabalhar para um amigo meu e passou algumas semanas me perseguindo por Jacobsville. At que cheguei em casa uma noite e a encontrei na minha cama, vestida apenas com um lenol. Eia a coloquei para fora, mas ela saiu dizendo para todo mundo que eu a havia atacado. Ela continuou dizendo isso no tribunal, at minha governanta testemunhar e dizer toda a verdade.
 Ah, meu Deus  murmurou Leslie.
Ento, alm dos problemas que ele havia tido com a me, Matt ainda tivera de enfrentar aquilo? No sabia nada sobre aquele incidente do passado dele, mas, pelo visto, seu comentrio o levara a pensar que ela sabia.
Os lbios dele se curvaram em um sorriso amargo.
 Mas, at o julgamento, ela conseguiu fazer com que me prendessem e me acusassem de um crime que eu no cometi  continuou ele.  Fiquei famoso na poca. O sujeito com um passado imaculado que de repente virara um criminoso. Depois ela tentou o mesmo truque com um empresrio do ramo de petrleo, em Houston. S que ele me chamou para testemunhar a favor dele. Quando ele ganhou a causa, fez com que ela fosse indiciada por fraude e extorso. E ela foi presa.
Leslie sentiu o estmago revirar. Matt tambm j havia passado momentos realmente dificeis na vida. Aquilo explicava por que ele no se casara. Casamento era um compromisso que envolvia confiana e, pelo visto, ele no confiava em nenhuma mulher.
E, certamente, isso tambm explicava a hostilidade que Matt demonstrara em relao a ela. Talvez estivesse pensando que comeara a trabalhar na empresa com a inteno de cometer algum golpe ou at de causar algum escndalo pblico. Se pelo menos pudesse dizer a ele que era justamente disso que ela estava fugindo...

 Talvez esteja pensando que eu sou desse tipo  disse, aps um momento de silncio.  Mas eu no sou.
 Ento por que age como se eu fosse atac-la sempre que chego perto de voc?  indagou Matt.
 Ed  seu amante?  insistiu ele, quando Leslie permaneceu em silncio.
 Pergunte a ele.
Matt rolou o cigarro apagado entre os dedos, olhando para ela.
 Voc  como se fosse um quebra-cabea para mim  confessou ele.
 Mas eu me considero muito simples  disse Leslie, forando um sorriso. Em seguida voltou a ficar sria ao dizer:  No gosto de mdicos. Principalmente do sexo masculino.
Lou  uma mdica  salientou Matt.  Ela e o marido so mdicos e tm um filho pequeno.
Oh...
Uma mulher. Isso tornaria as coisas mais fceis, pensou Leslie. Mas, mesmo assim, no queria ser examinada. O exame poderia denunciar qual havia sido a origem do problema, e ela no poderia confiar que a mdica manteria segredo.
 A deciso a respeito disso no depende de voc  falou Matt.  Est trabalhando na minha empresa e sofreu o acidente na minha fazenda, portanto, sou responsvel por isso.
Leslie fitou-o nos olhos. De fato, no podia culp-lo por sentir-se assim.
 Est bem  respondeu.  Deixarei que ela me examine.

 Sem mais protestos?  Matt arqueou uma sobrancelha.
Ela deu de ombros.
 O senhor  o patro por aqui. Ento, farei o que quer. Essa dra. Coltrain  a mdica da empresa?
 Sim.
Leslie mordeu o lbio inferior.
 E ela guarda o resultado dos exames como assunto confidencial, certo?  acrescentou ela, com ar preocupado.
Matt no respondeu de imediato, ainda movendo o cigarro entre os dedos.
 Sim  ele disse.  E confidencial. Est me deixando curioso, srta. Murry. Por acaso est escondendo algum segredo?
 Todos ns guardamos segredos  replicou Leslie.  Alguns mais sombrios do que outros.
Ele bateu o polegar na ponta do cigarro.
 E qual  o seu? Atirou m seu amante?
Leslie no ousou demonstrar nenhuma reao diante do comentrio. Felizmente, conseguiu permanecer impassvel. Matt guardou o cigarro no bolso.
 Edna vai avis-la quando a consulta com Lou estiver marcada  declarou ele, olhando para o relgio. Ento indicou o envelope.  Diga a Ed que peguei isso. Depois falarei com ele sobre esse assunto.
 Sim, senhor.
Mattj estava a caminho da porta, mas resistiu ao impulso de olhar para Leslie. Quanto mais descobria a respeito dela, mas intrigado se sentia. Ela tinha o poder de inquiet-lo. De uma maneira que ele no sabia explicar.

No houve como escapar da consulta ao mdico. Leslie falou brevemente com a dra. Coltrain, antes de ser mandada para a sala onde eram feitos os exames de raios X.
Uma hora depois, ela estava de volta ao consultrio de Lou, observando a mdica examinar as chapas sobre uma placa iluminada. Lou pareceu preocupada.
 No h nenhuma leso pela queda, exceto alguns machucados  disse ela. Olhando para Leslie, acrescentou:  Mas as fraturas em sua perna so mais antigas.
Leslie enrijeceu o maxilar e no respondeu nada. Lou voltou a se sentar  mesa, diante de Leslie.
 No quer falar sobre isso, no ?  disse a mdica, com gentileza.  No vou insistir. Mas voc sabe que os ossos no cicatrizaram devida- mente na poca, no sabe? Por isso est mancando at hoje. Eu deveria encaminh-la para um cirurgio ortopedista.
 Pode me encaminhar, mas eu no irei  avisou Leslie.
Lou uniu as mos sobre a mesa.
 Sei que no me conhece o suficiente para confiar em mim. Mas depois que estiver em Jacobsville por algum tempo, saber que sou de confiana. No falo com ningum sobre meus pacientes, nem mesmo com meu marido. Prometo que no direi nada a Matt.
Leslie permaneceu em silncio. Como sempre, era difcil se abrir com estranhos. J havia sido suficientemente difcil fazer isso com o terapeuta no passado.

A mdica suspirou.
 Tudo bem, no vou insistir. Mas se precisar de algum com quem conversar, pode contar comigo.
Leslie levantou a vista para ela.
 Obrigada, doutora agradeceu, com sinceridade.
 Voc no  a companhia preferida de Matt, acertei?  Lou perguntou de repente.
Legue no conteve o riso.
 No, no sou. Mais cedo ou mais tarde, acho que ele acabar encontrando uma maneira de me despedir.
 Estranho, porque Matt se d bem com todo mundo. Ele  muito gentil com as pessoas que estima.
 Ele  um rolo compressor  afirmou Leslie.
 Parece que s consegue falar com as pessoas se estiver por cima delas  acrescentou e cruzou os braos, parecendo pouco  vontade.
Ento  isso, pensou Lou, imaginando se Legue tinha idia do que sua linguagem corporal estava denunciando. Algum causara aquele ferimento na perna de Legue. Provavelmente um homem.
 Voc no gosta que as pessoas a toquem  disse Lou.
Leslie se endireitou na cadeira.
 No.
Lou observou as roupas conservadoras que Leslie usava, porm no disse mais nada. Por fim, ficou de p e sorriu com gentileza.
 No houve nenhuma leso nessa ltima queda  explicou.  Mas volte a me procurar se a dor piorar.
Leslie franziu o cenho.

 Como sabe que eu estava com dor?  perguntou ela, lembrando-se de que no havia mencionado esse detalhe  mdica.
 Matt disse que voc estava fazendo uma expresso de dor todas as vezes que levantava da cadeira.
Leslie se surpreendeu.
 No imaginei que ele houvesse notado.
 Ele  muito observador.
Lou prescreveu um analgsico para a dor e avisou mais uma vez para Leslie procur-la se a dor no passasse.
Leslie assentiu e saiu do consultrio em meio a uma espcie de torpor, imaginando o que mais Matt Caldwell deduzira sobre ela apenas por meio de observao. Sentiu-se pouco  vontade com a idia.
Fazia menos de dez minutos que ela havia chegado ao escritrio quando Matt apareceu  porta.
 E ento?  perguntou ele.
 Eu estou bem  Leslie respondeu.  Fiquei apenas com alguns hematomas. Mas fique tranqilo, no vou process-lo.
Matt no demonstrou nenhuma reao, embora estivesse aborrecido. Lou. no havia lhe dito nada, exceto que Leslie era fechada feito uma concha.
Mas isso ele j sabia.
 Diga a Ed que eu vou ficar fora por alguns dias  avisou ele.
 Sim, senhor.
Matt olhou-a uma ltima vez e se retirou. Mas somente quando Leslie teve certeza de que ele j havia se afastado suficientemente foi que ela comeou a relaxar.



CAPTULO III



Leslie voltou a ter pesadelos naquela noite. Na verdade, ela j havia deduzido que iria t-los, devido  consulta com a dra. Coltrain e ao exame de raios X.
Ter de usar sapatos de salto alto para trabalhar tambm no contribura muito para sua recuperao. Como se no bastasse ter aqueles pesadelos horrveis, a dor em sua perna estava quase insuportvel.
No meio da noite, tomou duas aspirinas, na esperana de que o remdio amenizasse um pouco a dor. Enquanto esperava o remdio fazer efeito, chegou  concluso de que teria de abrir mo da moda e voltar a usar sapatos baixos.
Contudo, isso no passou despercebido por Matt quando ele voltou para o escritrio, trs dias depois. Ele estreitou o olhar ao v-la andar em direo  sala dela.
 Lou deveria ter lhe receitado algum remdio para dor  disse ele, parando  porta.
Leslie havia acabado de tirar uma pasta do arquivo.
 E foi o que ela fez. Mas analgsicos me deixam muito sonolenta e no seria produtivo trabalhar assim.

 Ficar sentindo a dor tambm no  produtivo. Ela assentiu.
 Eu sei disso. Tenho algumas aspirinas na bolsa, mas a dor no est muito forte. So apenas alguns hematomas que logo desaparecero. A prpria dra. Coltrajn disse isso.
 Mas voc no deveria ainda estar mancando depois de uma semana. Quero que v se consultar com Lou mais uma vez...
 Eu ando deste jeito h seis anos, sr. Caldwell
 afirmou Leslie, com calma.  Se no gosta de me ver mancando, talvez seja melhor no ficar me olhando.
Ele arqueou as sobrancelhas.
 Os mdicos no podem fazer nada para curla disso?
Leslje o encarou.
 Eu odeio mdicos!
A veemncia da afirmao espantou Matt. A expresso de Leslie ficara totalmente alterada, muito diferente do semblante tranqilo que ela Costumava manter.
 Nem todos eles so ruins  salientou ele.
 Eu sei, mas eles no podem fazer milagres. Reconstituir um osso esmigalhado no  tarefa fcil.
Leslie se arrependeu assim que terminou de falar. No pretendia contar a ele detalhes sobre sua fratura.
No mesmo instante, um ar de questionameno surgiu no rosto dele. Felizmente, porm, Leslie foi salva de ter de dar mais explicaes quando Ed saiu da saladele de repente.

Matt! Que bom que j voltou. Acabei de falar com Bill Payton e ele queria saber se voc vai comparecer ao jantar, no sbado  noite. Haver msica ao vivo e tudo mais  acrescentou ele, com um sorriso.
Sim, eu irei  respondeu Matt, com ar ausente.  Diga a ele para reservar dois convites para mim. Voc tambm vai?
 Pensei em ir e levar Leslie comigo.  Voltando-se para ela, Ed explicou:  Ser o jantar anual da Associao de Criadores de Gado de Jacobsville. Teremos de assistir a algumas palestras, mas se voc sobreviver a elas e  galinha borrachenta servida no jantar, poderemos at danar um pouco.
 No sei se ela vai conseguir danar muito
 salientou Matt, olhando para Leslie. Ed arqueou as sobrancelhas.
 Voc ficaria surpreso se a visse danar, Matt
 falou ele, evidentemente no entendendo a que o primo se referira.  Leslie adora msicas latinas.  Voltando-se para ela, Ed acrescentou:  Matt tambm gosta de msica latina. Voc no acreditaria no que ele  capaz de fazer ao ouvir um mambo ou uma rumba, isso sem falar em tango. Ele namorou uma professora de dana durante alguns meses, mas o talento que ele j tinha ajudou bastante.
Matt no disse nada. Continuou observando o semblante de Leslie enquanto se perguntava se. Ed saberia algo sobre aquele problema na perna dela, e se conseguiria obter mais informaes a respeito disso.

 Podem ir comigo, se quiserem  sugeriu Matt.  Vou alugar a limusine de Jack Bailey e talvez isso oferea um pouco de aventura  sua secretria.
Ser uma aventura para mim tambm  afirmou Ed.  Obrigado, Matt. Detesto ficar procurando um lugar para estacionar quando h alguma festa no clube.
 Ento somos dois.
Uma das secretrias das outras salas avisou Matt de que havia um telefonema para ele. Matt se retirou e Ed saiu logo depois dele para uma reunio.
Leslie se perguntou como agentaria passar uma festa inteira na companhia de Matt Caldwell, e talvez at danando com ele, sem se envolver demais. Sem dvida, seria um desafio.
Leslie tinha apenas um vestido que seria adequado para a festa no clube. Tratava-se de um longo reto azul-royal cujo maior charme eram as alas finssimas que deixavam seus ombros  mostra. Os sapatos pretos tinham o salto confortavelmente baixo, sem abrir mo da elegncia. Ela havia prendido os cabelos em um coque frouxo, deixando alguns fios soltos ao redor do rosto e do pescoo.
Ed suspirou ao avist-la, enquanto a limusine parava diante da casa dela. Ele saiu do carro e foi ao encontro dela na varanda. Leslie segurava uma pequena bolsa preta e mal conseguia disfarar a ansiedade diante de sua primeira festa desde os dezessete anos. Estava incrivelmente nervosa.

 Estou bem assim?  perguntou a Ed, hesitante.
Ele sorriu.
 Est linda.
 Voc tambm no est nada mal com esse smoking  observou ela, tambm sorrindo.
 No deixe que Matt perceba quanto voc est nervosa  falou Ed, enquanto os dois se encaminhavam para o carro.  Algum telefonou e o tirou do srio pouco antes de sairmos da minha casa. Carolyn est quase chorando.
 Carolyn?  Leslie franziu o cenho.
 A mais nova namorada dele. Ela pertence a urna das famlias mais tradicionais de Houston. Veio passar alguns dias na casa da tia, por isso estava disponvel para nos acompanhar esta noite. Ela passou meses tentando conquistar Matt.
 Ela  bonita?
 Muito  respondeu ele.  Em alguns momentos, ela me faz lembrar de Franny.
Franny fora a noiva de Ed, que morrera durante um assalto ao banco onde ela trabalhava. O trgico incidente acontecera na mesma poca em que Leslie tivera complicaes em casa, por isso a amizade dos dois havia se tornado ainda mais intensa.
 Deve ser difcil para voc  sups ela, em
um tom solidrio.
Ed olhou-a com ar de curiosidade quando eles chegaram ao carro.
 Leslie, voc nunca se apaixonou? Ela deu de ombros.
 O que aconteceu comigo me deixou desconfiada em relao aos homens.

 No  de admirar.
Ele esperou o chofer abrir a porta da limusine para eles. Leslie entrou primeiro, seguida por Ed. Quando Leslie se acomodou no assento, deparou- se com uma belssima loira. Trajava um vestido preto, reto, e usava inmeros brilhantes.
 Voc deve se lembrar do meu primo, Ed  disse Matt, sentado ao lado dela.  Essa  a secretria dele, srta. Murry. Esta  Carolyn Engles
 acrescentou, apresentando a loira a Leslie.
Depois de trocarem alguns cumprimentos, Leslie observou o luxuoso interior do carro, que mais lembrava um pequeno apartamento sobre rodas.
 Nunca esteve em uma limusine antes?  perguntou Matt, com ar de divertimento.
 Para ser sincera, no  Leslie respondeu.
 Obrigada pela oportunidade que est me dando de conhecer uma.
Por um momento, Matt pareceu desconcertado com a resposta. Dirigindo-se ao primo, ele falou:
 Amanh, logo cedo, quero que voc suspenda todo o dinheiro de patrocnio que estamos fornecendo a Marcus Boles. Ningum, e eu estou dizendo ningum, vai me envolver em um negcio escuso como esse.
 Estou surpreso que no tenhamos enxergado quem ele era desde o incio  disse Ed.
 Ele comprou uma propriedade na Amrica do Sul  falou Matt.  Ouvi dizer que ele vai morar l. Se tiver sorte, amanh conseguir chegar ao aeroporto antes de se deparar comigo.
A ameaa implcita no comentrio continuou pairando no ar durante algum tempo. Leslie estremeceu. Das pessoas ali presentes, ela, mais do que ningum, sabia o que a agresso fsica era capaz de causar. Suas lembranas eram enevoadas e confusas, mas sempre se tornavam muito ntidas nos pesadelos que tinha constantemente.
 Calma, querido  Carolyn disse a Matt com gentileza.  Est assustando a srta. Marley.
 Murry  Ed a corrigiu.  Que estranho, Carolyn, no lembro de voc ter memria fraca para nomes.
Carolyn limpou a garganta.
 Que bom que a noite est agradvel, no?
 Ela mudou de assunto de repente.  Nenhum indcio de chuva e a lua est maravilhosa.
 Sim,  verdade.
Matt lanou um olhar severo para o primo, que respondeu com um sorriso vago. Leslie se divertia com a maneira como Ed era capaz de fingir inocncia Conhecia-o muito bem para saber que ele estava fingindo.
Matt, por sua vez, no parava de admirar Leslie, trajando aquele vestido simples, mas muito elegante. Sua pele parecia uma plida superfcie de veludo e ele se perguntou se ela seria to macia ao toque quanto parecia ser. Leslie no era uma mulher de beleza extraordinria, mas tinha um encanto todo prprio, algo que o atraa de uma maneira que ele no sabia explicar.
 De onde voc , srta. Murbery?  Carolyn
perguntou.
 Murry  Leslie a corrigiu discretamente.  Sou de uma cidade pequena ao norte de Houston.

 Uma genuna texana  brincou Ed, sorrindo para ela.
 Qual o nome da cidade?  Matt indagou.
 Nem vale a pena dizer porque tenho certeza de que nunca ouviram falar dela  respondeu Leslie, sem querer fornecer maiores detalhes.
 Seus pais so fazendeiros?  Matt insistiu.
Ela balanou a cabea negativamente.
 Meu pai era agroqumico.
 O qu?  Carolyn franziu o cenho.
 Algum com conhecimento qumico em agronomia  explicou Leslie.  Ele.., morreu devido ao trabalho.
 Pesticidas  concluiu Matt.  O que diabos  preciso para que o governo...
 Matt, ser que poderamos deixar a poltica de lado pelo menos esta noite?  pediu Ed.  Eu gostaria de me divertir um pouco.
Matt lanou um olhar de censura para o primo, mas logo relaxou e se recostou no assento, passando o brao pelos ombros de Carolyn e puxando-a para si. O brilho de divertimento em seu olhar pareceu denunciar que ele apreciara o desconforto que seu gesto provocara em Leslie.
Se ele estava querendo provoc-la com aquilo, estava conseguindo.
O clube ficava s margens de um lago, formando um bonito cenrio todo iluminado. Os chafarizes e os arcos em volta do prdio contribuam ainda mais para tornar o local encantador, fazendo dele um dos orgulhos dos moradores de Jacobsville.

E como Ed previra, no havia sequer uma vaga disponvel para estacionar o carro. Matt anotou o nmero do pager do motorista, e ficou de cham-lo quando fosse necessrio. Os quatro foram recebidos por um comit de boas-vindas  porta do clube.
Havia uma banda tocando msica ao vivo. Leslie foi logo se animando ao distinguir o agradvel ritmo de bossa nova. Ela sempre se sentia muito viva quando ouvia msica. Qualquer tipo de msica. Na infncia, a msica havia sido seu meio de escapar daquele ambiente que s vezes se tornava quase insuportvel. No aprendera a tocar nenhum instrumento, mas sabia danar muito bem. De fato, o amor pela dana era a nica coisa que ela e a me tinham em comum. Marie havia ensinado todos os passos que Leslie conhecia, e no eram poucos. Por isso se tornara ainda mais irnico o fato de seu amor pela dana haver sido drasticamente afetado pelo evento ocorrido quando ela estava com dezessete anos.
 Prepare seu prato  disse Ed, aproximando-se com ela da mesa do buf.  Est precisando engordar um pouco.
Leslie sorriu para ele.
 No estou magra, Ed.
 Est sim  respondeu ele, em um tom srio.
 Vamos l, esquea um pouco os problemas e divirta-se. Aproveite a noite ao mximo! Coma, beba e seja feliz!
Por que amanh voc voltar a ser a mesma, completou Leslie, em pensamento. Colocou alguns canaps em um prato e serviu-se de refrigerante, em vez de bebida alcolica.
Ed encontrou duas cadeiras desocupadas prximas  pista de dana, de onde eles poderiam ouvir a msica com nitidez e observar os casais danarem.
A vocalista da banda era uma bonita morena com cabelos compridos, dona de uma belssima voz. Ela estava tocando violo e cantando uma cano to romntica que fez Leslie suspirar alto. Quando deu por si, um sorriso estava curvando seus lbios.
Mesmo estando do outro lado do salo, Matt notou a mudana em Leslie. Ela adorava msica. E podia apostar que ela tambm adorava danar, concluiu, sentindo seus dedos se contrarem junto ao prato.
 Vamos nos sentar com os Devore, querido?
 sugeriu Carolyn, indicando um casal de tima aparncia, que ocupava uma mesa do outro lado do salo.
 Acho melhor continuarmos acompanhando meu primo  respondeu ele.  Ed no est acostumado a esse tipo de evento.
Para mim, ele parece bastante familiarizado com o ambiente  observou Carolyn, olhando na mesma direo que ele.  Na verdade,  a acompanhante dele que est parecendo pouco  vontade. Meus Deus, ela est batendo o p no ritmo da msica! Que atitude deselegante!
 Carolyn, no acredito que nunca tenha feito isso na vida  ironizou Matt.  Ou ser que j nasceu assim, to completa e aborrecidamente sofisticada?

Ela arregalou os olhos. Matt nunca havia falado com ela daquela maneira.
 Desculpe-me  disse ele, percebendo que se excedera.  Ainda estou aborrecido com Boles.
 Eu... notei  falou ela, ainda abalada.
Os dois seguiram em direo  mesa ocupada por Ed e Leslie. Matt sentou-se diante de Leslie, que se tornou tensa no mesmo instante.
 Carolyn, troque de lugar comigo  disse Matt de repente, forando um sorriso.  Esta cadeira est baixa demais para mim.
 No acho que a minha seja muito mais alta do que a sua, querido, mas se  o que voc quer...
 respondeu Carolyn, em um tom adocicado.
Leslie relaxou. Lanou um sorriso tmido para Carolyn, ento voltou a prestar ateno na vocalista da banda.
 Ela no  maravilhosa?  indagou Carolyn.
 Ela  de Yucatn.
 Alm de talentosa,  tambm muito bonita
 acrescentou Ed.  Adoro este ritmo.
 Oh, eu tambm  anuiu Leslie, comendo um canap sem desviar a ateno do palco.
Matt se ps a observ-la, surpreso com a desinibio de Leslie diante da msica. Quando haviam chegado, ela parecera pouco  vontade, mas bastara comear a ouvir a msica para se tornar uma pessoa diferente. Estava tendo uma amostra de como ela era antes de se transformar naquela pessoa desconfiada, que temia a aproximao fsica dos outros. O que teria acontecido para deix-la assim? Sentia-se intrigado a esse respeito, mas no sabia por onde comear a encontrar respostas. Leslie parecia uma pessoa de personalidade complexa.
Ed notou o olhar atento de Matt sobre Leslie. Teve vontade de chamar o primo a um canto e contar toda a triste histria a ele. Sabia que Matt estava curioso a respeito de Leslie, e que ele era muito persistente quando queria descobrir uma coisa. Ele acabaria questionando Leslie a respeito disso e ela iria se encolher na concha que as experincias desagradveis haviam criado em torno dela. Leslie estava comeando a sair ao sol e l estava Matt prestes
empurr-la de volta para a sombra.
Por que seu primo no conseguia se contentar com a adorao de Carolyn? O problema era que, diferentemente das outras mulheres, Leslie no vivia se jogando aos ps dele. E Ed tinha certeza de que era justamente por isso que Matt se sentia atrado por ela. No ntimo, estava receoso pelo que Matt poderia causar aos frgeis sentimentos de Leslie.
Naquele momento, as pessoas comearam a aplaudir, a cano havia terminado. A cantora agradeceu e apresentou os membros da banda, antes que os primeiros acordes envolventes de Aquarela do Brasil comeassem a tocar. Aquela era uma das msicas preferidas de Leslie, e ela deixou transparecer isso de imediato. Com um brilho de entusiasmo no olhar, comeou a tamborilar os dedos sobre a mesa, morrendo de vontade de danar ao som daquela msica de ritmo contagiante.
Como que entendendo a mensagem, Matt ficou de p. E antes que Leslie tivesse tempo de hesitar ou de recusar o convite, ele a conduziu gentilmente at a pista de dana.
Seus olhos encontraram os dela, enquanto a envolvia pela cintura e segurava-lhe a mo esquerda no ar.
 No vou fazer nenhuma virada sbita  prometeu ele.
Ento assentiu uma vez, para marcar o ritmo. O que aconteceu em seguida foi a realizao de um sonho para Leslie. Conteve o flego ao notar a habilidade de Matt e simplesmente se esqueceu de ter medo dele. Esqueceu-se de que deveria estar apreensiva ao se ver to perto de um homem. Sem nenhum trao de temor, deixou-se levar pelo ritmo e pela satisfao de ter um parceiro que sabia danar com perfeio ao som do ritmo brasileiro.
 Voc dana muito bem  elogiou Matt, sorrindo com sinceridade enquanto eles se moviam pela pista.
 Voc tambm.  Leslie tambm sorriu.
 Se sentir algo na perna avise-me, e eu a levarei de volta para a mesa, est bem?
 Sim.
 Ento vamos continuar.
Matt a conduziu pela pista de dana com a habilidad de um danarino profissional, e Leslie o acompanhou com tanta perfeio que os outros asais pararam de danar para admir-los.
Envolvidos pela msica, Leslie e Matt nem prestaram ateno na expresso de admirao das pessoas e no sorriso dos componentes da banda.

Quando soaram os acordes finais da msica, Matt puxou-a para si e inclinou-a com elegncia, em uma finalizao admirvel, mas dolorosa.
Os aplausos que se seguiram foram entusiasmados. Matt levantou Leslie e somente ento notou quanto ela estava plida.
 Muita coisa em pouco tempo, no?  murmurou ele, com ar preocupado.  Venha, vamos para a mesa.
Sem se aproximar muito dela, Matt ofereceu-lhe o brao, para que ela s apoiasse. Leslie o acompanhou com certa dificuldade, devido  dor, mas no se arrependeu nem por um momento.
De fato, s se deu conta de que havia falado sobre a dor quando ouviu Matt dizer:
 Por acaso trouxe uma aspirina nessa bolsa minscula?
Ela riu, balanando a cabea negativamente.
 Voltarei em um instante  disse ele, antes de se afastar.
Ed se aproximou e segurou a mo dela com delicadeza.
 Danou maravilhosamente, Leslie  elogiou ele.  Foi incrvel! Nunca imaginei que voc danasse to bem.
 Nem eu  brincou ela.
 Foi uma exibio e tanto anuiu Carolyn, em um tom frio.  Mas foi tolice fazer algo to doloroso para voc. Agora aposto que Matt vai passar o resto da noite se culpando e procurando uma aspirina para voc.
Aps dizer isso, ela se afastou para o outro lado do salo.

 Ela ficou de mau humor  asseverou Ed.
 Eu no deveria ter feito isso  murmurou Leslie.  Mas foi to divertido, Ed! Nunca me senti to viva!
 Eu notei.  Ele sorriu.  Foi bom ver seus olhos brilhando novamente.
Ela demonstrou um ar de preocupao.
 Arruinei a noite de Carolyn.
 Foi uma troca justa  respondeu ele.  Ela arruinou a minha no instante em que entrou na limusine e disse que eu estava com cheiro de confeitaria de shopping.
 Seu perfume est timo  falou Leslie.
Ele sorriu.
 Obrigado.
Matt apareceu logo em seguida, trazendo Lou Coltrain consigo.
 Puxa  murmurou ela, olhando para Leslie
, pensei que voc estivesse morrendo pela maneira como Matt segurou meu brao e me trouxe at aqui.
 Eu no trouxe nenhuma aspirina  falou Leslie.  Sinto muito...
 No h nada a lamentar  Lou a interrompeu, tocando a mo de Leslie.  Mas voc estava com um hematoma feio e esse no era o tipo de exerccio que eu recomendaria. Ossos fraturados nunca se recuperam completamente, mesmo depois de recompostos, o que no  exatamente o caso da sua fratura.
Embaraada, Leslie mordeu o lbio.
 Voc vai ficar bem  prometeu Lou, com um sorriso gentil.  Na verdade, exerccio  bom para os msculos que apiam esse osso, para torn-lo mais forte. Mas no repita isso por algumas semanas. Tome isto  acrescentou, abrindo a bolsa.  Sempre carrego aspirinas comigo.
Dizendo isso, entregou a ela um pequeno recipiente de metal contendo as aspirinas. Matt encheu um copo com gua e o entregou a ela. Ento permaneceu srio, observando ela tomar duas aspirinas de uma nica vez.
 Obrigada  Leslie agradceu a Lou.
 V ao meu consultrio na segunda-feira  falou Lou em um tom de voz seguro.  Vou lhe prescrever algo que possa facilitar um pouco sua vida. Nada de narcticos  acrescentou com um sorriso.  Apenas antiinflamatrjos. Eles faro muita diferena.
 Obrigada. E uma tima mdica  disse Leslie, em um tom agradecido.
Lou estreitou o olhar.
 Conheceu algum mdico ruim, Leslie?
 Sim  respondeu Leslie, com frieza. Ento sorriu novamente.  Mas voc me fez mudar de idia sobre os mdicos.
 Ponto para mim.  Lou tambm sorriu.  Vou agora mesmo contar isso a Cooper  disse, olhando na direo do marido, do outro lado do salo.  Ele vai ficar impressionado.
 Poucas coisas impressionam o dr. Coltrain
 falou Matt, depois que Lou se retirou. Ento, olhando de Leslie para Ed, perguntou:  Onde est Carolyn?

 Sumiu de repente  respondeu Ed, em um tom evasivo.
 Vou procur-la. Tem certeza de que ficar bem?  Matt perguntou a Leslie.
 Sim, e obrigada por haver trazido Lou. As aspirinas j esto aliviando a dor.
Ele assentiu, antes de ir  procura de Carolyn.
 Acho que tambm arruinei a noite dele  disse Leslie, com ar pesaroso.
 No deve se culpar por isso  falou Ed.  Fazia tempo que eu no via Matt se divertir tanto. A maioria das mulheres daqui no sabem dar mais do que dois passos em uma pista de dana. Vocs danaram incrivelmente bem.
 Eu adoro danar.  Leslie suspirou.  Sempre adorei. Minha me tambm era assim.  Seu olhar adquiriu um brilho saudosista.  Eu ficava encantada quando a via danar com meu pai. Eles tinham um ritmo e uma leveza impressionantes.
 De sbito, o brilho sumiu dos olhos dela.  Ela pensou que eu encorajei Mike e os outros... Quando ela atirou nele e a bala o atravessou e atingiu minha perna...
 Ento foi assim que tudo aconteceu  Ed a interrompeu.
Leslie olhou para ele, parecendo no ter muita noo d que acabara de dizer. Por fim, assentiu e continuou:
 O mdico da sala de emergncia deixou claro que achava que a culpa havia sido toda minha. Por isso minha perna no foi devidamente curada. Ele removeu a bala, mas no fez tudo que era preciso. Um outro mdico percebeu isso algum tempo depois e recomeou o tratamento, mas, a essa altura, eu j havia comeado a mancar. E no tinha mais dinheiro para fazer o tratamento da maneira adequada. Minha me havia ido para a priso e eu estava sozinha. Se no fosse pela famlia de Jssica, minha melhor amiga, eu no teria nem mesmo tido onde ficar. Eles me levaram para morar com eles, apesar das fofocas, e eu pude continuar estudando por mais algum tempo.
 Nem sei como voc conseguiu entrar na faculdade e comear a curs-la, com toda aquela presso e as sesses no tribunal ocorrendo quase todos os dias  observou Ed.
 No foi fcil  admitiu ela.  Mas isso tambm me deixou mais forte.
Sim, voc se tornou uma mulher forte. Leslie sorriu para ele.
 Obrigada pelo apoio que voc tem me dado e que sempre me deu, Ed.
 Diga isso a Matt. Quem sabe ele mude um pouco de opinio a meu respeito.
Ela sorriu.
 At que ele no  to cruel assim. Dana feito um anjo.
Ed olhou para o outro lado do salo, localizando Matt e Carolyn. Porm, sentiu uma onda de apreenso ao ver o primo encar-lo e comear a andar em direo a eles. No gostava nem um pouco daquela expresso de Matt. O primo s o encarava daquela maneira e andava lentamente daquele jeito quando estava perigosamente aborrecido.




CAPTULO IV



Pelo olhar, Leslie sabia que Matt estava aborrecido. Embora no se lembrasse de haver feito qualquer coisa qe pudesse deix-lo naquele estado de humor, tinha a impresso de ser a responsvel por tal mudana. Enquanto se aproximava, ele fez uma chamada rpida ao telefone celular, voltando-o a guard-lo no bolso em seguida.
 Sinto muito, mas teremos de ir embora  falou Matt, em tom glido.  Carolyn disse que est com uma enxaqueca insuportvel.
 Tudo bem  respondeu Leslie, sorrindo aliviada por no ser a causa do mau humor dele.
 Eu no poderia mesmo danar de novo, apesar de haver gostado muito da experincia.
Ele no respondeu. Apenas estreitou o olhar de maneira pouco amistosa.
 Ed, voc poderia ir at a porta da frente para esperar o carro? J telefonei para o motorista.
 Claro  respondeu Ed, hesitando de maneira visvel por um momento.
Matt continuou a fitar Leslie com tanta intensidade que a fez sentir-se desconfortvel.

 Voc acabou se mostrando um verdadeiro fogo de palha  falou ele, em tom sbrio.  Mas algo me diz que as coisas so diferentes do que aparentam, no ? Tenho a impresso de que era uma tima danarina antes de ter esse problema na perna.
Leslie estranhou o tom dele.
 Aprendi a danar assim com minha me  respondeu ela, com sinceridade.  Costumvamos treinar juntas.
 Tente outra  murmurou Matt, estreitando
Depois das demonstraes de repulsa  sua pro ximidade, chegara o momento da conveniente e bem planejada mudana de atitude, pensou Matt. Era um truque antigo do qual ele j havia sido vtima: fazer-se de dificil para estimul-lo a tomar a iniciativa. Como no percebera aquilo antes? Mas, j que estava no jogo, pretendia descobrir quo longe ela chegaria.
 O qu?  questionou Leslie franzindo o cenho, pois no conseguira ouvi-lo.
 Nada, nada. Ed j deve estar l fora com o motorista. Podemos ir?
Estendendo a mo na direo dela, colocou-a de p de maneira abrupta.
O movimento brusco lhe causou dor. Mesmo sem se ver no espelho, sabia que ficara plida, tanto por causa da dor como por causa do modo dominador como Matt a segurava. Foi preciso esforar-se para no entrar em pnico, pois aquilo a fez lembrar-se de outra situao de seu passado.

Naquela poca ainda no sabia como reagir, mas tal condio mudara bastante.
Virando o brao com rapidez, forou-o para baixo contra o polegar da mo dele livrando-se no mesmo instante, como ensinara seu instrutor de defesa pessoal.
Matt a fitou com ar surpreso.
 Onde aprendeu isso? Com sua me?
 No. Com meu professor de Tae Kwon Do, em Huston. Apesar do problema na minha perna, posso me defender muito bem.
 Oh, disso eu tenho certeza  respondeu ele, estreitando o olhar.  Voc realmente no  o que parece ser, srta. Murry. Vou me empenhar em descobrir a verdade a seu respeito.
Leslie sentiu um mal-estar repentino. A ltima coisa que queria era algum remexendo seu passado. Passara os ltimos anos fugindo e se escondendo dele. Por que teria que voltar a fugir, justo quando comeava a sentir-se segura?
Ao ver a expresso assustada dela, Matt teve certeza de que quase cara em outra armadilha ardilosa. Como era possvel que, apesar de tudo que j aprendera a respeito das mulheres, no houvesse percebido a farsa dela mais cedo? Lembrou-se de sua prpria me e sentiu uma onda glida percorrer-lhe o corpo. Com aqueles cabelos claros, Leslie at mesmo se parecia com ela.
Segurando-a pela parte superior do brao, apertou-o com mais fora ainda ao notar a dificuldade dela em andar.
 Por favor  falou ela, com a voz entrecortada , vamos mais devagar. Estou com dor.

Parando de repente ao perceber que a estava forando alm do limite, Matt soltou o flego de maneira. aborrecida. Esquecem-se do problema fisico na perna dela, considerando-o como se fosse parte da atuao.
 O problema da perna  real  murmurou Matt, como se estivesse falando consigo mesmo.
 Mas e o resto?
O olhar dela encontrou o dele.
 Sr. CaIdwell, independentemente de quem ou do qu eu seja, no represento nenhum perigo para voc. No gosto de ser tocada, mas gostei do modo como danamos, Havia anos que no eu danava.
 As vezes voc me parece to familiar que  como se eu j a tivesse visto antes  disse ele em tom severo, lembrando-se de sua prpria me e do modo como ela o decepcionara e o magoara anos antes.
Mas Leslie no sabia disso. Cerrando os dentes de dor, tentou no demonstrar o medo que sentiu. Era provvel que a tivesse mesmo visto, como todo o restante do pais a vira, em capas de revistas e em primeiras pginas de tablides. Os jornalistas a haviam fotografado at a exausto na noite em que os paramdicos a retiraram do apartamento de sua me em uma maca, chorando de dor e de horror e com a perna sangrando muito. Mas, naquela poca, usava cabelos escuros e culos. Seria possvel que ele a tivesse reconhecido?
 Devo ter aquele tipo de rosto comum  falou ela, fazendo uma careta e se movendo um pouco, para apoiar o peso do corpo sobre a perna saudvel.
 Poderamos ir logo? A dor est quase insuportvel.

Matt ficou imvel por um momento, ento se curvou de repente e a ergueu nos braos, comeando a carreg-la por entre a admirada multido.
 Sr... sr. Caldwell...  protestou Leslie, enrijecendo as costas.
Jamais fora carregada por um homem antes, mas ficou to encantada observando-o de perto e sentindo aqueles braos fortes sob seu corpo que no sentiu o medo usual. Depois de haverem danado, a proximidade fisica dele se tornou algo aceitvel.
Enquanto se esforava para conter o estranho impulso que sentia, de levar a mo aos cabelos ondulados dele para acarici-los, viu-o encar-la com uma das sobrancelhas arqueadas. Isso a deixou sem flego e sem foras. Era preciso dizer algo. Qualquer coisa.
 V-voc ... muito forte.
O tom de voz de Leslie o tocou no ntimo. Sustentando o olhar dela por um instante, desviou a ateno para aqueles lbios delicados e convidativos, fitando-os longamente enquanto diminua a velocidade de seu caminhar.
Ela se segurou com fora na lapela do smoking dele, passando ento a observar os lbios dele tambm. Jamais desejara ser beijada desde a experincia traumtica que tivera, pois seu agressor a beijara  fora, deixando-a enojada.
Com Matt seria diferente, disso Leslie tinha certeza. Sabia instintivamente que no sentiria averso s carcias dele. Estava observando-o com curiosidade e avidez quando o ouviu puxar o flego de maneira abrupta. Aquilo a fez encar-lo no mesmo instante. 

 Cuidado  alertou ele, em tom profundo.  A curiosidade matou o gato.
Hein?
 Voc caiu de um cavalo tentando evitar qualquer contato fsico comigo. Agora me olha como se fosse capaz de fazer qualquer coisa ,para ter meus lbios sobre os seus. Por qu?
 No sei  murmurou ela, apertando a mo sobre a lapela do traje dele.  Gosto de senti-lo prximo. Engraado. Jamais desejei ficar assim perto de algum.
Matt parou de repente. Aqueles braos fortes que a sustentavam pareceram estremecer um pouco e a apertaram contra aquele peito msculo, fazendo um de seus seios pression-lo. A respirao dele se tornou audvel. Era como se as pessoas ao redor deles, no alto da escadaria, nem existissem.
Leslie sentiu um delicioso arrepio percorrer-lhe o corpo, fazendo-a soltar um riso trmulo e suave diante daquela sensao maravilhosa.
 Ento  assim que se sente...  murmurou ela.
O qu?
O olhar de Leslie encontrou o de Matt.
 Desejo.
Daquela vez o corpo inteiro dele estremeceu. Seus braos se contraram e a ergueram ainda mais. Sentindo o perfume de rosas do corpo feminino e o toque daquela pele macia e quente contra seu corpo, abaixou o rosto e tomou aqueles lbios perfeitos nos seus. Ela o desejava. Recebeu-o com a graa e a expectativa de uma adolescente curiosa, mas aquele corpo era o de uma mulher.

Ento um som conhecido de passos rpidos, emitido por elegantes sapatos de salto alto, fizeram-no romper o contato e endireitar-se. Voltando a andar, soltou o flego de maneira exasperada enquanto se dirigia para a rua.
 Chega de jogos  falou ele, fitando-a com uma expresso de ardor.  Vou lev-la para minha casa.
Leslie abriu a boca para responder, mas Carolyn contornou a ltima curva do corredor e os alcanou quase na calada.
 Ela precisa mesmo ser carregada?  perguntou ela, em tom sarcstico.  Engraado, acho que a vi danando lpida e fagueira alguns minutos atrs.
 Leslie tem um problema srio na perna  respondeu Matt, recuperando o autocontrole.  Ali est o carro.
A limusine parou diante deles e Ed saiu do veculo, franzindo o cenho ao ver sua amiga sendo carregada.
 Est tudo bem?  indagou ele, aproximando-se depressa.
 Ela no deveria ter danado  respondeu Matt, com secura, enquanto cobria a pequena distncia que o separava do veculo antes de acomod-la sobre o assento de couro.  A perna dela piorou.
Carolyn estava plida, mas mesmo assim lanou um olhar sarcstico para Leslie ao se acomodar na limusine.
 Uma dana e j temos de partir!  reclamou ela em tom furioso.

Matt se sentou ao lado de Ed e fechou a porta com um estrondo, encarando-a e estreitando o olhar.
 Pensei que estivssemos partindo por causa de sua enxaqueca, querida  falou ele, concluindo em tom glido.
Sua pacincia se esgotara. Estava tomado pela sensao de desejo frustrado. Lanando um olhar para Leslie, pensou a respeito de quanto ela era boa em manipular os outros. Quase o dominara por completo, despertando seu desejo. Era provvel que estivesse rindo por dentro, divertindo-se em silncio  sua custa. Bem, iria certificar-se de faz-la pagar por isso.
Carolyn, ao v-lo olhar daquela maneira para Leslie, soltou um gemido de desgosto e se virou para a janela, olhando de maneira vazia para fora.
Para surpresa de Ed, o motorista o deixou em casa primeiro. Quando tentou argumentar, Matt se mostrou irredutvel. Carolyn foi a prxima. Acompanhando-a at a porta da casa, virou-se e foi at o carro antes do beijo de boa-noite. Ela fechou a porta da casa com tanta fora ao entrar que o rudo ecoou at mesmo dentro da limusine, que estava com os vidros fechados.
Leslie mordeu o lbio inferior ao v-lo acomodar-se  sua frente no interior do carro. Sob a iluminao suave do veculo de luxo, era possvel ver a expresso de desejo ardente naqueles olhos negros.
 Esse no o caminho para meu apartamento.
 No, no   respondeu ele, soando perigoso. Pouco depois, a limusine parou  porta da fazenda dele. Depois de ajud-la a sair, trocou algumas palavras com o motorista, que partiu em I4eguida, antes de voltar a ergu-la nos braos.
 Sr. Caldwell...  comeou Leslie.
 Matt  corrigiu ele, carregando-a rumo 
entrada da casa.
 Quero ir para casa.
 E ir. Eventualmente.
 Mas voc mandou o motorista partir  falou
ela, ao ser colocada momentaneamente no cho, enquanto ele pegava a chave e destrancava a porta da frente.
 Tenho seis carros. Levarei voc embora quando for a hora certa.
 Estou muito cansada.
 Ento sei qual  o lugar ideal para voc  respondeu Matt depois de voltar a fechar a porta atrs de si, erguendo-a nos braos e a levando por um longo corredor.
Segundos depois, Leslie se viu no meio de uma cama enorme, sobre um cobertor macio, enquanto aquelas mos fortes a despiam da echarpe que a aquecia.
A pea foi arremessada sobre uma cadeira,junto com a gravata e o palet dele. Desabotoando a camisa, Matt se acomodou ao lado dela na cama, movendo-se em seguida de modo a ficar praticamente sobre o corpo dela.
Aquela posio trouxe  tona lembranas terrveis, fazendo-a ficar tensa e plida.
Ele ignorou aquela reao, olhando-a da cabea aos ps e se demorando em cada crva, at fixar sua ateno no contorno de seus seios. Uma daquelas mos fortes deslizou sobre o tecido fino do vestido, traando o contorno de um mamilo enrijecido.
O toque surpreendeu Leslie, que no o achou repulsivo como imaginara. Um leve tremor percorreu-lhe o corpo. Seu olhar, com um misto de medo e curiosidade, encontrou o dele.
 Voc se incomoda?  indagou ele, com um leve tom de insolncia, enquanto abaixava uma das alas do vestido dela para expor-lhe um seio.
Ela mal podia acreditar no que estava acontecendo. Os homens lhe causavam repulsa. A idia de qualquer tipo de intimidade a enojava. Mas Matt estava olhando seu seio nu e aquilo no estava lhe inspirando sequer o mnimo impulso de resistir.
O contato daqueles dedos msculos contra seu corpo intocado estava lhe causando tanto prazer que era como se estivesse sonhando e observando algt irreal.
Ele sorriu com uma leve expresso travessa ao ver o semblante dela.
 Nunca fez isso antes?
 No.
Embora a resposta dela soasse at mesmo sincera, Matt descartou tal possibilidade de imediato. Leslie estava calma e submissa demais para algum inexperiente.
A sobrancelha dele se arqueou, demonstrando curiosidade.
 Vinte e trs anos e ainda  virgem?
Como ele podia saber disso?, pensou ela, constrangida.
 Ora.., sim.
Tecnicamente, era verdade. Emocionalmente, no.

A despeito do que fora feito contra ela, o estupro no chegara a ser concludo, pois sua me chegara em casa segundos antes de a violncia se completar.
Matt estava concentrado em tocar-lhe o corpo. O indicador dele contornava-lhe o mamilo excitado enquanto aqueles olhos negros a observavam arquear-se para reclamar seu toque a cada afastamento momentneo de sua mo.
 Est gostando?
Leslie o encarou com intensidade.
 Sim.
Era como se estivesse surpresa por gostar das carcias que recebia.
Sem hesitar, ele a ergueu um pouco e abaixou a outra ala do vestido, deixando-a nua da cintura para cima. Jamais vira seios perfeitos como os de Leslie. Aquela pele alva e macia parecia um convite a seu toque. Nenhuma mulher jamais o excitara tanto, nem de maneira to intensa.
Mesmo sabendo que deveria estar lutando para se livrar dele, para sair dali, Leslie no sentia vontade de faz-lo. Por qu? Qual o motivo de o toque dele no deix-la apavorada?
Quando sentiu os lbios dele junto a seu seio, enrijeceu e arqueou o corpo de imediato.
Matt levantou a cabea no mesmo instante e a encarou, concluindo que aquilo no era uma tentativa de esquivar-se dele. A expresso dela era uma mistura de surpresa, prazer e curiosidade.
 Outra primeira vez?
O tom dele foi um pouco arrogante, assim como seu sorriso frio e calculado, mas a mente dela estava em um turbilho emocional acelerado demais para aqueles detalhes serem registrados.
Leslie apenas engoliu em seco, balanando a cabea afirmativamente. Seu corpo, como se estivesse ignorando sua mente, movia-se da maneira sensual sobre a cama. Jamais imaginara que pudesse deixar-se acariciar daquela forma. Quando os lbios dele voltaram a tocar-lhe o. seio, sugando o mamilo rosado, foi impossvel conter um gemido alto de prazer.
Ao ouvir aquele som, Matt sentiu-se tomado por uma onda de excitao. Suas carcias ficaram mais intensas do que planejara. Estava quase perdendo o controle quando se lembrou de que no deveria se deixar fazer de tolo, mesmo que a desejasse mais do que jamais desejara algum antes.
Levantando a cabea, observou-a atentamente. Estava claro que poderia t-la naquele mesmo instante. Ela parecia sequiosa por receb-lo, mas com certeza haveria um preo por isso.
Ao ver o olhar de expectativa e curiosidade dela, sentiu vontade de rir. Era bvio que Leslie j o considerava como um peixe fisgado. Mas toda aquela aquiescncia fora um erro de clculo grosseiro da parte dela. Fora a repulsa inicial que o fizera sentir-se atrado.
Sentando-se de maneira abrupta, levantou-a consigo e voltou a colocar o vestido dela no lugar, levantando as alas.
Ainda em choque por toda aquela experincia, ela o fitava em silncio. Observou-o levantar-se da cama e abotoar a camisa, pegando ento o palet e o vestindo. Parando ao p da cama, olhou-a com ar especulativo e ento sorriu. Mas no era um sorriso agradvel.
 Voc no  nada m  murmurou Matt, com sarcasmo.  Mas esse ato da virgem fascinada me tira o prazer. Gosto de experincia.
Leslie piscou os olhos repetidamente, tentando voltar a pensar com clareza.
O qu?
 Deduzo que seus outros amantes gostaram desse olhar assustado de Oh,  minha primeira
vez, no ?
Outros amantes. Teria ele adivinhado algo sobre seu passado? Seu medo se refletiu em sua expresso.
Matt percebeu. Estava quase lamentando por se tratar de uma farsa. Estava cansado de ser perseguido por mulheres falsas e oportunistas o tempo todo. Todas o consideravam uma grande presa, por ser solteiro, rico e por ter boa aparncia e a fama de ser um hbil amante. At ento, sempre deixara claro que jamais iria se casar, o que nunca fora uni problema. Uma jia cara, um presente sofisticado ou uma viagem e tudo estava arranjado. Estava exausto daquele jogo. Naquele momento, sentia-se mais decepcionado do que nunca.
Leslie viu a expresso de desgosto dele e desejou que se abrisse um buraco no cho por onde pudesse desaparecer. O olhar frio dele a fez sentir-se como se fosse uma vadia, como o mdico, a mdia e sua me fizeram.
Ele no saberia explicar o motivo, mas ao ver o olhar de Leslie naquele momento, uma onda de culpa se apoderou de seu corao, fazendo-o sentir um aperto no peito.

Antes que fizesse alguma tolice, virou-se para o outro lado, pegou a echarpe e a bolsa e as jogou no colo dela.
 Vamos. Vou lev-la para casa.
Leslie no olhou para ele enquanto o seguiu rumo  entrada, O corredor era bem mais longo do que lhe parecera antes e, ao chegar  porta, sua perna j estava latejando. A dana j a havia machucado bastante, mas o tranco que recebera quando ele a forara a andar depressa no salo pareceu haver deslocado algo. Mas ela cerrou os dentes, pressionou os lbios e tentou no demonstrar o que sentia.
Na garagem, Matt escolheu o Mercedes prateado e eles partiram rumo a Jacobsville.
Olhando pelajanela, Leslie sentiu-se uma idiota pela maneira como agira. Devia ter dado a impresso de ser a mulher mais fcil do mundo. S no conseguia entender o motivo que o levara a no tirar vantagem da situao. Quanta ironia. Depois de anos evitando os homens, descobrir-se capaz de sentir um desejo to intenso justamente por algum que no a queria era perturbador.
Ele percebeu a tenso na linguagem corporal dela. Era bvio que estava frustrada por seu plano srdido de seduzi-lo haver falhado.
 E isso que Ed ganha quando a leva para casa?  indagou Matt, em um tom indiferente.
Leslie cravou as unhas no couro da bolsa. Com muito esforo, manteve-se calada. No pretendia valorizar aquele comentrio maldoso com uma resposta.
 No fique to abalada  prosseguiu ele.   que j sou experiente demais para cair nesses truques. Mas h outros fazendeiros solteiros perto de Jacobsville. Cy Park, por exemplo,  um homem nervoso e irritadio como ningum, mas  vivo e muito solitrio. Oh, mas, pensando melhor, acho que j houve tragdia o bastante na vida dele. Eu no iria querer v-la piorar isso ainda mais. Ela estava to chocada e magoada que no conseguia falar. Por que tudo em sua vida tinha que terminar mal? Parecia um eterno pesadelo. Para completar, sua perna doa muito mais do que o normal, forando-a a se ajeitar no assento em busca de uma posio mais confortvel. Mas no adiantou.
 Como foi que esse osso ficou assim?  questionou Matt, com naturalidade.
 Voc no sabe?  perguntou ela, soltando uma risada que parecia uma mistura de sarcasmo e mgoa.
Se ele sabia mesmo da histria, como tudo indicava, aquele era mesmo um jogo de crueldade.
 Como eu poderia saber?  falou ele, olhando-a de lado e fazendo uma careta.
Leslie franziu o cenho. Talvez Matt no soubesse de nada e estivesse apenas cavando informaes. Engolindo em seco, manteve-se quieta e segurou a bolsa com fora.
Estacionando o Mercedes em frente  casa de Leslie sem desligar o motor, Matt se virou para encar-la e repetiu:
 Como eu poderia saber?
 Ora, voc acha que sabe tudo a meu respeito.
Os olhos dele se estreitaram de maneira perigosa.

 H muitas maneiras pelas quais um osso pode ser fraturado. Uma delas  pelo impacto de uma bala.
Sem conseguir respirar, Leslie ficou imvel, encarando-o de maneira deliberada.
 O que sabe a respeito de balas?  indagou ela.
 Fui convocado durante a operao Desert Storm e servi em uma unidade de Infantaria. Aprendi um bocado sobre armas e balas, e sobre como ficam ossos baleados. O que me conduz  pergunta bvia: quem atirou em voc?
 Eu no disse que fui baleada.
 Mas foi, no  mesmo?  insistiu Matt, sorrindo com frieza.  Quanto ao autor do disparo, aposto que foi um de seus antigos amantes. Ele a pegou com outro ou ficou furioso por ser provocado at a beira da insanidade, apenas para receber uma recusa? No que seu estilo seja recusar  disse e assumiu um ar de superioridade.
 No posso dizer que bancou a dificil esta noite.
O ego de Legue caiu por terra. Estava sendo acusada das piores coisas possveis. Suas lembranas antigas j eram horrveis, mas v-lo acus-la de ser algum tipo de ninfomanaca era doloroso demais para suportar. Pela primeira vez na vida sentira um prazer fsico ntimo e Matt a estava fazendo sentir-se como se ela fosse uma qualquer.
Soltando o cinto de segurana, saiu do carro com tanta dignidade quanto possvel. Sua perna jamais doera tanto. Tudo que queria era tomar um analgsico forte e se deitar.
Matt desligou o motor e contornou o veculo, irritado pelo modo como ela insistia em andar sozinha mesmo mancando.
 Eu a levarei at a porta...
 No!  disse ela em um tom baixo, evitando o toque dele e se sentindo envergonhada por t-lo deixado fazer o que fez.
Seus olhos se encheram de lgrimas de mgoa, frustrao e ultraje.
 Mais joguinhos?
Ele no gostou nada de v-la voltar a se esquivar de seu toque, depois do modo como se comportara em sua cama.
 Eu no fao... joguinhos  bradou Leslie,
sem conseguir conter o soluo que a interrompeu.
 E voc pode ir para o inferno!
Fazendo uma careta ao ver a expresso dela, Matt mal ouviu suas palavras. Leslie estava to plida e tensa que dava a impresso de que algo muito srio a incomodava. Algo mais importante do que uma mera conquista frustrada.
Enquanto a via virar-se e afastar-se, fazendo um esforo visvel para mancar o mnimo possvel, ele se viu tomado por emoes confusas, todas misturadas, de uma forma que jamais sentira antes. A lembrana do modo como ela lhe dissera Voc no sabe? no lhe saa da cabea.
Sentando-se ao volante do Mercedes, ficou parado e com um olhar vazio durante um longo tempo antes de voltar a ligar o motor. Leslie Murry era um quebra-cabea que ele pretendia solucionar, mesmo que isso lhe custasse uma fortuna em honorrios de detetives particulares.




CAPTULO V



Leslie chorou durante tanto tempo que lhe pareceu haverem passado horas. As aspirinas no tiraram a dor que sentia na perna e no havia remdio conhecido pela humanidade para curar seu ego ferido. Matt a humilhara, fizera pouco de sua inocncia e a colocara quase no mesmo patamar de uma prostituta. Ele agira como aquele mdico da sala de emergncia, anos antes, que a fizera sentir-se envergonhada de seu corpo.
Ora, pensou consigo enquanto enxugava as lgrimas, jamais voltaria a cometer o erro de ceder a seus impulsos outra vez. E Matt Caldwell podia ir direto para o inferno com sua arrogncia.
O telefone tocou e Leslie hesitou, mas como poderia ser Ed, optou por atender.
 Demos boas risadas de voc  falou Carolyn, sem rodeios.  Imagino que ir pensar duas vezes antes de se jogar sobre ele outra vez! Matt disse que voc foi to fcil que o enojou...
Trmula por causa da humilhao, Leslie colocou o telefone no gancho com muita fora, fazendo um estrondo. Ento tirou o telefone da tomada. Pelo visto ele no se contentara em arras-la e ainda fora correndo contar para a namorada o que acabara de fazer. Aquilo era tudo de que precisava para sua noite se tornar completamente horrvel.
A dor e a humilhao mantiveram Leslie acordada at o raiar do dia, que foi quando conseguiu adormecer. Passou a hora do desjejum e ento a da missa. Quando despertou, tomou conscincia de que sentia uma dor to forte quanto a da noite em que fora baleada.
Ao se mover, fez uma careta de dor e soltou um incontrolvel gemido de agonia. Quase no percebeu o som de algum batendo  porta.
 Entre  falou ela, com a voz embargada. Assim que a porta se abriu, Matt Caldwell surgiu pela passagem. No havia se barbeado e estava com olheiras profundas.
As palavras de Carolyn ecoaram na mente dela. Com um movimento instintivo, agarrou a primeira coisa que lhe veio  mo, uma garrafa de gua mineral que estava na mesinha-de-cabeceira, e a arremessou contra a cabea dele. Errou por pouco, quase acertando Ed, que vinha logo atrs e se desviou no ltimo instante.
 No, obrigado, no quero gua  falou Ed, tomando a dianteira e sinalizando para o primo parar  porta.
O rosto plido de Leslie era a pura expresso da dor, mas o olhar que dirigia a Matt parecia quase capaz de faz-lo queimar onde estava.
 Ei  falou Ed, tentando chamar a ateno dela , telefonei a manh toda, mas voc no atendia.  Ele viu o plugue fora da tomada.  Oh, agora sei por qu. Como est a dor?
Estava difcil at para Leslie respirar.
 Forte.
O que era uma palavra fraca demais para definir o que sentia.
 Venha  prosseguiu Ed, em tom decidido.
 Vamos lev-la para o pronto-socorro. Matt, poderia chamar Lou Coltrain e pedir para ela nos encontrar l? Otimo. Agora, Leslie, deixe-me ajud-la a colocar esse robe.
A dor era tanta que ela no disse nada. Apenas saiu da cama, ciente da surpresa que seria para
Matt v-la com um pijama de flanela que a cobria do pescoo aos tornozelos. Com a criatividade frtil e malvola dele, deveria t-la imaginado nua sob o cobertor.
Mas, exceto pelo que dissera  mdica ao telefone celular, no emitira mais nenhum som. Ficou apenas imvel,  porta, observando Ed ajud-la. Pelo menos at que Leslie tentou se levantar e no se sustentou.
Ed a pegou e a ergueu nos braos, interrompendo o movimento instintivo que Matt fez na direo dela.
 Posso carreg-la  garantiu Ed.  Vamos indo.
 O carto do convnio...  murmurou ela  .na minha bolsa.
 Deixe essa preocupao para depois  falou Matt, tenso, abrindo a porta do Mercedes para Ed acomod-la.
Quando o carro entrou em movimento, Leslie se recostou no assento e fechou os olhos, quase no suportando a dor.
 Ela no deveria ter sido forada a danar
 murmurou Matt, em tom desgostoso.  Depois eu ainda a forcei a andar depressa e a parar de repente. A culpa  minha.
Ed no respondeu. Apenas olhou com ar preocupado para Leslie, acomodada no banco de trs, rogando para que a pequena exibio da noite anterior no tivesse causado nenhum dano permanente adicional  perna dela.
Lou Coltrain estava esperando no pronto-socorro quando Ed entrou no recinto com Leslie nos braos. A mdica indicou o caminho at uma das salas, fechando a porta assim que Matt entrou.
Depois de examinar a perna com cuidado, aplicou uma injeo para aliviar a dor e a levou para
a sala de raios X.
Ed a acompanhou, mas o telefone celular de Matt tocou e ele ficou para trs, atendendo uma chamada internacional. Ao ver a expresso de alvio de Leslie por estarem sozinhos enquanto a mdica se afastou um instante para falar com o tcnico de radiografias, Ed falou:
 Calma. Ningum vai lhe fazer mal. Nem meu primo, nem a doutora.
 Eu odeio seu primo. Ele riu de tudo  murmurou Leslie, voltando a chorar.  Ela disse que ambos riram de mim e que ele ficou enojado.
 Ela?
 Carolyn. Oh, eu o odeio!

Outra onda de choro a calou.
Lou voltou e acariciou-lhe a cabea, como se estivesse atendendo uma criana.
 Voc ter de esperar l fora, Ed. Vou acompanhar a seo de radiografias pessoalmente e depois farei mais alguns testes.
 Tudo bem, doutora. Estarei l na frente.
Ao sair, foi ao encontro de Matt, que estava na sala de espera, com uma expresso atormentada no rosto.
 Leslie disse que Carolyn telefonou para ela ontem  noite  comeou Ed.  Acho era por isso que o telefone estava desligado.
Como ?
 Leslie falou que Carolyn telefonou dizendo que vocs dois estavam rindo dela. Mas no me disse a respeito de qu.
Matt fez uma expresso severa e colocou as mos nos bolsos, abaixando o olhar.
 Maldio.
Ambos ficaram em silncio.
 No magoe Leslie  disse Ed, depois da longa pausa, em tom baixo mas muito intenso.  A vida dela no foi nada fcil. Trate de no piorar as coisas, pois ela no tem mais nenhum lugar para onde ir.
Matt encarou o primo, no gostando da ameaa implcita em seu tom de voz, nem do fato de Ed saber muito mais a respeito dela do que ele prprio. Seriam amantes? Ex-amantes, talvez?
 Sua amiga  cheia de segredos  respondeu ele.  E foi baleada. Quem atirou?

Ed arqueou ambas sobrancelhas de maneira to surpresa e com tamanho ar de inocncia que conseguiu enganar Matt.
 Quem lhe disse uma coisa dessas?
 Ora... ningum. Apenas conclu isso. Alm do mais, de que outra forma aquele osso poderia ter sido to seriamente fraturado?
 Por um atropelamento, uma queda violenta, um acidente de carro...
 Sim, claro. No sei por que cismei com essa histria de tiro. De qualquer maneira, foi a dana de ontem que a fez piorar. No percebi a fragilidade dela. Leslie no falou a respeito da gravidade do problema.
 Ela sempre foi assim  respondeu Ed.
 Como foi que a conheceu?
 Estudamos juntos na faculdade e samos algumas vezes. Leslie confia em mim.
 Mas  bom que voc no confie muito nela. E misteriosa demais. Creio que esteja escondendo algo de ns, talvez algo muito grave.
Ed no ousou reagir como desejava. Apenas pressionou os lbios por um instante e ento sorriu.
 Ela jamais magoou uma pessoa sequer em toda sua vida. E, ntes que faa mau juzo dela,  melhor saber que ela tem uma verdadeira espcie de fobia em relao aos homens.
Matt riu com ironia.
 Ora, essa  muito boa. Voc deveria t-la visto ontem  noite, quando estvamos sozinhos.
Ed estreitou o olhar.
 O que est querendo dizer com isso?

 Estou dizendo que ela  fcil.
 Seu idiota  murmurou Ed, cerrando os punhos.  Fcil. Meu Deus!  exclamou antes de se afastar e sumir de vista, furioso.
Matt ficou confuso pelo comportamento anormal do primo. Talvez ele estivesse com ckime. O telefone celular tocou, distraindo-o.
 Pensei que viesse cavalgar comigo esta tarde
 falou Carolyn ao telefone, em tom animado.
 Onde voc est?
 No hospital. O que disse a Leslie na noite passada?
 Como assim?
 Quando telefonou para ela.
 Bem, eu queria saber se a perna dela estava melhor. Aquela dana pareceu haver causado muita dor  coitadinha.
 O que mais?  exigiu ele, em tom severo. Carolyn riu com sarcasmo.
 Oh, entendo. Estou sendo acusada de alguma indelicadeza, no ? Francamente, Matt, pensei que voc fosse capaz de ver atravs da falsa fragilidade dela. O que ela disse que eu falei?
Soltando um suspiro, Matt deu de ombros.
 Esquea. Eu devo ter entendido mal.
- Com certeza  garantiu ela, com firmeza.
 Eu no telefonaria para algum que estivesse sofrendo dores atrozes para atorment-la ainda mais. Pensei que me conhecesse melhor.
 E conheo.
Conhecia-a mesmo muito bem. Ao que tudo indicava, a srta. Murry estava inventando calnias sobre Carolyn. Mas por qu? Por vingana? Para faz-lo virar-se contra seu primo?
 E quanto  nossa cavalgada? Alis, o que voc est fazendo no hospital?
 Estou com Ed, visitando uma pessoa que ele estima muito. Bem, quanto  cavalgada,  melhor deixarmos para o prximo fim de semana. Eu telefono.
Matt desligou. Estava irritado e queria que Leslie Murry sasse de sua empresa e de sua vida. Ela era sinnimo de problemas.
Guardando o telefone celular no bolso, soltou um suspiro exasperado e voltou a se sentar na sala de espera, para esperar por Ed e Leslie.
Meia hora depois Ed saiu da sala de emergncia, com as mos nos bolsos e parecendo preocupado.
 Vo mant-la aqui essa noite.
 Por causa de uma dor na perna?  perguntou Matt, com sarcasmo.
Seu primo fez uma careta.
 Um dos ossos se deslocou e est pressionando um nervo. Lou diz que no h outro remdio seno consertar cirurgicamente. Chamaram um ortopedista famoso de Houston e ele chegar hoje  noite.
 Quem ir pagar por tudo isso.
 J que est perguntando, eu pagarei.
 Ora, o dinheiro  seu  retorquiu Matt, soltando o flego de maneira inconformada.  Mas o que causou o dano ao osso, afinal?
 Para que fazer uma pergunta para a qual j se sabe a resposta? Ah...  Ed fez uma pausa.  Vou passar a noite aqui. Ela est muito assustada.

Matt sabia que embora fosse possvel fingir dor, no era possvel mentir em uma radiografia. Em sua mente, a culpa o corroa. Se no a tivesse tirado para danar nem a puxado com tanta fora depois...
Saiu dali sem dizer mais nenhuma palavra. Leslie era assunto de seu primo, no seu. Mas mesmo repetindo isso para si mesmo a todo instante, sua conscincia o incomodou ao longo de todo percurso. Lembrou-se das lgrimas sinceras que invadiram os olhos dela quando Lou a afagara. Era como se jamais houvesse recebido ternura de ningum em toda sua vida.
Ao chegar em casa, tentou se concentrar por horas em um relatrio que usaria na reunio da manh seguinte, mas no conseguiu. Desistindo, voltou ao hospital para saber como estava a situao.
O ortopedista examinou as radiografias e concordou com a opinio de Lou de que era necessrio fazer uma interveno cirrgica imediata. Mas Leslie no queria se submeter  operao e se recusava at mesmo a falar no assunto.
Assim que Ed e a dupla de mdicos deixou o quarto, ela praticamente se arrastou para fora da cama e caminhou com dificuldade at o guarda- roupa, para pegar o pijama de flanela, o robe e os chinelos que ali estavam.
No saguo, Matt encontrou Lou, Ed e um homem desconhecido, que usava um traje refinado, conversando em tom baixo e com expresses sombrias.
 Vocs parecem srios demais. O que houve?  indagou ele, ao se aproximar.

 Leslie no quer ser operada  murmurou Ed, preocupado.  O dr. Santos voou de Houston at aqui para fazer essa cirurgia, mas isso no vai acontecer.
 Talvez ela acheque no precise  sugeriu Matt. Lou lanou um olhar severo e impaciente em sua direo.
 Voc nem imagina o tipo de dor que aquele ferimento provoca. Um dos fragmentos de osso, o que se deslocou, est pressionando um nervo.
 Os ossos deveriam haver sido alinhados apropriadamente quando da poca do acidente  falou o mdico visitante.  Foi uma irresponsabilidade criminosa do mdico que a atendeu que a deixou assim. O homem apenas enfaixou a perna. Nem mesmo gesso foi usado! 
Aquilo soou negligente tambm aos ouvidos de Matt.
 Leslie disse o motivo dessa falta da atendimento apropriado?
Lou soltou um suspiro desanimado.
 Ela jamais falaria a respeito. Pior, no quer dar ouvidos a nenhum de ns. E claro que, com o tempo, ter de nos ouvir e se submeter  cirurgia mas, nesse intervalo, a dor a torturar alm do suportvel.
Matt encarou cada um deles por um momento e ento se dirigiu ao quarto dela com passos largos. Ao entrar, encontrou-a de pijama e estendendo o brao para pegar o robe. Foi recebido com um olhar fuzilante.
 Ora, pelo menos voc no ir tentar me convencer a aceitar aquela operao  murmurou ela em tom irritadio, enquanto voltava com dificuldade para a cama.
 E por que eu no faria isso?
Leslie arqueou ambas sobrancelhas.
 Porque represento o lado inimigo, est lembrado?
Parado ao p da cama, Matt a observou colocar o robe. A perna dela estava em um ngulo to antinatural que estava lhe dando aflio. A expresso dela era de quem estava com muita dor mas tentava disfarar.
 Bem, faa o que quiser com relao  operao  respondeu ele, cruzando os braos sobre o peito e fingindo indiferena.  Mas no espere que eu providencie algum para carreg-la de um lado para outro no escritrio. Se quiser dar uma de mrtir, divirta-se.
 O qu?
 Algumas pessoas adoram se fazer de vtima para que os outros fiquem com pena.
 No quero que ningum sinta pena de mim!
 Oh,  mesmo?
O tom sarcstico dele a fez sentir a obrigao de dar alguma justificativa.
 E que... eu teria de ficar com a perna engessada.
 Sem dvida.
 E ainda no venceu a carncia de problemas pr-existentes do meu plano de sade  argumentou ela, sem olhar na direo dele.  Quando chegar o momento certo, farei a operao.  Voltou a encar-lo, com frieza.  No deixarei que Id pague pelo tratamento, caso tenha pensado nessa hiptese, e no me importa o fato de ele ter dinheiro sobrando para faz-lo.
Matt precisou conter a admirao que sentiu por aquele senso de independncia. Poderia fazer parte do ato, mas no parecia. Dava a impresso de ser algo genuno.
 Eu pagarei por tudo  falou ele, surpreendendo at a si prprio.  Podemos deduzir isso de seu salrio, aos poucos.
Sei muito bem quanto custa esse tipo de coisa. E por isso que ainda no me submeti  operao, porque jamais acabaria de pagar o financiamento, que se estenderia por toda minha vida.
O olhar de Matt se desviou para o corpo dela.
 Ora, poderamos ajeitar algo...
 No, no poderamos!  esbravejou Leslie.
Levantando-se outra vez, mal conseguia suportar, mas colocou os ps nos chinelos e rumou para a porta.
 Para onde est indo?  indagou ele, com naturalidade.
 Para casa.
Levantando-a nos braos sem o menor esforo, colocou-a de volta na cama com suavidade. Manteve os braos estendidos dos lados dela, prendendo-a.
 No seja tola. Nesse estado, no est em condies de fazer nada. Muito menos de ajudar a si mesma. No h escolha.
Os lbios dela tremiam enquanto Leslie tentava conter as lgrimas. Durante a cirurgia, estaria vulnervel,  merc dos outros. Aquele cirurgio a fez lembrar do mdico que a humilhara em Houston, no pronto-socorro, o que lhe trouxe aquela vergonha insuportvel  memria.
Aquela expresso sincera fascinou Matt. Por mais que quisesse no se importar, era impossvel ignorar o que sentia. Passando o dedo pela lateral do rosto dela, perguntou em tom gentil:
 Voc tem famlia?
Ela pensou em sua me, que estava na cadeia, e se sentiu ainda mais triste.
 No.
 Seu pai e sua me esto mortos?
 Esto.
 Nada de irmos?
Leslie balanou a cabea negativamente.
Matt franziu o cenho. A situao dela o incomodava alm do compreensvel. Talvez estivesse se sentindo culpado, talvez fosse algo mais...
 Quero ir para casa  falou ela com a voz embargada, evitando encar-lo.
 Tudo a seu tempo. Voc far essa operao
 falou ele, frustrado.  Depois que estiver saudvel, no precisar da proteo de Ed para conseguir um bom emprego. Poder lutar por si mesma, como qualquer um.
Leslie virou o rosto para o outro lado. Naquele momento queria mesmo estar saudvel, mesmo que fosse apenas para poder chutar o traseiro autoritrio de Matt.
 Voc me ouviu?  insistiu ele, diante do silncio que se seguiu.

Sem nada dizer, ela apenas fechou os olhos e nhaixou a cabea em um sutil gesto de assentimento, ao mesmo tempo em que comprimiu os 1 abios, contrariada.
 Otimo. Vou avisar os mdicos.
Ele a deixou sozinha no quarto enquanto foi falar com Lou, Ed e o dr. Santos.
 Ela aceitou.
 Como conseguiu isso?  indagou seu primo, arregalando os olhos.
 Eu a deixei furiosa. Mostrar compaixo no funcioparia.
 E verdade  respondeu Ed.  No creio que ela tenha recebido a compaixo de algum ao longo da vida.
 O que aconteceu aos pais dela?
 O pai dela calculou mal a posio dos cabos de alta tenso e bateu o avio que pilotava contra eles. Morreu eletrocutado.
Matt franziu o cenho.
 E a me?
 Ambas se apaixonaram pelo mesmo homem
falou Ed, em tom evasivo.  Ele morreu e, desde ento, Leslie e a me no se falaram mais.
 Como ele morreu?
 De forma violenta. Foi h muito tempo, mas acho que ela nunca superou o trauma.
O que era uma meia verdade, pois Ed deu a entendr que Leslie ainda amava o tal homem. Aquela era a nica maneira de poup-la do infortnio de ser mais uma das conquistas descartveis de seu primo. No queria ver sua melhor amiga na lista de ex-namoradas dele.

Matt fez uma xpresso de constrangimento.
 Quando ser a operao?
 Amanh de manh  respondeu Lou.
 Chegarei mais tarde no trabalho  falou Ed.  Ficarei aqui at v-la acordar da anestesia..
Balanando a cabea afirmativamente, Matt se virou na direo do quarto de Leslie. Hesitou por um momento, respirou de maneira profunda e ento se voltou para a sada, partindo sem dizer mais nada.
Mais tarde, Ed perguntou a Leslie o que Matt lhe dissera.
 Ele alegou que eu s queria continuar com o problema para que os outros sentissem pena de mim. Imagine s. Logo eu que no tenho complexo de mrtir!
Ed riu.
 Sim, eu sei.
 No consigo acreditar que vocs dois possam ser parentes. Ele  terrvel.
 A vida dele foi difcil, algo com que voc pode se identificar bem.
 Acho que Matt e sua namorada atual se merecem. Mas isso no  problema meu. S sei que terei de passar semanas com a perna engessada e isso me atrapalhar muito no trabalho. Isto , se ele no arrumar algum motivo para me demitir logo no dia de meu retorno.
 H algumas normas na empresa com relao a isso. Seria necessrio que eu desse autorizao para que a demitissem, e no pretendo deixar que isso acontea.

 Oh. Estou impressionada  falou Leslie, com um sorriso discreto.
 E devia estar mesmo  brincou ele, ficando ento srio.  Minha cara, por que o mdico do pronto-socorro no tratou sua perna da maneira adequada, quando a atendeu?
Os olhos dela se fixaram em um ponto no teto.
 Ele disse que aquilo tudo era culpa minha
e que eu merecia todas minhas feridas. Disse que
eu no passava de uma desavergonhada que s
sabia causar problemas e levar homens decentes
 morte. Aquilo doeu mais do que o ferimento.
 Imagino...
 Nunca mais fui a mdico algum. Mas no foi s o que ele disse que me impediu de comear a me tratar. Havia tambm o problema das despesas. A falta de dinheiro me manteve mancando at hoje. Alis, vou dar um jeito de pagar cada centavo que isso tudo custar.
 No se preocupe com isso no momento. Trate de se curar logo, que tudo mais se ajeita. Quero v-la melhorar depressa e sair danando pelo mundo.
 Poderei fazer isso, no  mesmo?  indagou Leslie, com uma expresso de esperana no rosto.
 Sim, milagres acontecem a cada instante. O seu demorou para chegar.
 Nesse caso, ficarei feliz em voltar a andar normalmente outra vez.
Pela primeira vez desde a noite anterior, seus lbios se curvaram em um sorriso.
CAPTULO VI



A operao terminou no comeo da tarde do dia seguinte. Ed permaneceu no hospital at Leslie ir para a sala de recuperao e ficar totalmente fora de perigo. Depois ela foi transferida para um quarto particular, ficando sob os cuidados de uma enfermeira particular, contratada para cuidar dela durante os primeiros dias.
Ele conversara tanto com Lou Coltrain quanto com o cirurgio ortopedista, que lhe. assegurara que Leslie teria uma vida bem menos dolorosa dali em diante.
Ed voltou para o escritrio sentindo-se bem mais tranqilo e esperanoso. Matt o abordou no corredor, assim que o viu.
 E ento?  perguntou ele, sem hesitar.
Ed mostrou um amplo sorriso.
 Ela vai ficar bem. O dr. Santos me disse que dentro de seis semanas, quando ela tirar o gesso, poder voltar at a danar.
Matt assentiu.
 Otimo.
Ed respondeu mais uma pergunta de Matt, relacionada a um problema com um dos clientes. Notando que o primo no parecia muito disposto a conversar mais, Ed se dirigiu  sua sala. Estava com uma secretria temporria, uma bonita ruiva com um sorriso simptico.
Porm, ficou surpreso quando viu Matt entrar com ele na sala e fechar a porta atrs de si.
 Agora me conte o que realmente aconteceu com a perna de Leslie.
Ed se sentou e uniu as mos, apoiando os antebraos sobre a mesa.
 Esse assunto diz respeito apenas a ela, Matt. Eu no lhe contaria mais detalhes mesmo que soubesse.
Matt suspirou com impacincia.
 Ela  um enigma. Um verdadeiro enigma.
 Leslie  uma pessoa adorvel que j passou momentos difceis na vida  corrigiu Ed.  Mas deixando de lado o que voc acha que sabe a respeito dela, Leslie no  uma garota fcil. No cometa o erro de consider-la no mesmo nvel das mulheres que costumam sair com voc. Vai se arrepender se fizer isso.
Matt observou-o com curiosidade, antes de estreitar o olhar.
 O que quer dizer com eu achar que ela seja fcil?
 J se esqueceu? Foi o que insinuou a respeito dela.
Matt no se sentiu  vontade ao se lembrar das palavras duras que usara para descrever Leslie. Lanou outro olhar impaciente para o primo.

 Est evidente que a srta. Murry significa muito para voc. Se gosta tanto assim dela, por que no a pede em casamento?
Ed passou a mo pelos cabelos.
 Eu e Leslie somos apenas amigos, Matt. Ela me ajudou a manter a sanidade quando minha noiva foi baleada naquele roubo a banco, em Houston. Na poca, eu havia at comprado uma arma, mas Leslie a tomou de mim.
 Nunca me contou que chegou a esse extremo.
 Voc no teria entendido  respondeu Ed.
 Para voc, as mulheres no passam de traidoras, Matt. Pessoas que no merecem nossa confiana. Voc nunca se apaixonou de verdade.
O rosto de Matt continuou impassvel.
 Eu nunca daria a nenhuma mulher esse poder sobre mim  disse, por fim.  As mulheres so perigosas, Ed. Sorriem para voc at conseguirem o que desejam, depois vo para os braos de outro otrio. J vi muitos homens de bem serem arrasados pelas mulheres que amavam.
 Tambm h homens que no so dignos de confiana  argumentou Ed.
Matt deu de ombros.
 No estou falando a respeito disso.  Sorriu.
 De qualquer maneira, eu teria feito algo por voc, se houvesse me contado na poca. Temos nossos desentend.imentos, mas somos muito prximos.
Ed assentiu.
 Sim, eu sei.
 Voc gosta mesmo da srta. Murray, no ?  perguntou Matt.

 Gosto dela como um irmo mais velho. Ela confia em mim. Se a conhecesse melhor, entenderia por que  to difcil para ela confiar em um homem.
 Na minha opinio, ela est  se escondendo por trs da mscara de cordeiro. Tenha cuidado. Ela est tentando fazer a vida e voc tem dinheiro.
Ed fez uma careta de desgosto.
 Pelo amor de Deus, Matt. No tem mesmo a mnima idia de quem  Leslie.
Nem voc.  Matt sorriu com frieza.  Sei coisas a respeito dela que voc no sabe. Mas vamos deixar as coisas como esto.
Ed foi invadido por uma sensao de impotncia, e detestou no poder defender Leslie de ai-
guma maneira.
 Quero mant-la como minha secretria.
 Como espera que ela consiga vir trabalhar usando gesso? questionou Matt.
Ed se recostou na cadeira e sorriu.
 Da mesma maneira como eu trabalhei h cinco anos, quando sofri aquele acidente de esqui e quebrei o tornozelo. As pessoas continuam trabalhando mesmo usando gesso, em determinados casos. Alm do mais, Leslie no usar os ps para digitar  ironizou.
Matt deu de ombros. Falar sobre Leslie Murray era algo que sempre o deixava confuso.
 Voc  quem sabe  disse ao primo.  Apenas trate de mant-la longe de mim.
Isso no seria difcil, pensou Ed. Matt certamente no constava na lista das pessoas mais estimadas de Leslie. Perguntou-se o que aconteceria nos dias seguintes. Seria o mesmo que guardar dinamite e velas acesas na mesma caixa.


Leslie saiu do hospital trs dias depois e voltou a trabalhar em uma semana. A companhia havia pago a operao, para surpresa dela e de Ed.
Ela sabia que Matt s havia feito aquilo por estar com a conscincia pesada. Mas reconhecia que ele no tivera culpa pelo que acontecera na fazenda. E tambm adorara danar com ele.
Ainda apoiando-se nas muletas, entrou em sua sala, ao lado da de Ed, e ajeitou-se na cadeira, deixando as muletas de lado.
. Como chegou at aqui?  perguntou Ed com um sorriso surpreso, assim que a viu.  No est dirigindo, est?
 No, mas uma das minhas vizinhas vinha para esse lado da cidade e eu pedi uma carona. Combinamos de rachar a gasolina nos outros dias, at eu tirar o gesso. Nos dias que ela no vier para a cidade, tomarei um txi.
 Estou contente em t-la de volta.
 Oh, tenho certeza de que sim!  brincou Leslie.  As outras secretrias me contaram tudo a respeito da moa que voc contratou, quando foram me visitar. E mesmo verdade que ela se apaixonou por voc?
Ed forou um sorriso.
 Foi o que andaram dizendo.
Leslie fez um ar de desgosto.
 Ed, voc no pode continuar vivendo no passado.
 Veja s quem fala.

Ela se encostou na cadeira, mudando de assunto. Vai ser um pouco difcil ir e voltar de sua
sala. Pode vir ditar as cartas para mim aqui?
 Claro.
Leslie olhou em torno de si, satisfeita. Tambm estou contente por haver voltado
 disse a ele.  Pensei que o sr. Caldwell aproveitaria. a oportunidade para me despedir.
 Meu sobrenome tambm  Caldwell  salientou Ed.  Matt no  to duro quanto parece. Ele no vai despedi-la.
Leslie sorriu.
 No quero me tornar um problema para vocs
 falou, com sincera preocupao.  Prefiro pedir a conta...
 Voc no vai fazer nada disso  Ed a interrompeu.  Gosto do seu trabalho. Alm disso, anota ditados melhor do que as outras secretrias.
Ela sorriu para ele.
 Obrigada, chefe.
Matt abriu a porta subitamente, a tempo de ver o olhar afetuoso que os olhos estavam trocando. Leslie e Ed se sobressaltaram.
 Pelo amor de Deus, Matt  protestou Ed.
 Voc quase me matou de susto.
 Se no estivesse to entretido com sua secretria, no teria se assustado  replicou Matt. Ento olhou friamente para Leslie.  Vejo que voltou ao trabalho, srta. Murray.
 Quero lhe pagar minha conta do hospital quanto antes, sr. Caldwell  respondeu ela, com um sorriso irnico.

Matt conteve a resposta que pretendia dar e dirigiu-se a Ed.
 Quero que leve Neil Hobbs para almoar e que descubra qual. ser a posio dela na votao para a proposta de zoneamento. Se decretarem aquele terreno ao lado da minha fazenda como rea de lazer, 1arei questo de processar algumas pessoas.
 Se ela votar a favor do projeto, ser a nica a faz-lo  afirmou Ed.  J falei com os outros participantes da votao, e o voto deles ser contra.
Matt pareceu relaxar um pouco.
 Tudo bem. Depois quero que v at a Concessionria Houlihan e que traga meu novo Jaguar para c. Ele chegou esta manh.
Ed arregalou os olhos.
 Vai mesmo me deixar dirigi-lo?
 Por que no?
Matt sorriu de um modo que Leslie imaginou que ele nunca sorriria para ela.
 Ento, obrigado e at mais  agradeceu Ed, dirigindo-se  sada.  Leslie, prepararemos aquelas cartas depois do almoo!  disse j no corredor.
 Est bem. Aproveitarei para adiantar o servio de atualizao daqueles registros de gado.
Ela olhou para Matt, deixando evidente que no havia se esquecido da tarefa que ele havia lhe passado antes da operao.
Ele enfiou as mos nos bolsos e fitou-a nos olhos. Deliberadamente, deixou que seu olhar se demorasse nos lbios dela.
 Isso pode esperar  disse a ela.  Minha secretria est em casa, com um filho doente, ento voc poder trabalhar para mim pelo resto
do dia. Mandarei a Ed que pea  srta. Smith para substitu-la hoje.
Leslie hesitou.
 Sim, senhor  respondeu, achando melhor no contest-lo.
 Agora preciso falar com Henderson a respeito de uma das novas contas. Quero v-la no meu escritrio dentro de trinta minutos.
 Sim, senhor.
Os dois se olharam feito oponentes em uma disputa, antes de Matt respirar fundo e se retirar.
Leslie passou alguns minutos examinando a correspondncia e separando-a por setores. Porm, quando deu por si j havia se passado um pouco mais de meia hora. Quando um rudo diferente chamou sua ateno, levantou a vista e se deparou com Matt, j impaciente,  porta.
 Desculpe-me  disse a ele.  Acho que perdi a noo do tempo.
Dizendo isso, deixou os papis de lado e pegou as muletas, preparando-se para sair. Ento olhou para Matt que, naquele momento, pareceu-lhe ainda mais alto.
 Estou pronta, chefe  anunciou.
 No me chame de chefe.
 Est bem, sr. Caldwell.
Matt olhou para ela, mas Leslie o desarmou quando sorriu de repente. Pego pela atitude inesperada, limitou-se a virar-se de costas e seguir pelo corredor em direo  sua sala.

Leslie o acompanhou em silncio. Matt esperou
que ela entrasse e fechou a porta atrs deles. O.
ambiente suntuoso deixou Leslie surpresa por um
momento.
Matt indicou uma cadeira de frente para a mesa dele. Leslie se acomodou e deixou as muletas de lado. Ainda estava sentindo um certo desconforto, mas tomar aspirinas estava sendo suficiente para amenizar a dor nos ltimos dias. No via a hora de poder tirar aquele gesso e poder voltar a ter uma vida normal.
Matt sentou-se atrs da mesa.
 Como est a perna?
 Melhorando, obrigada  respondeu Leslie.  J falei com o contador da empresa para separar um quarto do meu salrio todos os meses e...
Matt se inclinou to subitamente para frente que a assustou, fazendo-a interromper-se.
 Eu acertarei isso com o contador  falou ele.  Passou por cima da minha autoridade, srta. Murry. No volte a fazer isso.
Ela se ajeitou na cadeira, deixando a perna engessada em uma posio mais confortvel.
 Sinto muito, sr. Caldwell  disse no tom mais calmo que conseguiu.
Porm, ao pegar a caneta e o bloco de papel sobre a mesa, no conseguiu disfarar o tremor das mos. Matt ficou de p e foi at . janela.
Leslie esperou pacientemente, olhando para o papel em branco e se perguntando quando ele comearia o ditado.
 Voc disse a Ed que Carolyn lhe telefonou na anterior quela em que a levamos para a sala de emergncia e que lhe disse coisas desagradveis.  Virou-se de repente para ela.  S que Carolyn disse que no telefonou para voc.
A expresso de Leslie no mudou. J no se i mportava com o que Matt pensava a seu respeito. No querendo se desgastar emocionalmente, no disse sequer uma palavra em sua prpria defesa.
 E ento? No vai dizer nada?  insistiu ele.
 O que quer que eu diga?
 Pode pelo menos tentar se desculpar. Carolyn icou muito transtornada com sua acusao. E no gosto de v-la assim.
Leslie segurou a caneta com mais firmeza. Trabalhar com Matt Caldwell seria muito pior do que ela imaginara. De fato, ele no iria despedi-la, como Ed dissera, mas isso no significava que no a foraria a pedir a conta. Sim, porque se ele dificultasse demais as coisas, ela acabaria tendo
de ir embora.
De repente, no lhe pareceu que valeria a pena empenhar tanto esforo. Estava cansada, esgotada, e Carolyn era quem a havia ofendido, no o contrrio. J no agentava mais tentar viver um dia depois do outro carregando o peso de seu passado nas costas. E ser atormentada por Matt Caldwell era a ltima coisa que ela conseguiria suportar.
Em silncio, pegou as muletas e ficou de p.
 Aonde pensa que vai?  perguntou Matt, surpreso ao v-la desistir sem argumentar.
Leslie se dirigiu  porta, mas ele se posicionou diante dela.

 Ed disse que voc no poderia me despedir sem o consentimento dele  explicou ela.  Mas pode me perturbar at que eu pea a conta, no pode?
Matt no respondeu. Seu semblante tornou-se impassvel.
 Teria mesmo coragem de desistir assim, to facilmente?  perguntou ele.  Para onde iria?
Leslie abaixou a vista para o cho.
 Perguntei para onde iria  insistiu Matt.
Ela voltou a enfrentar aquele olhar frio.
 Em todo o Texas, deve haver mais alguma vaga de secretria disponvel  respondeu ela.
 Agora me d licena, por favor.
Matt se moveu, mas no da maneira como ela esperava. Tirou as muletas dela e encostou-as na porta. Ento segurou o rosto dela entre as mos, fitando cada detalhe de seu rosto e demorando o olhar sobre seus lbios.
 No, por favor  pediu Leslie.
Ele se aproximou mais. Leslie sentiu um delicioso perfume masculino invadir suas narinas, enquanto o calor do corpo dele comeou a atingir o dela. Com relutncia, lembrou-se de como fora sentir as mos dele sobre seu corpo.
O olhar de Matt indicou que ele estava pensando a mesma coisa. S que ele estava aborrecido com isso. Detestava a atrao que sentia por Leslie, algum em quem ele sabia que no podia confiar.
 Disse que no gosta que a toquem  lembrou ele, com deliberado sarcasmo, pousando a mo sobre o seio dela.
Leslie conteve o flego no mesmo instante.

Olhou para ele com um ar de apelo, demonstrando toda sua vulnerabilidade.
 Por favor, no faa isso  sussurrou.  No represento nenhuma ameaa para Ed, nem para voc. Deixe-me em paz, por favor. Eu irei embora.
Provavelmente iria mesmo, e Matt sentiu-se furioso consigo mesmo por no gostar de ouvir aquilo. Por sentia coisas estranhas quando estava na presena de Leslie? E por que no conseguia trat-la com mais gentileza? Justo ele, que sempre fora to cuidadoso no trato com as pessoas?
 Ed no vai gostar disso  disse a Matt.
 Ele no precisa saber de nada. Diga a ele o que quiser.
 Ele  seu amante?
 No.
 Por que no? No se importa quando ele a toca.
 Mas ele no me toca... como voc.
O tom angustiado de Leslie fez Matt questionar sua prpria atitude. Segurou-lhe o queixo com delicadeza, fazendo-a olhar para ele.
 Quantos idiotas j conseguiu enganar fingindo toda essa inocncia, srta. Murray?
Notando um tom de amargura por trs das palavras dele, Leslie no conteve o impulso de levar a mo aos cabelos dele, tocando-o com um ar de silenciosa compaixo.
Matt detestou gostar de sentir a mo dela em seus cabelos. Quando deu por si, seu corpo estava colado ao dela, inusitadamente excitado.
Leslie tentou se afastar, mas o gemido rouco de Matt denunciou que seu movimento s servira para piorar a situao.
Sentiu o rosto esquentar. Mike agira dessa maneira naquela noite horrvel, roando o corpo excitado junto ao dela e rindo de seu embarao. Dissera e fizera coisas terrveis a ela diante dos amigos drogados.
Ao sentir a perna de Matt se insinuar entre as suas separando-as, foi assaltada pelas dolorosas lembranas daquela noite. Tudo comeara mais ou menos dessa maneira. Ela pensara estar apaixonada por Mike, at ele atac-la numa noite em que se drogara com os amigos. Havia arrancado suas roupas e dito coisas horrveis a respeito de seu corpo, humilhando-a na frente dos outros homens. Deus, aquilo no poderia estar acontecendo novamente. No podia.
Somente depois de algum tempo foi que Matt se deu conta de que Leslie estava totalmente paralisada diante dele. Os olhos arregalados e amedrontados nem pareciam estar enxergando-o mais. Ela estava muito trmula, parecendo quase em estado de choque.
Franzindo o cenho, deu um passo atrs, afastando-se dela. Leslie estremeceu mais uma vez. Mike tambm havia se afastado dela ao ouvir um estampido vindo de trs. A bala o atravessara e atingira a perna dela.
Leslie lembrou-se dos olhos arregalados que olharam para ela com uma expresso vazia quando ele foi se aproximando at cair morto sobre ela. Ento os gritos de sua me lhe chegaram aos ouvidos. A me tentara mat-la. Leslie seduzira o amante dela e teria de morrer junto com ele.
Lembrou-se de ver cada no cho, com a perna sangrando tanto que logo formou uma poa no cho.
 Leslie?  a voz de Matt despertou-a de repente. Leslie voltou-se para ele e ltima coisa que viu foi o rosto preocupado de Matt.
Quando Leslie voltou a si, Ed estava com o rosto prximo ao dela, parecendo angustiado de preocupao. Havia uma toalha mida sobre sua testa. Olhou para ele, confusa.
Ed?
 Sim, sou eu. Voc est bem?
Ela pestanejou, olhando em torno de si. Estava deitada no sof do escritrio de Matt.
 O que aconteceu?  perguntou a Ed.  Eu desmaiei?
 Parece que sim. Voltou a trabalhar muito cedo. Deveria ter ficado mais algum tempo de repouso.
 Eu estou bem  afirmou ela, sentando-se devagar.
Sentia-se nauseada. Teve de respirar fundo algumas vezes, antes de voltar a se mover. Sorriu para o amigo.
 Acho que ainda estou um pouco fraca. E no comi nada no desjejum.
 Sua cabea-oca  ralhou Ed.
 Estou bem agora. Passe-me as muletas, sim? Quando Ed se afastou para pegar as muletas,
Leslie avistou Matt a um canto, imvel feito uma esttua de pedra. Em seguida, pegou as muletas e ficou de p, apoiando-se nelas.
 Poderia me levar para casa?  pediu a Ed.
 Acho que vou ficar de repouso por mais um dia, se no houver problema.
 Claro que no h problema  respondeu ele. Olhou para o outro lado da sala.  No , Matt?
Matt apenas assentiu. Ento lanou um ltimo olhar para Legue e se retirou.
Ela se sentiu aliviada no mesmo instante. Lembrava-se do que havia acontecido, mas no pretendia contar nada a Ed para no criar nenhum problema entre ele e o primo. Ela, que no tinha nenhum familiar, exceto a me que a odiava, respeitava a unio familiar mais do que ningum.
Deixou que Ed a levasse para casa tentando no pensar no que acontecera no escritrio de Matt. Mas sabia que todas as vezes em que o visse, dali em diante, reviveria o pesadelo daquela noite fatdica.
Depois de deixar Leslie em casa, Ed voltou para o escritrio determinado a ter uma conversa com Matt. Tinha quase certeza de que o desmaio de Leslie havia sido provocado por algo que seu primo fizera ou dissera. Precisava avisar Matt para dixar Leslie em paz, antes que algo mais grave aca basse acontecendo com ela.
Porm, quando chegou  sala de Matt, encontrou-a vazia.
 Ele disse que ia a Victoria, falar com um homem a respeito de uma propriedade  explicou uma das secretrias.  Saiu com muita pressa, cantando pneus com o carro novo. Ficamos sabendo que o senhor o trouxe da concessionria.
 Sim,  verdade  confirmou Ed, forando uni sorriso.  Ele corre como o vento.
 Notamos  respondeu ela.  O sr. CaldweIl estava quase voando quando virou a esquina com ele. Espero que tenha diminudo a velocidade depois. No  seguro andar daquele jeito.
 Sim,  verdade anuiu Ed, sem prestar muita ateno.
Estava curioso a respeito do motivo que levara Matt a agir daquela maneira.




CAPITULO VII



Matt estava andando a quase cento e vinte por hora na estrada que levava a Victoria. No conseguia esquecer o rosto de Leslie. O que vira nos olhos dela no fora raiva, nem mesmo medo. Fora algo alm dessas emoes. 
Leslie ficara aterrorizada por algum motivo que ia alm do que ele conseguira entender. Aquele olhar angustiado o afetara de uma maneira que ele no saberia explicar. E quando ela desmaiara, ele se odiara pelo modo como agira. Nunca se considerara um homem cruel, mas tinha de admitir que fora por sua causa que ela havia desmaiado daquele jeito. No conseguia entender a hostilidade que ela lhe despertava. Leslie era uma pessoa muito frgil, apesar de querer se mostrar forte e independente.
Lembrou-se do toque delicdo daqueles dedos em seus cabelos e enrijeceu o maxilar de pura tenso. Dissera coisas para provoc-la, mas Leslie vira algo alm de suas palavras. Algo que a levara toc-lo daquela maneira quase terna. Uma ternura que o afetara mais do que ele gostaria de admitir. Parecia inacreditvel, mas Leslie retribura seus insultos com um gesto carinhoso.

Ao notar que estava ultrapassando a velocidade pormitida, tirou um pouco o p do acelerador. No linha nem idia de onde estava indo. Talvez estivesse  procura de algum esconderijo, pensou mm um sorriso amargo. Um lugar para se esconder de Leslie Murray. 
Mais adiante, parou no acostamento e encostou ii cabea no volante. No estava se reconhecendo dosde que Leslie aparecera em sua vida. Ela havia trazido  tona caractersticas nem um pouco agradveis de sua personalidade. Estava envergonhado pela maneira como a havia tratado.
Leslie parecia uma pessoa doce, que sempre se surpreendia quando algum era gentil com ela. Por outro lado, sua hostilidade no parecia surpreend-la, Teria sido assim que ela fora tratada ao longo da vida? Teriam sido as pessoas to cruis com ela que Leslie passara a aceitar a crueldade como algo normal?
Encostou-se no assento, olhando o horizonte que se estendia adiante. Passara a desconfiar das muLheres desde que a me o abandonara, em troca de uma vida de aventuras. Mas nada disso justificava sua atitude em relao a Leslie.
Estava envergonhado e furioso consigo mesmo por t-la feito sofrer por algo que nem sequer era culpada. Respirou fundo, colocando o carro em movimento. Bem, no poderia continuar fugindo para sempre. Precisava voltar para o escritrio. Era provvel que Ed estivesse furioso com ele, e no poderia culp-lo por isso. Afinal, agira mesmo feito um crpula.

Matt no se surpreendeu quando, minutos depois de haver chegado ao escritrio, Ed praticamente invadiu sua sala. 
No havia como negar que fora injusto com Leslie. E no tinha a mnima idia do motivo que a levava a despertar aquele lado negativo de sua personalidade.
 J que a detesta tanto assim  bradou Ed , por que simplesmente no a ignora?
 Tem razo  anuiu ele, sem encarar o primo.
 Ento por que no segue meu conselh? Leslie precisa desse emprego.
Matt olhou para ele.
 E por que ela precisa tanto desse emprego? Por que ela no tem outro lugar para onde ir?
Ed desviou a vista.
 No posso lhe dizer. Dei minha palavra a ela.
 Ela est com algum problema com a polcia?
Ed riu.
 Leslie?
 Esquea.  Matt foi at a janela e se virou novamente para Ed.  Ela disse algo antes de desmaiar.
 O qu?  indagou Ed, com cautela.
 Disse No, Mike. Quem  Mike?
Um homem morto  respondeu Ed.  H anos. 
 O homem pelo qual ela e a me competiram  afirmou Matt.
 Isso mesmo. Se mencionar o nome dele na frente dela, eu a levarei embora no mesmo instante e nunca mais voltarei. Nunca mais.
Matt percebeu que o primo falara srio. Franziu o cenho, pensativo.

 Ela o amava?
 Ela achava que sim.  Ed passou a mo pelos cabelos.  Aquele homem destruiu a vida dela.
 Como?
Ed no respondeu. Cruzou os braos e continuou olhando para Matt, que fungou, impaciente.
 Ser que ainda no percebeu que todo esse mistrio s serve para piorar a situao?
 Sim  admitiu Ed.  Mas, se quiser respostas, ter de fazer as perguntas a Leslie. No costumo quebrar minhas promessas. Matt resmungou algo incompreensvel no momento em que Ed abriu a porta e saiu.
Ed atravessou o corredor, pensativo. Esperava haver feito a coisa certa. Estava tentando proteger Leslie, mas, at onde sabia, suas respostas poderiam at haver piorado a situao. Matt no gostava de mistrios.
No entanto, no tinha idia do que poderia acontecer se ele a forasse a falar sobre algo que ela vinha lutando havia anos para esquecer.
Tambm no conseguia imaginar qual poderia ser a reao de seu primo se ele ficasse sabendo sobre o escndalo publicado nos jornais. E se ele descobrisse que a me de Leslie continuava na priso, acusada pelo crime de assassinato? Deus, no queria nem pensar na reao que seu primo teria se soubesse de tudo aquilo.

De fato, Ed ficou to preocupado com aquelas questes que foi  casa de Leslie naquela noit, conversar a respeito disso e saber como ela estava.

 No quero que ele saiba  disse ela, quando Ed questionou-a a respeito de suas preocupaes.
 Nunca.
 E se ele comear a investigar por si s e descobrir a verdade?  sugeriu Ed.  Ele ficar conhecendo o ponto de vista de todos, menos o seu, que  o mais importante. Alm disso, se aqueles tablides da poca forem parar nas mos dele, Matt acabar acreditando no que foi publicado e no na verdadeira histria.
 No me importo com o que ele pensar ou deixar de pensar  Leslie mentiu.  De qualquer maneira, tudo isso j no tem importncia agora.
 Por qu?
 Porque no vou voltar a trabalhar no escritrio  respondeu ela, evitando encar-lo.  Esto precisando de uma digitadora no Armazm de Estocagem aqui da cidade. Fui me candidatar ao emprego essa tarde, e fui admitida.
 E como chegou at l?
 Existem txis em Jacobsville, esqueceu, Ed? E no estou to sem dinheiro assim.  Ela levantou o queixo.  Pagarei seu primo pela operao nem que eu demore anos para conseguir. No suportarei ficar nem mais um dia recebendo aquele tipo de tratamento por parte dele. Sinto muito se seu primo odeia as mulheres, mas no pretendo me tornar a prxima vtima das indelicadezas dele. J passei por coisas demais na vida e no preciso suportar mais isso.
 COncordo com voc. Mas ainda acho que voc deveria reconsiderar. Tive uma longa conversa com ele...

 No contou a ele, contou?  indagou ela, preocupada.
 No, no contei. Mas acho que voc deveria contar.
 Esse assunto no  da conta dele  retrucou ela, por entre os dentes.  No devo nenhuma explicao a ele.
 Sei que no  o que parece, Leslie, mas Matt
 um homem bom.  Ele franziu o cenho, pensando
em uma maneira de se explicar melhor a ela.  No vou fingir que entendo o motivo pelo qual voc o afeta tanto, mas tenho certeza de que Matt tem noo de que est sendo injusto com voc.
 Pois ele pode ser injusto quanto quiser, porque no pretendo lhe dar a chance de voltar a me insultar. Estou falando srio, Ed. E no vou voltar atrs.
Ed respirou fundo.
 Bem, estarei por perto se precisar de mim. Continua sendo minha melhor amiga.
Ela sorriu, pousando a mo sobre a dele.
 E voc  meu melhor amigo. No sei o que teria sido de mim se no fosse por voc e por seu pai.
Ed sorriu.
 Voc teria encontrado outra sada. O que no lhe falta  coragem.
Leslie suspirou, olhando para sua mo pousada sobre a dele,  J no sei se isso  verdade, meu amigo. Estou to cansada de lutar, Ed. Pensei que conseguiria pr minha vida em ordem vindo para Jacobsville, mas acho que me enganei. Por que o primeiro homem com que me deparei tinha de ser logo um machista, com um dio incontido pelo sexo oposto? Sinto que se estivesse de volta  arena.
 O que ele lhe disse hoje?  Ed quis saber.
Leslie engoliu em seco.
 As coisas de sempre, mas o que mais me ofendeu foi ele me acusar de haver mentido a respeito do telefonema de Carolyn. Ela disse que no havia telefonado para mim e ele acreditou.
 Aquela mentirosa  falou Ed, por entre os dentes.  E eu que pensei que meu primo fosse um homem inteligente.
 Ele , do contrrio no seria milionrio. Leslie ficou de p.  Agora v para casa, Ed. Preciso descansar para estar bem no primeiro dia do meu novo emprego.
Ele fez um ar de desagrado.
 Eu gostaria que as coisas houvessem transcorrido melhor para voc nesse aspecto.
Ela sorriu.
 Pense s em como o mundo seria enfadonho se sempre tivssemos aquilo que achamos que queremos.
Ed tambm sorriu.
 O armazm de estocagem no  um local agradvel para se trabalhar  salientou ele.
Ser apenas um emprego temporrio.
 Como quiser. Se precisar de mim, sabe onde me encontrar.
Sim, eu sei.  Leslie beijou-o no rosto.  Obrigada.

Ed estava em casa, jantando e assistindo ao noticirio, quando Matt bateu  porta e entrou, como sempre fazia quando ia visit-lo.
Puxando uma cadeira, sentou-se  mesa com o primo, recusando o jantar que Ed lhe ofereceu.
 O que est achando do Jaguar?  perguntou Kd, entre uma colherada de sopa e outra.
 Parece um avio com asas.  Matt riu. Aps olhar para a tev por um instante, perguntou:  Como est Leslie?
Ed olhou para ele.
Ela arrumou um novo emprego. Matt tornou-se tenso.
O qu?
 Ela disse que no quer mais trabalhar no escritrio. Arrumou um emprego de digitadora, no armazm de estocagem. Tentei faz-la mudar de idia, mas no adiantou. Mandou que eu o avisasse de que ela est pedindo a conta.  Ed deu de ombros.  Mas acho que voc j havia deduzido que isso iria acontecer. Conheo Leslie h seis anos e nunca a vi desmaiar. O que voc fez ou disse deve ter sido grave mesmo.
Matt olhou para a tev e se manteve assim por algum tempo. O armazm de estocagem pagava os funcionrios muito mal. Duvidava que Leslie ganharia dinheiro suficiente para se manter, ainda mais tendo de comprar os remdios para o tratamento da perna.
Nunca se sentira to envergonhado de si mesmo. Leslie no ia gostar de trabalhar naquele lugar. Ele conhecia o gerente, um homem que s visava lucro e que no conhecia termos como frias, dias de licena ou frias remuneradas
Matt apertou os lbios. Mandara Leslie para um inferno por causa de seu egosmo e de seu comportamento idiota.
Num impulso, ficou de p e saiu sem se desped de Ed, que Continuou a assistir ao noticirio, demonstrando que estava acostumado quele tipo de atitude por parte do primo.
Depois de passar boa parte da noite em claro, atormentada por pesadelos, Leslie levantou bem cedo e foi de txi at o armazm de estocagem. Chegando l, foi direto ao escritrio de Judy Biakely, a gerente do setor de relaes humanas.
 E um prazer rev-la, srta. Murry  disse ela, com um sorriso.
 O prazer  todo meu  respondeu Leslie.
 No vejo a hora de comear meu novo trabalho. A sra. Blakely franziu o cenho, ficando desconcertada de repente.
 Oh, no sei como lhe dizer isso, mas... Bem, a moa que ocupava esse cargo chegou aqui h poucos minutos e implorou para ter o emprego de volta. Ela est com srios problemas de famlia e no pode abrir mo do salrio. Sinto muito, srta. Murry. Se tivssemos alguma outra vaga disponvel, ela seria sua, mas infelizmente...
A mulher pareceu realmente constrangida com a situao. Leslie sorriu com gentileza.
 No se preocupe, sra. Blakely. Encontrarei outro emprego. No  o fim do mundo.

 No seu lugar, eu estaria furiosa  confessou a mulher.  E olhe s para voc, sorrindo e me consolando. Oh, droga, me sinto pssima!
No foi culpa sua que as coisas tenham se oncaminhado dessa maneira. Poderia chamar um Lxi para mim, por favor?
 Claro. E pagaremos por ele tambm. E o mnimo que posso fazer.
Leslie foi esperar o txi do lado de fora. Estava arrasada, mas no iria demonstrar isso e deixar a coitada da sra. Blakely se sentindo ainda pior.
Sentou-se em um dos bancos que a empresa colocara no lado de fora para os funcionrios descansarem, torcendo para o txi chegar logo. Ento se ps a pensar no que iria fazer. No tinha nenhum plano e nenhum lugar para onde ir. A nica alternativa seria sair procurando outro emprego ou voltar para o escritrio de Ed, e esta no chegava exatamente a ser uma alternativa. No conseguiria mais olhar para Matt Caldwell sem se lembrar da ameaa que ele representava.
A luz do sol se refletiu no pra-brisa de um veculo que se aproximava, mas Leslie reconheceu o Jaguar de Matt no mesmo instante.
Ela ficou de p, mesmo com dificuldade, e segurou a bolsa com firmeza junto de si. Sentiu um arrepio de apreenso ao v-lo estacionar o carro vir em sua direo.
Leslie fitou-o com ar de desafio e Matt fitou-a com seriedade enquanto se aproximava. Ento parou a certa distncia dela e observou-a em silncio. Leslie no soube o que fazer. Se estivesse em condies de fugir, teria sado correndo dali, mas teve de continuar no mesmo lugar, mantendo o que lhe restava de dignidade.
Ento, para seu espanto, Matt resmungou algo incompreensvel e veio at ela. Em seguida, tomou-a nos braos e levou-a em direo ao Jaguar.
Indignada, Leslie bateu a bolsa nele.
 Pare com isso  mandou Matt.  Vai me fazer derrub-la. E considerando o peso desse gesso,  bem capaz que voc afunde no cho.
 Ponha-me no cho!  bradou ela.  No irei a lugar nenhum com voc!
Matt parou ao lado da porta do passageiro e olhou-a com um ar controlado.
 Detesto segredos  disse a ela.
 No creio que voc consiga ter algum, com Carolyn gritando-os para todo mundo ouvir.
Matt olhou para os lbios dela. Ento beijou-a de um modo punitivo, como uma maneira de fazla se calar.
Aturdida, Leslie conteve o flego e a surpresa a deixou sem reao por um momento.
Sem se importar em oferecer alguma explicao, Matt abriu a porta e acomodou-a no assento.
 Notei isso a seu respeito  falou ele, ao sentar-se ao volante e comear a ajustar o cinto de segurana.
 Notou o qu?  indagou ela, comeando a chorar. Sem se alterar, Matt tirou um leno do bolso e o entregou a ela.
 Voc reage de maneira estranha a qualquer demonstrao de carinho.

Ela enxugou as lgrimas.
 Como soube que eu estava aqui?  perguntou a ele.
 Ed me disse.
 Por qu?
Matt deu de ombros.
 No tenho a mnima idia. Acho que ele achou que eu poderia me interessar pelo assunto.
 Acho pouco provvel  retrucou Leslie. Matt sorriu, fazendo-a franzir o cenho com ar confuso.
 Voc no conhece o dono deste lugar  disse ele.  Este armazm  um verdadeiro lar de escravos.
 No estou achando isso nem um pouco engraado.
 Acha que estou brincando? Pois saiba que ele emprega imigrantes ilegais com a promessa de timos salrios e, depois que os coloca onde quer, ameaa denunci-los para o Servio de Imigrao se eles no aceitarem trabalhar segundo as regras impostas por ele. J tentamos fechar esse lugar, mas o sujeito  escorregadio feito uma enguia.  Matt olhou-a de lado.  No vou deixar que venha parar em um lugar como esse s para fugir de mim.
 Deixar?  Leslie se indignou.  Voc no manda na minha vida!
Ele riu.
 Assim est melhor.
Leslie bateu a mo no gesso, furiosa.
 Para onde vai me levar?  perguntou, quando ele ps o carro em movimento.

 Para casa.
 Mas est indo pelo caminho errado.
 Para minha casa  esclareceu ele.
 No!
Sem dar ouvidos aos protestos de Leslie, Matt seguiu pela estrada. Minutos depois, parou o possante Jaguar diante da casa dele. Ento desligou o motor e virou-se para Leslie. Em silncio, observou-a por alguns segundos, notando as linhas de cansao no rosto dela.
 Por que no tira uma foto?  ela o provocou.
Matt suspirou.
 Voc  realmente frgil  disse.  Tenta disfarar ao mximo, mas todas suas vulnerabilidades vm  tona quando voc se encontra com as costas na parede.
 No preciso de sua anlise psicolgica barata
 replicou Leslie.
Matt estendeu a mo na direo dela, notando que Leslie se encolhera, diante da possibilidade de ser tocada. Contudo, isso j no o aborrecia mais.
 Voc  morena  disse ele, observando a cor da raiz dos cabelos dela.  Por que tinge os cabelos de loiro?
 Gosto de ser loira  respondeu ela, com certa hesitao.
 Continua insistindo em manter segredos, Leslie. Na sua idade, isso no  comum. Ainda  jovem e, at essa perna comear a incomod-la, aposto que voc tinha uma sade perfeita. Deveria ser mais expansiva tambm. Mas precisa perceber que sua vida est apenas comeando.

Ela riu com ironia.
 Eu no desejaria a vida que tive nerh mesmo
a voc.
 Seu maior inimigo  completou ele.
 Isso mesmo.
 Por qu?
Ela olhou para frente. Estava to cansada. To cansada. O dia que comeara com uma nova esperana s lhe trouxera desapontamentos at aquele momento.
 Quero ir para minha casa.
No at que eu consiga obter algumas respostas.
 Voc no tem direito de me obrigar a responder s suas perguntas! No tem direito!
 Leslie!
Ele segurou-a pela nuca e puxou-a para si, deitando a cabea dela em seu ombro. Ento a manteve assim, at ela se acalmar. Acariciou-lhe os cabelos, sussurrando palavras para tranqiliz-la.
 O que ser que eu fiz para merecer voc?  perguntou ela, em meio a um soluo.  Nunca fui capaz de magoar outro ser humano e veja s onde me meti. Anos e anos de fuga sem nunca encontrar paz.
Matt continuou a ouvi-la, sem entender o que ela estava querendo dizer. Continuou a acariciar-lhe os cabelos, tentando consol-la daquele choro convulsivo.
 Calma, querida. Est tudo bem. Calma.
Leslie no acreditou que ele estivesse sendo sincero. Sem querer se deixar envolver demais, afastou-se e enxugou o rosto, tentando recuperar o controle.

Matt manteve o brao atrs do encosto do assento dela e olhou-a com preocupao.
 Leve-me para casa, por favor  Leslie pediu mais uma vez.
Ele hesitou, mas somente por um instante.
 Se  o que voc realmente quer...
Ela assentiu com um meneio de cabea. Matt ligou o motor e partiram em seguida.
Quando chegaram  casa de Leslie, Matt ajudou-a sair do carro e acompanhou-a at a entrada.
 No deveria ficar sozinha nesse estado  disse ele.  Vou telefonar para Ed e pedir a ele que venha v-la.
 No precisa...
 No discuta, Leslie. Voc precisa de algum com quem conversar. Evidentemente que a pessoa mais indicada no  seu maior inimigo, e j que Ed parece saber tudo a seu respeito... No entendo por que no mantm segredos para ele  acrescentou, impaciente. 
 Obrigada pela carona  Leslie agradeceu, sem dar ateno  indignao dele.
 Leslie?
Ela hesitou, ento olhou para ele.
Matt estreitou o olhar.
 Voc foi violentada?



CAPTULO VIII


As palavras a atingiram feito um bale de gua fria. Leslie sentiu o peso de cada uma delas. Seu rosto se tornou triste, sob o olhar atento de Matt.
 No exatamente  respondeu, tensa.
Viu Matt empalidecer, e soube que ele estava se lembrando do que havia acontecido no escritrio dele, quando ela desmaiara.
Ele no conseguiu falar. Tentou, mas foi como se as palavras houvessem lhe fugido da mente. Com uma expresso indefinvel, ele se virou e se dirigiu ao carro.
Surpresa com a atitude dele, Leslie ficou olhando ele se afastar com uma estranha sensao de vazio e de alvio ao mesmo tempo. Era como se no tivesse mais nada para esconder.
Entrou em casa devagar, com a ntida impresso de que no voltaria a rever Matt Caldwell muitas vezes dali em diante. Por fim, descobrira sem querer uma maneira de afast-lo de uma vez por todas de seu caminho. Mas por que no estava satisfeita com o resultado? Por que aquele vazio em seu peito?

Ed telefonou para Leslie mais tarde, naquele mesmo dia, e prometeu ir visit-la na noite seguinte. Apareceu com uma embalagem cheia de pequenos recipientes com comida chinesa, que ele sabia que ela adorava.
Enquanto comiam, mencionou que o emprego dela continuava disponvel.
 Matt no lhe disse isso pessoalmente porque, por algum motivo, no est se sentindo muito  vontade para lhe pedir para voltar. Por isso, pediu que eu o fizesse  explicou Ed.  Ele tem noo de que a perturbou e est arrependido. Quer que voc volte a trabalhar para mim.
Leslie olhou para ele.
 O que voc contou a ele?
 O que eu sempre digo a ele, quando faz perguntas a seu respeito: que pergunte diretamente a voc.  Depois de provar outra poro da comida, ele continuou:  Acho que ele se deu conta de que algo muito grave aconteceu a voc.
 Ele lhe falou algo a respeito disso?
 No.  Ed olhou para ela.  Ele pegou a estrada para Victoria ontem  noite e quebrou vrias coisas em um bar.
Leslie arregalou os olhos, surpresa.
 E por que ele fez isso?
 Ele havia bebido demais. Tive de ir busc-lo na delegacia esta manh. E isso no  do feitio dele, pode acreditar. Nem mesmo os policiais acreditaram quando viram se tratar do poderoso Matt Caldwell. Ele s teve problemas com a polcia uma vez, quando uma mulher o acusou de assdio, mas a governanta dele deu um depoimento explicando que, na verdade, fora a moa quem tentara seduzi-lo e que ela provavelmente ficara furiosa porque Matt no a quisera e decidira se vingar dele por isso.
Leslie se lembrou da pergunta que Matt lhe fizera e de quanto ele ficara abalado ao ouvir sua resposta. No tinha idia do motivo pelo qual Matt ficara to abalado ao saber sobre seu passado.
 Pare de fazer isso consigo mesma, Leslie.
O comentrio de Ed a trouxe de volta  realidade, e somente ento ela percebeu que ele voltara a falar sobre o emprego.
 No tem como mudar o passado  continuou ele.  Precisa caminhar em direo ao futuro sem hesitaes. A nica maneira de curar traumas  enfrentando-os.
 Onde aprendeu isso?
 Eu estava assistindo a um programa de entrevistas outro dia, e um psiclogo falou sobre isso. Lembrei-me de voc.
Leslie tomou um gole de ch gelado.
 Eu precisava fugir, Ed. Voc sabe o que teriam feito comigo se eu houvesse continuado em Houston.
 Sim, eu sei. O problema  que tambm est fugindo de si mesma.  Ele hesitou, ento prosseguiu:  H uma coisa que preciso lhe dizer e que voc no vai gostar de saber.
 Deixe-me adivinhr: algum reprter do jornal local me reconheceu e quer marcar uma entrevista.
 Pior  respondeu Ed.  Apareceu um reprter de Houston aqui na cidade, que comeou a fazer perguntas por a. Acho que ele a encontrou.
Leslie segurou a cabea entre as mos.
 Que timo. Bem, pelo menos no sou mais funcionria do Grupo Caldwell e no foi embaraar seu primo quando a histria vier  tona.
 Ainda no terminei a histria  disse Ed. Com um breve sorriso, acrescentou:  Aquele reprter no vai mais voltar aqui, pode ficar tranqila. Na verdade, ele entrou no escritrio de Matt em um momento de distrao da secretria dele. Porm, disseram-me que o homem saiu praticamente correndo, pouco depois, com Matt perseguindo-o feito uma sombra pelo corredor. O reprter ficou to desesperado que deixou cair uma pasta e no teve coragem de voltar para peg-la..
Leslie hesitou.
 Quando foi isso?
 Ontem.  Ed riu.  Ele no pegou Matt em um bom momento.
Ela continuou sria, com ar de preocupao.
 Acha que ele contou a Matt?
 No. No sei o que ele disse, claro, mas ele no ficou no escritrio por tempo suficiente para falar muito.
 Mas a tal pasta...
 Foi devolvida a ele sem haver sido aberta  explicou Ed.  Sei disso porque fui eu mesmo quem a levou at a portaria. Fiquei sabendo que o reprter pagou uma pessoa para ir busc-la.
 Ainda bem.
 Pelo visto, esse episdio foi a gota dgua para Matt, porque pouco depois ele saiu, anunciando que no voltaria mais ao escritrio. Carolyn me telefonou no fim da tarde, dizendo que ele
havia ido ao apartamento dela e que os dois haviam discutido. Matt tomara vrias doses de usque, mas ela acabou escondendo a garrafa para que ele no bebesse mais. Pelo visto, no adiantou porque ele saiu de l e foi direto para um bar, onde continuou bebendo e acabou criando confuso.
Leslie continuou ouvindo em silncio.
 Isso no  do feitio de Matt.  Ed balanou a cabea, preocupado.  Ele toma um usque ou outro, de vez em quando, mas nunca se embebeda.
Todos que o viram ficaram chocados.
 Eu imagino.  Aps uma breve pausa, Leslie perguntou num impulso:  Carolyn estava brava com ele?
 Furiosa. Parece que eles tiveram uma discusso muito sria, e depois de tudo que Matt j havia passado ao longo do dia... Ele nem foi trabalhar hoje.
Leslie no disse nada. Para todos os lugares onde ia, acabava causando problemas. Fugir, esconder-se... Nada parecia suficiente para resolver o problema. E o pior era ver gente inocente envolvida nele.
Ed hesitou ao ver a expresso no rosto dela. No queria piorar as coisas, mas havia mais notcias que precisaria dar a ela.
 Pode falar  disse ela, percebendo a hesitao dele.
Ed respirou fundo.
 Fiquei sabendo que o mesmo reprter que veio at aqui foi visitar sua me na priso. Fiquei preocupado e telefonei para o diretor. Parece que... Parece que sua me sofreu um enfarte.
Leslie conteve o flego.
 E ela vai sobreviver?
 Sim. Ela mudou muito em seis anos, Leslie. O diretor disse que sua me quer v-la, mas que sente-se envergonhada demais para entrar em contato com voc. Ela acha que voc nunca vai perdo-la pelo que ela lhe fez.
Leslie se esforou para no deixar as lgrimas invadirem seus olhos.
 Claro que a perdoei. S no quero me encontrar com ela.
 Ela sabe disso.
Leslie olhou para Ed.
 Voc foi visit-la?
Ele hesitou, mas acabou assentindo.
 Ela estava passando bem at aquele reprter aparecer e comear a desenterrar o passado. Ele foi um dos que sugeriu que fosse feito um filme baseado no caso.  Ed suspirou, impaciente.  Trata-se de um jovem ambicioso, que quer ficar famoso de qualquer maneira. O mundo est cheio de pessoas assim. Pessoas que no se importam em prejudicar os outros para conseguirem aquilo que querem.
Leslie mal estava ouvindo o que Ed dizia.
 Minha me.., perguntou a meu respeito?
 Sim.
 E o que voc disse a ela?
 A verdade. Ela quer que voc saiba que ela lamenta muito pelo que aconteceu, e principalmente pela maneira como ela a tratou antes e depois do julgamento. Entende que voc no queira v-la. Disse que merece isso por haver arruinado sua vida.
Leslie olhou para a comida com olhar vago.
 Ela nunca se sentiu satisfeita com meu pai. Queria coisas que ele no tinha condies de lhe dar. Roupas caras, jias, viagens... Tudo que ele sabia fazer era pilotar um avio velho e no recebia muito por isso. Eu o vi cair, Ed.  Os olhos dela se encheram de lgrimas.  Sabia que ele havia morrido antes mesmo de irem socorr-lo. Corri para casa. Minha me estava ouvindo msica e danando. Ela nem se importou quando dei a notcia. Ento quebrei o maldito aparelho de som e me joguei em cima dela, gritando.
Ed continuou ouvindo, mantendo um ar solidrio.
 Ns nunca nos entendemos muito bem  continuou Leslie , mas conseguimos conviver. Ela arrumou emprego como garonete e eu arranjei um emprego de meio perodo, como datilgrafa. Na poca, eu tinha dezesseis anos. Quando eu j estava com dezessete, ela conheceu Mike no restaurante. Ele era charmoso e elegante, e no demorou muito para minha me convid-lo para ir morar conosco. Fiquei encantada por ele. Voc sabe como adolescentes se impressionam com homens mais velhos. Ele tambm flertava comigo, de vez em quando. Minha me no gostava nem um pouco disso e, certa vez, eles brigaram seriamente por minha causa. No dia seguinte, ele apareceu em casa com os amigos e eles comearam a se drogar.  Ela estremeceu.  O resto voc j sabe.
 Sim.
 Tudo que eu queria era que ela me amasse. Mas minha me nunca se importou comigo.
 Ela me disse que j teve muito tempo para conviver com os prprios arrependimentos. Leslie, voc sabia que ela era viciada em drogas?
 Ela o qu?!  Leslie se sobressaltou.
 Sua me era viciada em drogas  repetiu ele.  Foi o que ela me disse. Seu pai se cansou de tentar faz-la desistir daquilo. Ele a amava, mas no tinha condies de sustentar o vcio dela. No era roupas nem jias que ela queria, Leslie. Era dinheiro para comprar drogas.
Legue sentiu como se o cho houvesse sumido abaixo de seus ps.
 Meu Deus...
 Ela ainda estava usando drogas quando a encontrou com Mike e os amigos dele.
 Quanto tempo isso durou?
 Pelo menos cinco anos  respondeu Ed.
 Nunca pensei...
 E, pelo visto, voc no sabia que Mike era traficante. Ela tambm me contou isso quando fui visit-la. Ainda no  muito fcil, para ela, falar a respeito disso. Agora que ela est com uma noo diferente da realidade, tem conscincia do que fez para voc. Queria que voc estivesse casada, feliz e com filhos. Por isso ficou muito triste quando eu disse a ela que voc no saa com ningum.

 Ela deve saber o motivo melhor do que ningum.
 Parece muito magoada, Leslie.
 E estou.  Ela se encostou na cadeira.  J no me importo se o tal reprter me encontrar. Estou cansada de viver fugindo.
 Ento comece a viver.  Ele ficou de p.  Volte para o trabalho, espere sua perna melhorar
e recupere a aparncia que tinha antes. Deve isso
a voc mesma.
 Ser que conseguirei, depois .de tant tempo?
 Claro que conseguir. Todos ns passamos por perodos de angstia em que pensamos que nunca mais recuperaremos o nimo de viver. Mas isso passa. Porm, somente se voc enfrentar os problemas e realmente quiser voltar a viver.
Leslie inclinou a cabea e sorriu para Ed, com afeio.
 Est bem, vou aceitar o emprego de volta. Mas se seu primo me causar mais problemas...
 No creio que Matt v lhe causar problemas.
 Ento nos veremos na quinta-feira de manh.
 Quinta-feira? Mas amanh  quarta.
 Irei na quinta-feira. Tenho outros planos para amanh.
No dia seguinte, Leslie foi a um salo de beleza e recuperou a aparncia de antes. Tingiu os cabelos com sua cor natural, tirou as lentes de contato e voltou a usar culos. Tambm comprou roupas de aparncia mais profissional.
Na quinta-feira de manh, estava mais do que pronta para voltar ao trabalho.

Estava trabalhando em sua mesa havia mais de meia hora quando Matt apareceu. Ele mal olhou para ela, evidentemente no reconhecendd a nova secretria. Ento bateu  porta de Ed que se encontrava aberta.
 Vou at Houston negociar aquela venda . avisou ao primo.
Leslie notou que ele parecia diferente. Seu tornl de voz estava mais suave, sem o costumeiro ton1 autoritrio.
 Vejo que no conseguiu convenc-la a voltar... Por que est balanando a cabea?
Ed ficou de p, com um ar exasperado e apontou para Leslie.
Matt girou sobre os calcanhares e olhou para ela. Ento se aproximou, franzindo o cenho.
Leslie estava com os cabelos escuros e mais curtos. Trajava um discreto tailleur bege e estava usando um delicado par de culos de aros dourados.
 Bom dia, srta. Murry  disse ele, mal conseguindo disfarar a surpresa.
 Bom dia, sr. Caldwell.
Ele olhou-a por mais algum tempo, antes de voltar a se dirigir a Ed.
 Estarei de volta  noite. Se eu no voltar, voc ter de ir  reunio com o comit de zoneamento.
 Essa no  protestou Ed.
 Apenas diga a eles que ns vamos construir um prdio de dois andares naquele terreno quer eles gostem ou no. E que continuaremos brigando por isso na justia enquanto for necessrio. Estou cansado de tentar manter a empresa em um prdio que tem centenas de anos com encanamentos
que vivem explodindo.
 No parecer multo ameaador vindo de mim.
 V para frente do espelho e pratique algumas expresses de raiva.
 E isso que voc faz?  Ed arqueou uma 4obrancelha.
 S fazia no incio. Agora o tom  natural.  Matt no conteve o riso.
 Ficou mesmo muito bom nisso. Ed tambm
 Lembro-me que nem meu pai discutia com voc, a menos que tivesse timos argumentos. Matt enfiou as mos nos bolsos.
 Se precisar falar comigo, ligue para o meu celular.
 Est bem.
Antes de sair, Matt hesitou mais uma vez e olhou para Leslie. Ela levantou a vista para ele e ambos se entreolharam por um momento. Ento Matt saiu sem dizer uma palavra.
Ed se aproximou da mesa dela assim que o primo sumiu de vista.
 At aqui, tudo bem.
 E se o tal reprter voltar?  perguntou ela.
 Acho que isso no vai acontecer. Ele deixou a cidade ontem, e com bastante pressa. O delegado da cidade  nosso amigo e cuidou disso pessoalmente. Pediu ao rapaz para se retirar da cidade, antes que acabasse sendo preso por invaso de privacidade.
Leslie suspirou, com um sorriso.
 Ora, acho que estou comeando a me sentir protegida por aqui!

 timo. Pode ficar aqui pelo tempo que quiser. Leslie sentiu-se satisfeita por, finalmente, ncr tencer a algum lugar. Ter Ed como amigo era, realmente algo muito especial. Seus olhos se en-
cheram de lgrimas.
 No comece a chorar  ralhou ele.
Ela se esforou para conter o choro e sorriu para ele.
 Eu no ia chorar. Obrigada, Ed.
 Agradea a Matt. Foi ele quem acionou a polcia para cuidar do caso e manter o sujeito a distncia.
 Matt?
 Ele nem sabe por que o reprter invadiu o escritrio, mas o fato de ele fazer perguntas a seu respeito foi suficiente para deixar Matt furioso. Afinal, voc  funcionria da empresa.
 Entendo.
Quando voltou para sua sala, Ed sentiu-se subitamente preocupado. Matt no sabia por que o reprter andara fazendo perguntas a respeito de Leslie. Mas e se ele descobrisse a verdade?
Em um impulso, ligou para o hotel onde Matt costumava se hospedar quando ia para Houston. Ficou surpreso ao reconhecer a voz de Carolyn.
 Carolyn? Matt est por a?
 No no momento. Saiu para se encontrar com uma pessoa. Acho que ele se esqueceu de que o estou esperando com o jantar  acrescentou ela, em um tom aborrecido.
 Est tudo bem por a, no est?
 Por que no estaria?

 Matt tem agido de maneira estranha ultimamente.
 Sim, eu sei. Mas  por causa dessa tal de Leslie Murry! Essa garota j causou problemas demais. Quando Matt voltar, ela ser despedida, pode acreditar. Tem idia do que aquele reprter disse sobre ela?
Quando deu por si, Ed percebeu que havia desligado. Agora, no apenas Matt sabia algo -a respeito de Leslie, mas tambm Carolyn. Ele precisava fazer algo para proteger a amiga. Mas o qu?
Ed teve de comparecer  reunio com a comisso de zoneamento naquela noite. Quando apareceu no escritrio, na manh seguinte, encontrou Leslie sentada calmamente  sua mesa, digitando algumas cartas.
 Como foi a reunio?  perguntou ela, assim que o viu.
 Otima. Matt ficar orgulhoso de mim.  Ed hesitou.  Ele.., ainda no chegou, no ?
 No. E nem telefonou.  Ela franziu o cenho.
 No est achando que aconteceu algum problema com o avio, est?
 Se algo tivesse acontecido, j estaramos sabendo. Ele no viajou sozinho.
Leslie experimentou uma estranha sensao de desapontamento.
 Carolyn foi com ele?
Ed assentiu e passou a mo por entre os cabelos, preocupado.
Ele sabe, Leslie. Os dois esto sabendo.

Leslie empalideceu. Aps o primeiro instante de choque, ela pegou a bolsa.
 Entregue-me as muletas, por favor.
 Oh, Leslie.
Ela estendeu as mos e ele entregou as muletas a ela.
 Para onde voc vai?
Leslie deu de ombros.
 No importa.
 Irei com voc.
 No, Ed. Eu sou a forasteira por aqui. De qualquer maneira, j causei problemas demais. Obrigada por tudo. Conversaremos depois.
Ele suspirou, parecendo arrasado.
 Mantenha contato, pelo menos  pediu a ela.
Lesije sorriu.
 Pode deixar.
Ed ficou olhando-a ir embora, sentindo um aperto no peito. Gostaria de poder faz-la ficar, mas no queria v-la sofrer mais. Quando Matt voltasse, provavelmente estaria furioso, e pelo menos Leslie seria poupada da fria dele.

CAPTULO IX


Leslie no tinha muitas coisas para pr na bagagem. Apenas algumas roupas e itens pessoais, como a foto do pai que 1a sempre carregava consigo. Comprara uma pasngem de nibus para San Antonio, um dos lugares onde os reprteres bisbilhoteiros de Houston jino pensariam em procur-la. Poderia arranjar i rn emprego de digitadora e encontrar outro lugar para morar. No seria to ruim assim.
Pensou em Matt, tentando imaginar como ele clevena estar se sentindo depois de conhecer toda a histria. Ou, pelo menos, a verso da imprensa a respeito dela. Tinha certeza de que ele e Carolyn teriam muito sobre o que conversar no caminho de volta para casa. Provavelmente Carolyn espalharia a notcia escandalosa por toda a cidade. E mesmo que Leslie parasse de trabalhar para Matt, no deixaria de se tornar o alvo das fofocas. Portanto, partir seria mesmo a melhor opo.
Iria fugir. Mais uma vez.
Com a ponta dos dedos, tocou o guardanapo que havia levado consigo para casa, depois do baile ao qual ela e Ed haviam comparecido com Matt e Carolyn. Matt havia feito alguns rabiscos no guardanapo pouco antes de tir-la para danar. Sabia que era tolice sentimental guardar aquilo, mas no se importava. Em uma ou duas raras, ocasies, Matt havia sido gentil com ela, e aquele 1 guardanapo rabiscado por ele servia como lembrana de uma dessas ocasies. Era bom poder  manter algo que a lembrasse de como teria sido se houvesse surgido um sentimento mais intenso entre eles. Pensando nisso, pelo menos no se concentrava no lado mais amargo da vida.
Deixando o casaco sobre uma cadeira, olhou em torno de si, para se certificar de que no havia esquecido nada. No teria tempo para verificar isso pela manh. O nibus partiria s seis horas, com ou sem ela.

Com um suspiro, deu uma ltima olhada pelo apartamento, tentando se animar com o fato de que pelo menos poderia contar com o apoio de algumas pessoas em San Antonio.
Ed levantou a vista assim que Matt apareceu de repente em seu escritrio e parou de repente, ao ver a mesa de Leslie vazia. Ento continuou no mesmo lugar, como se no estivesse acreditando no que estava vendo.
Com um suspiro, Ed ficou de p e se aproximou dele. Tornou-se tenso ao notar que Matt ficara visivelmente aborrecido.
 Tudo bem, ela j partiu. Desculpou-se pelo transtorno que causou e disse que...
 Partiu?  Matt pareceu atnito.

Ed franziu o cenho, hesitante.
 Sim. Ela disse que iria lhe poupar do trabalho do despedi-la.
Matt passou a mo pelos cabelos, parecendo atordoado. Ento enfiou a outra mo no bolso e continuou olhando para a mesa de Leslie, como que esperando que ela pudesse se materializar ali de repente.
Por fim, ele se voltou para Ed. Ficou olhando para o primo durante algum tempo, parecendo no reconhec-lo por um instante.
 Para onde Leslie foi?
 Ela no me disse  respondeu Ed, com relutncia.
Matt estreitou o olhar. Olhou mais uma vez para a mesa de Leslie e apertou os lbios. De sbito, virou-se de costas para a mesa e respirou fundo, antes de resmungar algumas palavras inaudveis.
 Eu no disse que ela podia partir!  bradou ele, por fim.
Ed fitou-o nos olhos, mas no foi fcil sustentar aquele olhar bravio.
 Oua, Matt...
 No me venha com essa histria de Oua, Matt!  ele vociferou.
Manteve os punhos cerrados, como se, de fato, estivesse se contendo para no cometer uma agresso. Ed deu dois passos para trs.
Matt viu duas secretrias de p no corredor, tentando identificar qual era a fonte de toda aquela fria
 Voltem para o trabalho!  mandou Matt. As duas praticamente correram de volta para suas salas. Ed sentiu vontade de fazer o mesmo, mas permaneceu no mesmo lugar.

 Matt...
Porm, Matt saiu andando pelo corredor antes que ele pudesse terminar a frase. Ento Ed decidiu fazer a nica coisa que podia naquele momento: ligar para Leslie e avis-la. Estava to tenso que s conseguiu se lembrar do nmero do telefone dela depois de alguns segundos.
 Matt est indo ao seu encontro  disse a ela.  Saia j da.
 E por que eu faria isso?
 Nunca o vi to furioso, Leslie. No sei explicar, mas Matt pareceu ficar meio fora de si quando eu disse a ele que voc havia ido embora.
 Eu ficarei bem, Ed. No se preocupe. Matt no pode fazer nada contra mim.
 Leslie, por favor.
Naquele momento, ela ouviu o motor de um carro se aproximando.
 Tente ficar calmo  disse ao amigo e desligou, apesar de Ed ainda estar falando do outro lado da linha.
Devagar, ela foi at a porta e abriu-a exatamente no momento em que Matt havia acabado de levantar a mo para bater. Os dois se entreolharam por um momento, antes de Leslie ficar de lado para que ele pudesse entrar.
Matt entrou e fechou a porta atrs de si com uma delicadeza visivelmente controlada. Ento virou-se para Leslie, que andou devagar at a cadeira onde havia estado sentada, acomodando-se novamente nela.
Em seguida, olhou para Matt, esperando que ele se manifestasse. No tinha nada a perder, afinal, j estava com a bagagem arrumada e quase fora do alcance de Matt. Ele que protestasse se quisesse.
Matt hesitou. Ao se ver diante de Leslie, j no sabia ao certo o que fazer. Com um suspiro, encostou-se na porta e cruzou os braos sobre o peito.
Ela o encarou sem desviar o olhar.
 No precisava ter vindo at aqui  Leslie disse com calma.  J comprei minha passagem e o nibus partir amanh logo cedo.  Ela levantou a mo.  Fique  vontade para verificar se peguei algo no escritrio.
Matt no respondeu, mas sua respirao se tornou alterada. Aos poucos, o silncio de Matt foi deixando-a tensa, apreensiva. Ajeitou-se na cadeira, sem conseguir disfarar a expresso de dor quando o movimento afetou sua perna.
 Por que veio at aqui?  perguntou a ele, impaciente com o silncio.  O que mais quer de mim? Um pedido de desculpas?
 Desculpas? Pelo amor de Deus, Leslie!
Matt pareceu ofendido em ouvir aquilo. Pela primeira vez, ele saiu de onde estava e atravessou a sala, sentando-se em uma cadeira prxima  dela. Observou Leslie durante algum tempo, j sem nenhum sinal de repreenso no olhar.
Leslie segurou os braos da cadeira com fora.
 Voc sabe, no ?
 Sim  Matt respondeu.
Ela sentiu como se todo seu corpo houvesse se contrado. Viu um pssaro passar voando pelo lado de fora da janela diante da qual Matt se encontrava, e desejou poder fazer seus problemas voarem para longe dali.
 De certa forma, estou aliviada por isso disse a ele.  Estou to cansada de... fugir.
Matt enrijeceu o maxilar.
 Nunca mais ter de fugir  disse a ela.  No sofrer mais nenhum tipo de perseguio por causa disso.
Leslie olhou para ele no mesmo instante. No tinha certeza de haver escutado direito.
 Por que no est comemorando?  perguntou a ele.  Afinal, estava certo a meu respeito durante todo tempo, no? Sou uma oportunista que vive provocando os homens.
 No! Claro que no.
Matt tentou encontrar palavras, mas no conseguiu. O sentimento de culpa o estava matando. Ao fitar Leslie, distinguiu anos de tormento e de autopunio. Sentiu vontade de consol-la de algua maneira.
 Cada um interpretou o que aconteceu comigo  sua maneira  falou ela, em um tom pesaroso.
 Um dos tablides mais famosos at entrevistou dois psiquiatras que disseram que eu havia me vingado da minha me devido  minha infncia. Um outro disse que era uma ninfomanaca latente...
 Malditos  resmungou Matt.
Leslie manteve a vista baixa, sem coragem de encar-lo.
 Pensei que estivesse apaixonada por ele  continuou ela, como se mesmo depois de tantos anos ainda no acreditasse no que havia acontetido.  Eu no tinha a mnima idia de como ele era. Ele zombou do meu corpo. Ele e os amigos. Trataram-me como se eu fosse uma qualquer, faendo comentrios grosseiros e humilhantes...
Ela se interrompeu. Naquele momento, se ela houvesse olhado para o rosto de Matt, teria se deparado com uma expresso que a deixaria apreensiva. Ele parecia furioso e transtornado ao mesmo tempo.
 Mike e os outros trs disputaram no jogo de cartas quem iria me possuir primeiro, e Mike venceu o jogo. Naquele momento, eu senti vontade de morrer. Implorei a ele para que no fizesse aquilo, mas ele riu com sadismo e mandou que os amigos me segurassem enquanto ele...
Matt emitiu uma espcie de rugido que a fez olhar para ele. Aps um instante, ela continuou:
 Mas minha me apareceu antes que ele tivesse tempo de...  Leslie engoliu em seco.  De comear. Ela ficou to furiosa que perdeu o controle completamente. Sem hesitar, pegou o revlver que Mike mantinha em uma gaveta e atirou nele. A bala o atravessou e se alojou na minha perna  murmurou ela, torturada pela lembrana dolorosa.  Vi a expresso dele quando a bala o atingiu por trs e vi, literalmente, a vida se esvair dele.  Ela fechou os olhos.  Minha me continuou atirando at um dos homens tirar o revlver da mo dela. Ento todos fugiram e nos abandonaram naquela situao. Um vizinho que havia escutado o tumulto chamou uma ambulncia e ligou para a polcia. Lembro-me que um dos policiais pegou um lenol no quarto e me cobriu com ele. Eles foram todos to... gentis comigo  acrescentou ela, com os olhos marejados de lgrimas..
Matt passou a mo por entre os cabelos. Mal estava suportando ouvir aquilo.
 Os tablides manipularam a notcia, dando a impresso de que eu havia provocado tudo aquilo
 Leslie prosseguiu, em seu tom angustiado.  At hoje no consigo entender o que os levou a deduzir que uma garota com dezessete anos desejaria ser violentada por quatro homens drogados. Eu pensava estar apaixonada por Mike, mas nunca fizera nada para lev-lo a me tratar daquela maneira.
Matt no conseguia encar-la. No ainda.
Pessoas muito drogadas no vem o que esto fazendo  disse ele, por entre os dentes.
 E dificil acreditar nisso  afirmou Leslie.
 O efeito  desastroso, pode acreditar  confirmou Matt. Ento, finalmente levantou a vista para ela.  Sente-se mais aliviada por haver compartilhado seu segredo?
Ela assentiu. Ento desviou o olhar para a janela.
 Essa histria  srdida demais para ser compartilhada  falou ela.  Talvez agora voc entenda por que eu no suporto ser tocada por nenhum homem. Ed sabe o que aconteceu comigo, por isso nunca me aproximou demais. Mas voc...  Ela hesitou.
 Voc me deixou assustada pela maneira como me tratou desde que nos conhecemos.
Matt olhou-a de modo compreensivo, ciente de que realmente havia sido duro com ela. A maneira como a tratara e algumas coisas que dissera com certeza haviam trazido as terrveis lembranas de Leslie  tona.

Lamento no ter sabido antes  disse a ela. Eu teria agido de maneira diferente.
No o culpo por no haver confiado em mim. Afinal, no tinha idia de quem eu era.
O olhar dele se suavizou.
Eu poderia ter sido mais gentil. O problema estava bem debaixo do meu nariz e eu no consugui enxerg-lo. Eu deveria ter deduzido que havia algum problema mais srio pela maneira como Voc reagia quando eu me aproximava. Eu no vi porque no quis ver. Acho que estava me vingando de alguma maneira  ele sorriu com amargura , por voc no haver se atirado nos meus braos desde o incio.
Leslie passou as mos pela parte externa dos hraos. No estava frio na sala, mas sentira um sbito arrepio.
 Nunca falou sobre isso, no ?  perguntou Matt, aps um momento de silncio.
Contei somente a Ed, pouco depois do incidente. Ele tem sido meu melhor amigo durante todo esse tempo. Quando algumas pessoas de Houston comearam a falar sobre fazer um filme baseado na minha histria, entrei em pnico. Ed me ofereceu uma alternativa para sair de l, e eu aceitei. Estava muito assustada com tudo aquilo  murmurou, em um fio de voz.  Por isso, achei que ficaria mais segura vindo para c.
 Segura  repetiu Matt, com ironia, aproximando-se da janela.
 O reprter...  Leslie hesitou.  Ele lhe contou a histria, no contou?
Matt continuou em silncio por alguns segundos.

 Sim  disse, por fim.  Ele me mostrou os recortes de jornal.
Leslie imaginou quais deveriam ter sido os re cortes. Um deles a mostrava sobre uma maca, toda coberta de sangue. Outro exibia a imagem dantesca de Mike morto no cho do apartamento e a ltima provavelmente devia ter sido aquela que mostrava sua me em estado de choque, sendo conduzida at a viatura da polcia.

 O reprter me disse que estava trabalhando com algumas pessoas em Hollywood, e que elas estavam interessadas em fazer o filme  continuou Matt.  Ele chegou a falar com sua me, mas, pelo visto, ela teve um enfarte depois da visita dele. Porm, nem mesmo isso o deteve. Ele saiu  sua procura, conseguiu localiz-la aqui na cidade e estava querendo entrevist-la.  Matt olhou para ela.  Ele achou que voc aceitaria cooperar se recebesse uma porcentagem da renda do filme.
Leslie sorriu com ar pesaroso.
 Sim, eu sei  falou Matt.  Sei que no  interesseira. Essa  uma das poucas coisas que aprendi a seu respeito desde que chegou  cidade.
 Pelo menos encontrou em mim uma caracterstica que o agrada.
 H muitas coisas que aprecio em voc, Leslie. O problema  que tive algumas decepes srias com mulheres.
 Ed me contou.
 Engraado, mas nunca consegui aceitar a atitude de minha me at conhecer voc. No tem idia de quanto me ajudou, Leslie. E, ainda assim, agi como um desastrado, passando por cima de seus sentimentos.
Ela o fitou por um instante, pensando pela milsima vez em quanto Matt era atraente. Sentia o corao acelerar quando ele a olhava daquele modo penetrante.
 Por que me tratou daquela maneira, quando nos conhecemos?  Leslie perguntou.
Matt enfiou uma mo no bolso.
 Eu quis t-la para mim  disse simplesmente.
Leslie conteve o flego, surpresa.
 Sei que voc no deve aceitar isso muito bem depois do que lhe aconteceu  continuou Matt.  E talvez isso torne ainda mais irnico o fato de minha posio e meu dinheiro no serem capazes de me dar aquilo que eu mais quero na vida.
 No sei se sou capaz de dormir com algum  confessou Leslie.  No suporto nem mesmo pensar nisso.
Matt fitou-a com ar compreensivo.
 Mas gostou de me beijar  lembrou a ela.
 Sim  Leslie admitiu.
 E de ser tocada por mim  acrescentou ele.
Ela abaixou a vista.
 Sim  anuiu.  No incio.
Um sorriso se insinuou nos lbios dele. Talvez ainda houvesse uma esperana.
 Fui procurar aquele reprter em Houston e posso garantir que ele no voltar a aborrec-la. Tambm fui visitar sua me.
 No!  Leslie se sobressaltou. No esperava ouvir aquilo.
Surpreso, Matt sentou-se diante dela.


 Desculpe-me, Leslie. No pensei que isso iria afet-la tanto assim.  Unindo as mos e apoiando os braos sobre os joelhos, suspirou.  H tantas coisas que eu quero lhe dizer. Mas no encontro as palavras certas...
Leslie no disse nada, mas sentiu o poder do olhar de Matt sobre si.
 Se eu soubesse sobre seu passado... Ela olhou-o no mesmo instante.
 Eu entendo  falou.  No simpatizou comigo e pronto.  Ela sorriu.  Tudo bem, porque eu tambm no simpatizei com voc. De qualquer maneira, no havia como voc saber. Vim para c para me esconder do passado, e no para falar dele. Por isso, agora terei de ir para outro lugar.
Matt resmungou algo incompreensvel.
 No v embora, Leslie. Est segura em Jacobsville. Nenhum reprter vir procur-la, eu garanto. E prometo que ningum ir toc-la enquanto voc estiver na cidade. Se for para outro lugar, no poderei proteg-la  acrescentou ele, aflito.
Oh, que timo, pensou Leslie com ironia. A ltima coisa que desejava naquele momento era a piedade de Matt. Por certo, ele deixaria de desprez-la e passaria a querer proteg-la obsessivamente. Bem, pois ele que fosse esquecendo aquela histria.
 No preciso de sua proteo, Matt. Vou partir amanh cedo. Agora, se no se importa, eu gostaria que fosse embora.
Esse foi o primeiro sinal de resistncia que Leslie demonstrara desde que ele chegara. Ela no estava mais agindo como uma vtima. O tom dela era o de algum realmente independente. Pelo visto, ela j estava conseguindo se curar, ao menos em parte, do trauma.
Animado por aquela demonstrao de independncia por parte dela, arqueou as sobrancelhas, com um brilho diferente no olhar.
 E se eu no quiser ir?
Leslie hesitou.
 O que est querendo dizer?
 O que pretende fazer se eu no for embora?  indagou Matt, contendo o riso.
Leslie pensou por um momento.
 Ligarei para Ed.
Ele olhou para o relgio.
 Karla deve estar servindo caf para ele a essa hora. No acha que seria maldade interromper o descanso dele?
Ela se ajeitou na cadeira. Pela primeira vez, desde que chegara, Matt sorriu.
 No tem mais nada a dizer?  perguntou a Leslie.
Ela estreitou o olhar. No sabia o que dizer ou o que fazer. A atitude de Matt fora completamente inesperada.
Matt observou o delicado vestido azul que ela estava usando. Os ps descalos a deixavam com um encantador ar de menina.
 Gostei do seu vestido  disse a ela.  E tambm gosto da cor de seus cabelos.
Leslie olhou para ele com ar de espanto. De sbito, algo lhe ocorreu em pensamento.
 Ei, mas se voc no veio at aqui para se certificar de que eu iria mesmo partir, ento por que veio?
Um sorriso se insinuou nos lbios dele.

 Eu estava imaginando quando voc iria me perguntar isso.
Ele se inclinou para frente no momento em que ouviram o motor de um carro do lado de fora da casa. 
  Ed afirmou Leslie no mesmo instante.
Matt sorriu.
 Aposto que ele veio salv-la.
Leslie continuou sria.
 Ele deve estar preocupado comigo.
Matt se dirigiu  porta.
 Garanto que ele no  o nico.  Dizendo isso, ele abriu a porta antes mesmo que Ed pudesse bater nela.  Ela est s e salva  disse ao primo, ficando de lado para ele entrar.
Ed mostrou-se preocupado, confuso e evidentemente surpreso ao notar que Leslie no estava chorando.
 Voc est bem?  perguntou a ela. Leslie asentiu.
Ed olhou dela para Matt, com ar de curiosidade, mas no disse nada.
 Pretende ficar na cidade agora?  Matt perguntou a Leslie.  Ainda tem seu emprego, se o quiser. Mas sem presso. A deciso final  sua.
Leslie no tinha certeza do que fazer. No ntimo, no queria sair de Jacobsville e ir morar em um lugar cheio de pessoas desconhecidas.
 Fique  pediu Ed, com gentileza.
Ela forou um sorriso.
 Acho que vou aceitar, pelo menos por algum tempo.
Matt no demonstrou o alvio que sentiu ao ouvir aquilo. De certa forma, ficou satisfeito por Ed haver dito aquilo, livrando-o de ter de diz-lo a Leslie.

 No vai se arrepender  Ed prometeu, recebendo um sorriso em resposta.
O belo sorriso pegou Matt desprevenido. Sentiu cime e ficou furioso consigo mesmo por estar enciumado. Passou a mo nos cabelos, olhando para ambos com um indisfarvel ar de frustrao.
 Vou voltar para o trabalho  anunciou, de repente.  Quando terminarem a brincadeira, aconselho que faam o mesmo, para fazerem jus ao que esto ganhando na companhia.
Ento passou pela porta, resmungando consigo mesmo. Em seguida, entrou no Jaguar e partiu.
Ed e Leslie se entreolharam.
 Ele foi visitar minha me  Leslie foi a primeira a quebrar o silncio.
E...
 Ele no falou muito a respeito, exceto... Exceto que nenhum reprter voltaria a me aborrecer.
 E quanto a Carolyn?  indagou Ed.
 Ele no disse uma palavra a respeito dela  respondeu Leslie, lembrando-se que Ed havia dito que Carolyn viajara com Matt para Houston.
Forando um sorriso, acrescentou:  Aposto que ela no vai perder tempo em espalhar a notcia a meu respeito por toda a cidade.
 No quero nem pensar no que Matt far se ela fizer isso. Se ele pediu para voc ficar,  porque pretende proteg-la.
 Provavelmente sim, mas isso no deixa de ser espantoso, levando-se em conta a maneira como ele estava me tratando antes de ir a Houston. Sinceramente, no sei o que est acontecendo. Matt est muito estranho.
 Nunca o ouvi se desculpar com algum com todas as palavras  disse Ed.  Mas, geralmente, ele encontra uma maneira de se redimir de uma maneira indireta, quando acha que agiu errado.
 Ento, talvez seja isso que ele esteja fazendo no meu caso  concluiu Leslie.
 Sim,  o que parece  anuiu Ed, sorrindo para ela.  E o que acha de tudo isso? Ainda tem um emprego, se quiser, e, pelo visto, Matt a tirou da lista negra dele. Est segura aqui. Quer ficar?
Leslie se tornou pensativa por um instante, considerando o estranho comportamento de Matt o fato de ela estar segura em Jacobsville. Sentir que tinha a chance de ficar em paz parecia um sonho depois de seis anos de fuga e desespero.
 Sim  respondeu finalmente.  Sim, eu quero ficar.
 Ento sugiro que calce os sapatos e que pegue uma blusa, porque vou lev-la de volta para
escritrio enquanto ainda temos nossos empregos.
 Ed, no posso ir trabalhar vestida assim.
 Por que no?
 Este vestido no  apropriado para ser usado no trabalho  explicou ela, ficando de p.
 Foi Matt quem disse isso?  Ed questionou.
 Digamos que prefiro no dar a ele a chance de dizer isso. De agora em diante, serei um exemplo de conservadorismo no trabalho. Matt no ter o mnimo motivo para me repreender.
 Como quiser, ento.
Com um sorriso, Leslie foi para o quarto trocar de roupa e se preparar para a nova etapa de sua vida em Jacobsville.



CAPTULO X



Durante os primeiros dias de seu retorno ao trabalho, Leslie sentia-se pouco  vontade sempre que via Matt se aproximar. De fato, duas outras secretrias compartilhavam a mesma apreenso, sendo que uma delas chegara at a rasgar a saia ao pular uma cerca baixa do jardim ao lado do escritrio, na tentativa de fugir dele.
Quando Karla Smith lhe contou a histria, Leslie comeou a rir como havia muito tempo que no ria. Matt entrou na sala de Leslie bem na hora em que ela ainda estava rindo alto, e pareceu aturdido ao presenciar aquela reao por parte dela.
Leslie levantou a vista para ele e fez um visvel esforo para parar de rir.
 O que  to engraado? perguntou ele, em um tom gentil.
Karla, que se encontrava de costas para ele, sobressaltou-se ao reconhecer a voz dele e saiu correndo para o toalete, deixando Leslie sozinha para lidar com a situao.
 Voc disse algo ameaador s secretrias por esses dias?  ela perguntou, sem hesitar.
Matt respirou fundo.

 Talvez eu tenha dito uma ou duas pala que no devia  foi tudo que ele admitiu.
 Bem, pois Daisy Joiner pulou uma cerca jardim para fugir de voc, ainda ha pouco E um pedao da saia dela ainda deve estar l, pendurado na cerca.
Dizendo isso, comeou a rir novamente, sentando-se na cadeira.
Matt nunca vira Leslie to animada. E sentiu-se contente com isso. Mas no iria admitir isso para ela, claro.
Fitando-a com ar de divertimento, tirou um mao de cigarros do bolso da camisa.
 Bando de covardes  disse contendo o riso, enquanto tirava um cigarro do mao.  Precisamos de secretrias com mais sangue nas veias!  disse ele, aumentando o tom de voz e acionando o isqueiro.
No mesmo instante, dois jatos de gua atingiram o isqueiro, vindos de diferentes direes.
 O que diabos  isso?  bradou Matt, ouvindo o riso da outra secretria desaparecer pelo corredor.
 O que estava mesmo dizendo sobre secretrias com sangue nas veias?  perguntou Leslie, com um brilho de zombaria no olhar.
Matt olhou para o isqueiro e o cigarro molhados e jogou-os no lixo, com um gesto indignado.
 Desisto  resmungou ele.
O brilho de divertimento continuou nos olhos de Leslie.
 No era esse o objetivo?  Ela arqueou uma sobrancelha.  Faze-lo desistir de fumar
Matt no conteve o riso.

Acho que sim.  Ento olhou-a intensamente  Voltou a se adaptar bem ao trabalho. Est tendo tudo que precisa?
 Sim.
Ele hesitou, como se quisesse dizer algo mais, mas no soubesse como comear. Os olhos negros fitaram os detalhes do rosto dela.
 Devo estar com uma aparncia diferente  disse ela, sentindo-se pouco  vontade sob aquele olhar intenso.
O semblante de Matt no revelou nada do que ele estava pensando. Por fim, sorriu e falou:
Gosto do que estou vendo.
Leslie sentiu o rosto esquentar.
 Precisa falar com Ed?  indagou, mudando de assunto.
Ele deu de ombros.
 No  nada urgente  respondeu ele.  Tive uma reunio com o comit de planejamento e de zoneamento ontem  noite. Pensei que ele iria gostar de saber como foi a reunio.
 Posso avis-lo pelo interfone.
Matt assentiu, ainda sorrindo.
 Ento faa isso  pediu.
Leslie obedeceu. Ed saiu de sua sala pouco depois, ainda incerto a respeito das reaes de Matt.
 Podemos conversar?  Matt perguntou a ele.
 Claro. Vamos para minha sala.
Ed ficou de lado, deixando espao para o primo passar. Ento lanou um olhar inquiridor para Leslie, que lhe respondeu apenas com um sorriso.
Ele assentiu e fechou a porta. Leslie suspirou, voltando ao trabalho. Tambm no estava entendendo direito a atitude de Matt em relao a ela. J no havia nele aquela atitude predatria do incio. Desde que ele voltara de Houston e do encontro no apartamento dela, ele se tornara amigvel, gentil e at mesmo um pouco afetuoso. Da mesma maneira, no tentara mais se aproximar muito dela. Era como se ele houvesse finalmente tomado conscincia de que qualquer contato fsico a perturbava e, por isso, houvesse decidido agir apenas como um irmo mais velho.
Leslie concluiu que deveria se sentir grata por isso. Afinal, Matt havia deixado bem claro que a palavra casamento no constava em seu vocabulrio. Um romance, ento, estava fora de questo depois que ele ficara sabendo sobre seu passado. Assim sendo, afeio era a nica coisa que Matt tinha para lhe oferecer. Isso no deixava de ser um tanto desapontador, ainda mais depois de saber como era ser tocada por Matt. Gostaria de poder dizer isso a ele. O beijo de Matt fora o nico gesto carinhoso que ela recebera de um homem, e sentia-se curiosa a respeito desse lado dos relacionamentos. No com qualquer pessoa, claro. Apenas com Matt.
Parou as mos sobre o teclado ao ouvir passos se aproximando. A porta se abriu em seguida e Carolyn entrou, trajando um vestido bege, reto, que tornava sua silhueta ainda mais elegante.
 Ouvi dizer que Matt deixou que voc voltasse a trabalhar aqui. No pude acreditar que ele houvesse feito isso, depois do que aquele reprter contou a ele  disse a loira, em um tom venenoso.  Seu disfarce no adiantou muito, minha cara. 

Dizendo isso, ela abriu a bolsa e pegou um recorte de jornal, colocando-o sobre a mesa de Leslie. Tratava-se de uma matria feita por um dos tablides sensacionalistas que mostrava a seguinte manchete: Adolescente e Amante Baleados por Me Enciumada.
Leslie continuou olhando para a foto no jornal, pensando em como o passado sempre encontrava novas maneiras de persegui-la. Ento suspirou alto. Pelo visto, nunca se livraria daquilo.
 No tem nada a dizer?  perguntou Carolyn.
Leslie levantou a vista para ela.
 Minha me est na priso. Minha vida foi destruda. E o homem responsvel por tudo isso era um traficante de drogas. No tem idia do que  isso, no ? Sempre foi rica e protegida. E querer demais que voc tenha capacidade de entender o trauma sofrido por uma garota inocente, de dezessete anos, que foi mantida nua diante de quatro homens drogados e que quase foi estuprada por eles em sua prpria casa.
Carolyn empalideceu de repente. Ela hesitou, ento franziu o cenho. Desviou a vista para o tablide e pegou-o no momento em que a porta do escritrio de Ed foi aberta, dando passagem a Matt.
Ao ver o recorte de jornal na mo de Carolyn, a expresso do rosto dele se tornou perigosamente ameaadora.
Carolyn deu um passo atrs, amassou o papel e jogou-o no lixo.
 No precisa dizer nada  disse ela, parecendo chocada.  Tambm no estou muito orgulhosa de mim mesma no momento.  Afastou-se de Leslie sem olhar para ela.  Vou passar alguns dias na Europa  avisou, encaminhando-se para o corredor.  Conversaremos quando eu voltar, Matt.
 E melhor no esperar isso  respondeu ele em um tom frio.
Carolyn fez um movimento estranho, mas continuou andando sem olhar para trs.
Matt pegou o papel que ela havia jogado no lixo e o entregou a Ed.
 Queime isso.
 Com prazer  respondeu Ed, pegando o papel amassado.
Lanando um olhar gentil para Leslie, ele voltou para o escritrio e fechou a porta atrs de si.
 Pensei que ela tivesse vindo criar alguma confuso  Leslie disse a Matt, surpresa com a reao que Carolyn havia tido.
 Ela s sabia o que eu balbuciei na noite em que fiquei bbado  afirmou ele.  No contei toda a histria a ela. Mas Carolyn no  to m quanto parece. Eu a conheo h muito tempo e gosto dela. O problema  que ps na cabea que eu pretendia me casar com ela, e passou a v-la como uma rival. Mas eu esclareci tudo. Ou, pelo  menos, pensei que houvesse esclarecido.
 Obrigada, Matt.
 Ela voltar da Europa completamente diferente  prosseguiu ele.  Tenho certeza de que vai lhe pedir desculpas.
 Isso no  necessrio. Ningum conhecia a histria verdadeira. Fiquei abalada demais para cont-la.

Matt enfiou as mos nos bolsos e observou-a por um momento.
 Se eu tivesse visto a tempo, teria evitado que voc passasse por isso.
 Obrigada pela preocupao, Matt. Mas no tem como proibir as pessoas de pensar o que elas quiserem. Tudo bem, eu s preciso me acostumar com isso.
 De jeito nenhum!  Matt se impacientou.
 A prxima pessoa que aparecer aqui com alguma maldita pgina de tablide ter de se entender comigo!
Um sorriso curvou os lbios de Leslie.
 Obrigada, mas no precisa se preocupar. Eu sei me cuidar.
 A julgar pela expresso de Carolyn, acho que sabe mesmo  anuiu ele, com um sorriso.
 No ntimo, tambm acho que ela no seja uma pessoa ruim. Estava apenas com cime, o que no deixou de parecer infantil, j que todo mundo sabe que voc no tem nenhum interesse por mim.
Seguiu-se um momento de silncio.
 E o que a faz pensar isso?  Matt perguntou.
 No sou como Camlyn  declarou Leslie.  11a  bonita, rica e pertence a uma famlia tradicional.
Matt deu um passo  frente, fazendo-a levantar o rosto para continuar encarando-o. De sbito, porm, ele voltou a se afastar.
 No est mais com medo?  Ele arqueou uma sobrancelha.
 De voc?  Ela sorriu com gentileza.  Claro
que no.
Matt pareceu surpreso com a resposta. Por fim, os lbios dele se curvaram em um sorriso. Ento sem que Leslie esperasse, ele se aproximou e girou a cadeira dela devagar, inclinando at seu rosto ficar a centmetros do dela.
 E bom ouvir isso, srta. Murray  sussurrou ele, mantendo um sorriso charmoso.
Ento se aproximou mais at seus lbios tocarem levemente os dela. Leslie conteve o flego. Quando Matt se afastou, fitou-a nos olhos mais uma vez. E manteve-se assim por algum tempo, enquanto analisava se ela estava ou no com medo. Viu a pulsao na base do pescoo dela e percebeu o ritmo inconstante de sua respirao. Ele a havia afetado, mas aqueles sintomas no eram de medo. Ele conhecia as mulheres suficientemente para perceber isso.
Sorriu com charme, observando cada detalhe do rosto dela.
Tem mais alguma coisa interessante para me dizer?  indagou ele, em um tom sensual.
Leslie hesitou. Matt no estava sendo agressivo, exigente ou irnico. Nada disso. Para sua surpresa, ele parecia estar sendo muito sincero. Conteve o flego mais uma vez quando ele traou o contorno de seus lbios com a ponta do dedo indicador.
 E ento?
Ela sorriu com hesitao. Todas as suas incertezas eram evidentes, mas ela no estava com medo dele. Seu corao batia feito louco, mas no era por medo. E Matt parecia saber disso. Devagar, ele inclinou e beijou-a mais uma vez. Aps alguns segundos, que para Leslie pareceram uma doce eternidade, ele se afastou e olhou-a com curiosidade.

Roando o dedo pelos lbios dela mais uma, disse:
 Fui convidado para uma festa na casa dos Ballenger no prximo ms. Que tal comprar um belo vestido novo e ir comigo?  Roou os lbios na testa de Leslie.  Haver msica latina tocada ao vivo, e poderemos danas um pouco mais.
Leslie mal estava conseguindo ouvi-lo. O toque dos lbios de Matt no a deixava raciocinar direito.
 Isso no est sendo nem um pouco profissional  sussurrou ela.
Matt levantou a cabea e olhou em volta. O escritrio se encontrava vazio e ningum estava passando pelo corredor. Por isso, Matt olhou novamente para ela, arqueando uma sobrancelha.
Leslie sorriu com timidez. Encantado com aquele sorriso, Matt segurou o rosto dela entre as mos e inclinou-se mais uma vez, em busca daqueles lbios rosados. Dessa vez, porm, o beijo no foi sutil, nem tampouco breve.
Mas quando Leslie gemeu baixinho, Matt se afastou no mesmo instante. Ela ainda teve tempo de distinguir um brilho de emoo nos olhos dele, antes de ele se afastar e olh-la com ar solene.
De sbito, uma expresso de culpa surgiu no semblante dele, como se Matt estivesse se lembrando e se culpando pelas vezes em que fora rude com ela.
Ao perceber isso, Leslie franziu o cenho. No tinha nenhuma experincia naquele jogo entre homens e mulheres, e j passara da idade em que aquelas coisas eram aprendidas da maneira mais normal.
 Eu no queria fazer isso  disse ele.  Sinto muito.

 Tudo bem  Leslie respondeu.
Matt exalou um longo suspiro.
 No tem nada a temer agora, Leslie. Espero que saiba disso.
 No estou com medo.
Matt voltou a enfiar uma mo no bolso e, com o movimento, Leslie avistou um ferimento no brao dele.
 Matt, voc se feriu!  surpreendeu-se, tocando com cuidado os hematomas no brao dele.
 Vai melhorar  disse ele.  Os dele tambm acabaro melhorando.
 Ele, quem?
 O reprter idiota que veio at aqui  sua procura.  Ele enrijeceu o maxilar.  Vasculhei Houston, procurando por ele. E quando finalmente o encontrei, mandei-o de volta para o chefe dele com os devidos avisos para se manter distante, Garanto que voc no ter mais problemas a esse respeito.
 Matt, mas ele pode process-lo...
 Se ele fizer isso, ter de se entender com meus advogados  declarou Matt, interrompendo-a.  E provvel que acabe respondendo processos at o fim da vida. Ele que se atreva a me desafiar!
Leslie no sabia se ria ou se chorava. Matt parecia transfigurado pela fria.
 Mas sabe o que mais me incomoda?  continuou ele.  Que aquilo que lhe fez no foi to condenvel quanto o que eu lhe fiz. Acho que nunca vou me perdoar por haver agido daquela maneira, condenando-a antes mesmo de conhec-la.
Leslie se surpreendeu ao ouvir aquilo. Abaixando a vista, tamborilou os dedos sobre a base do teclado, sem olhar para Matt.
 Eu pensei... que voc iria me culpar quando conhecesse toda a histria confessou ela.
 Culp-la pelo qu?
Leslie deu de ombros.
 Os jornais declararam que a culpa havia sido minha, ento...
 Leslie, claro que eu no pensaria isso.  Matt se ajoelhou ao lado dela e a fez olhar para ele.  Sua me me contou toda a histria. Chorou feito uma criana enquanto desabafava.  Tocou o rosto dela com gentileza.  E sabe o que mais ela disse? Que ficaria satisfeita em passar o resto da vida onde est se, em troca, ela recebesse seu perdo pelo que lhe fez.
Os olhos de Leslie se encheram de lgrimas. Tentou enxug-las, mas Matt segurou o rosto dela entre as mos e beijou-a mais uma vez, antes de dizer:
 No chore. Est tudo bem agora, e no deixarei que nada de mal lhe acontea. Prometo.
Leslie no conseguiu mais conter o choro.
 Oh, Matt...  soluou.
 Vem c...
Ele ficou de p e puxou-a delicadamente para si, abraando-a de modo protetor. Ento conduziu-a pelo corredor at a sala dele. Ao v-los se aproximar, a secretria dele abriu a porta e pareceu preocupada ao ver o rosto molhado de Leslie.
 Caf ou conhaque?  ela perguntou a Matt.
 Caf. Mas nos d alguns minutos primeiro, sim? E no passe os telefonemas para mim.

- Sim, senhor.
Ela fechou a porta e Matt sentou-se no sof juntamente com Leslie. Ento, puxou-a para si e manteve o rosto dela junto ao peito, deixando que e chorasse. Entregou um leno a ela, sussurrando palavras de consolo at que o choro amenizasse.
 Vou mandar trocar os mveis desta sala - disse ele.  Talvez as cortinas tambm.
 Por qu?  Leslie se surpreendeu.
 Esse ambiente deve lhe trazer lembranas ruins a meu respeito. Para mim, traz.
Leslie olhou para ele com uma expresso sincera, os olhos ainda vermelhos do choro. Matt traou o contorno do queixo dela com o dedo e sorriu.
 Voc j passou momentos difceis na vida no?  murmurou ele.  Ajudaria se eu dissesse que um homem normal no trataria uma mulher, principalmente uma mulher inocente, da maneira como aqueles animais a trataram?
 Eu sei  respondeu ela.  O problema  que a mida me fez parecer uma garota de programa, em vez de uma adolescente que foi vtima de uma violncia. No sou uma qualquer, mas foi isso o que as pessoas acabaram pensando de mim.  Por isso, a nica sada que encontrei foi fugir e me esconder. Se no fosse Ed e o pai dele, e minha amiga Jssica, no sei o que teria sido de mim. No tenho famlia, como voc sabe.
 Ainda tem sua me  lembrou Matt.  Ela gostaria de v-la, Leslie. Se voc quiser, posso lev-la at l.
Ela hesitou.

 Voc sabe que ela est presa sob a acusao de assassinato?
Sim, eu sei.
 Nesse assunto, VOC tambm  bastante comentado  observou ela.
Matt suspirou com impacincia.
 Leslie, acha mesmo que eu me incomodo com fofocas a meu respeito? Pelo contrrio. Enquanto essa gente est falando de mim, pelo menos esto deixando outras pessoas em paz.  Ele pegou o leno e enxugou o rosto dela.  Mas, s para citar, a maioria dos reprteres se mantm longe de mim.  Ele apertou os lbios.  E posso gartintir que h um em Houston que vai sair correndo se algum dia me vir novamente.
Mais uma vez, Leslie se surpreendeu com o fato de Matt haver chegado to longe para defend-la. Levada pela admirao que sentia, continuou olhando-o sem dizer nada.
Matt sentiu seu corpo reagir sob aquele olhar intenso. Porm, quando tentou se aproximar mais intimamente de Leslie, ela se afastou feito um gatinho assustado.
Tentando contornar a situao, ele ficou de p e se manteve de costas para ela ao perguntar:
 Aceita um caf?
Leslie fitou-o com ar de curiosidade.
 Eu... Sim, obrigada.
Ele foi at o interfone e pediu o caf  secretria. Ento andou at a janela e se manteve ali enquanto Edna colocava a bandeja sobre a mesinha.
 Obrigada, Edna
 De nada, chefe.


Aproveitando o fato de Matt estar de costas para elas, a secretria deu uma piscadela para Leslie antes de sorrir e se retirar.
Leslie serviu duas xcaras de caf e olhou para ele. 
 No quer caf?
 Ainda no  respondeu ele, tentando se acalmar.
 O aroma est timo.
 Sim, mas j tive estmulo demais no momento, e no quero adicionar cafena ao problema.
Leslie franziu o cenho. Matt, por sua vez, sentiu o olhar dela sobre suas costas tensas e, com um sorriso inadvertido, virou-se para ela. Para seu espanto, Leslie no notou nada de errado com ele.
Ento sentou-se no sof, balanando a cabea, enquanto aceitava a xcara que ela lhe ofereceu.
 Algum problema?  perguntou ela.
 No, nenhum problema. Exceto o detalhe de que Edna acabou de salv-la e voc nem sequer se deu conta disso.
Leslie observou o brilho de divertimento nos olhos dele ainda sem entender o que ele estava querendo dizer.
 Esquea  falou ele, rindo, antes de tomar, um gole de caf.  Algum dia, quando nos conhecermos melhor, eu lhe contarei os detalhes.
Leslie tambm provou o caf, sorrindo com ar inocente.
 Voc est muito diferente desde que voltou de Houston.
 Acho que tive uma crise de conscincia.  Ele colocou a xcara sobre a mesa, mas continuou a olhar para ela.  No me lembro de alguma vez haver sido to injusto com algum, muito menos com um funcionrio. E difcil aceitar certas coisas que eu disse e fiz a voc.  Ele sorriu consigo, ainda sem encarar Leslie.  Meu orgulho foi ferido quando vi voc deixar Ed se aproximar sendo que vivia me mantendo a distncia, sempre que eu tentava me aproximar de voc. Eu no conseguia entender o motivo disso.  Sorriu com pesar.  Estava acostumado a ver as mulheres lanarem olhares insinuantes para mim, at voc aparecer.  Ele olhou para Leslie.  A nica vez que consegui me aproximar mais de voc foi quando danamos.  Ele estreitou o olhar.  E naquela noite, quando me deixou toc-la.
Leslie lembrou-se da sensao das mos de Matt tocando sua pele e dos lbios dele sobre os seus.
 Foi a primeira vez, no foi?  perguntou Matt, como que lendo os pensamentos dela.
Ela desviou o olhar.
 Sinto muito se fui precipitado naquele momento, Leslie. No sei o que fazer para remediar o que aconteceu. Para recomear...
 Eu tambm no  confessou ela, interrompendo-o.  O que me aconteceu em Houston foi uma experincia horrvel, que me deixou traumas profundos. Acho que mesmo que eu fosse mais velha e mais madura na poca no teria conseguido me recuperar completamente. Depois daquilo, desisti de tentar sair com rapazes porque sempre ligava qualquer toque fsico quela maldita noite. No suportava nem quando um homen me dava um beijo de boa-noite. Geralmente me afastava como se houvesse levado um choque, e eles ficavam achando que eu tinha algum problema srio.  Ela sorriu com amargura.  De certa forma, no deixava de ser verdade.
 Fale-me sobre o mdico.
Leslie hesitou.
 Acho que ele s sabia o que haviam lhe contado, mas fez com que eu me sentisse um lixo.:
 Ela cruzou os braos e se inclinou para frent.
 Ele limpou o ferimento e enfaixou minha perna.
Depois disse que poderia me mandar do hospital para a cadeia em um piscar de olhos.
Matt resmungou algo incompreensvel.
 Eu no fui para a priso, mas minha me foi  Continuou ela.  Minha perna doa insuportavelmente, mas eu no tinha plano de sade e os pais de Jessica eram pessoas simples. No tnhamos como pagar uma cirurgia ortopdica. Fui me consultar com um mdico em uma clnica local que apenas mandou engessar minha perna, achando que o caso no era to grave assim. Ele no fez nenhum exame de raio X por que eu no tinha dinheiro para pag-los.
 Por tudo isso, tem sorte de o dano ainda ter como ser reparado  observou Matt.
 Fiquei mancando quando o ferimento cicatrizou, mas conseguia andar mesmo assim.  Ela suspirou.  Ento ca do cavalo na sua fazenda...
 Aquilo tambm foi terrvel para mim, pode acreditar  afirmou Matt.  Fiquei furioso no apenas por voc se afastar de mim, mas por t-la feito se ferir daquele jeito. Depois, quando danamos, fiquei com mais sentimento de culpa ao me dar conta de que toda aquela movimentao havia lhe causado ainda mais dor.
 Foi uma espcie de dor agradvel.  Leslie sorriu.  Ainda mais por haver levado  cirurgia corretiva. Sinto-me grata quanto a isso.
 S lamento que tudo tenha ocorrido da maneira como ocorreu.  Matt sorriu, observando OS detalhes dos culos que Leslie voltara a usar, como no passado.  Os culos ficam bem em voc. Fazem seus olhos parecerem mais expressivos.
 Parei de usar culos quando um reprter comeou a tentar vender a idia de um filme para televiso baseado na minha histria. Tingi os cabelos, passei a usar lentes de contato e mudei o estilo de me vestir. Jacobsville era minha ultima esperana de no ser encontrada, mas, mesmo assim, decidi manter o disfarce depois de me mudar para c.
 No precisa mais se preocupar com isso  disse Matt. Aps uma breve pausa, acrescentou:
 De qualquer maneira, eu gostaria que meus advogados conversassem com sua me. Eu sei  falou ele, ao v-la adquirir um ar de preocupao.
 Sei que isso significaria trazer lembranas ruins  tona, mas precisamos tentar reduzir a pena dela, ou ento promover um novo julgamento. Houve circunstncias extenuantes. Nem mesmo um bom defensor pblico  to competente quanto um advogado criminal experiente.
 Falou sobre isso com ela?
Matt assentiu.
 Eu tentei, mas ela no quis prosseguir com o assunto. Disse que voc j sofreu demais com tudo isso e que no quer despertar mgoas antigas.

Leslie abaixou a vista.
Tambm no quero despertar antigas mgoa
 disse a ele.  Mas, ao mesmo tempo, detesto
a idia de ver minha me passar o resto da vida
na priso.
 Concordo com voc.  Matt tocou os cabelos dela, que haviam voltado ao tom castanho que lhes era natural.  Sua me  naturalmente loh no ?
 Sim. Meu pai tinha os cabelos castanhos como os meus, e olhos acinzentados tambm. Os de minha me so muito azuis.  Ela sorriu. Eu sempre quis ter olhos como os dela.
 Gosto da cor de seus olhos.  Ele tocou borda dos culos dela.  Com culos e tudo.
Leslie sorriu.
 Voc no tem problema de viso, no ? . perguntou a ele, em um tom descontrado.
Matt riu.
 Acho que tenho problema em ver aquilo que est bem debaixo do meu nariz  respondeu, tocando os lbios dela com a ponta do dedo indicador.
Leslie recuou ligeiramente, sentindo-se apreensiva com o contato. Ao notar a reao dela, Matt afastou a mo e sorriu diante do ar de surpresa dela.
 Nada mais de agresses. Prometo  disse simplesmente
Lesije fitou-o com ar de preocupao.
 Isso significa que no voltar a me beijar?
 Claro que voltarei  respondeu ele, com um sorriso charmoso. Inclinando-se novamente na direo dela, acrescentou:  Mas voc ter de me provocar de agora em diante.
CAPTULO XI



Leslie fitou os olhos negros de Matt, ento sorriu para ele.
 Eu? Provoc-lo?
Os lbios dele se curvaram em um sorriso.
 Sim, por que no? De vez em quando, os homens se cansam de bancar os predadores. Acho que eu ia gostar de v-la me provocar.
Leslie enrubesceu.
 Tudo bem, mas me recuso a ter de lev-lo a jogos de futebol e coisas desse tipo para conquist-lo  falou ela, tentando manter o tom descontrado entre eles.
 Sem problemas.  Matt sorriu.  No me importo de assistir aos jogos pela televiso.  Aps uma breve pausa, ele perguntou:  Est se sentindo melhor agora?
Leslie assentiu.
 Acho que somos capazes de nos acostumar com qualquer coisa, quando isso  necessrio.
Ele suspirou.
 Entendo muito bem disso, pode acreditar. Leslie lembrou-se do triste passado que ele tambm tivera, passando momentos dificeis desde muito jovem.

 Tenho certeza de que sim  disse a ele.
Matt se inclinou para frente, segurando a xcara entre as mos. Ele tinha mos fortes e delicadas ao mesmo tempo, pensou Leslie, admirando-as. No conteve um suspiro, ao se lembrar de como era sentir o toque delas.
 Vamos dar um passo de cada vez  declarou Matt.  Nada de presso nem de extravagncias, est bem? Iremos no seu ritmo.
Leslie sentiu-se relutante. Um passo de cada vez poderia lev-los a qualquer lugar, e no lhe agradava a idia de se arriscar. Matt no era do tipo que se casava e ela no era do tipo que aceitaria ter apenas ma aventura. Perguntou-se
que Matt teria em mente quanto a eles, mas no se sentiu confiante o suficiente no relacionamento para question-lo quanto a isso. Era bom receber aquele tratamento gentil e dedicado por parte dele. Para ela, que nunca recebera muito carinho na vida, aquilo estava se tornando essencial. E, talvez por isso mesmo, perigoso.
Ele olhou para o relgio de pulso e sorriu.
 Eu deveria estar em Fort Worth h uma hora, para uma reunio com alguns acionistas.
 Levantou o olhar para ela.  Veja s o que voc fez comigo. Nem consigo mais pensar direito.
Leslie sorriu com gentileza.
 Ponto para mim.
Matt tambm sorriu, terminando de tomar o caf.
 Se eu me apressar, talvez ainda consiga encontr-los. Antes tarde do que nunca.
Inclinando-se, beijou-a com carinho. Ao se afastar, fitou-a nos olhos de uma maneira que fez Leslie se sentir inusitadamente preenchida.
 Fique longe de problemas enquanto eu estiver fora  avisou ele.
Ela arqueou as sobrancelhas.
 Tentarei, mas no garanto nada. Pareo ter o dom de atrair problemas.
segurou-lhe o queixo com delicadeza, fitando-a com intensidade.
 O que aconteceu no foi sua culpa. E essa
a primeira idia que precisamos corrigir.
Eu me deixei enganar sentimentalmente pela primeira vez na vida  falou ela.  Devo ter dado a impresso de que...
Matt pousou os dedos sobre os lbios dela, interrompendo-a.
 Leslie, que tipo de homem aceitaria at mesmo sinais explcitos vindos de uma adolescente?
Era uma boa pergunta. Uma pergunta que levou Leslie a analisar a situao sob um ponto de vista diferente.
Depois de afastar a mo, Matt olhou para os lbios dela durante algum tempo.
 Pense nisso, Leslie. Tambm acabar levando em conta que pessoas drogadas geralmente no percebem o que esto fazendo. Voc teve o azar
de estar no lugar errado, na hora errada. Ela ajustou os culos.
 Acho que sim.
 Vou passar a noite em Fort Worth, mas poderemos jantar juntos amanh, se voc quiser. Que tal?

Leslie indicou o gesso.
 No consigo me imaginar trajando um vestido com isso.
Matt riu.
 No vejo nenhum problema nisso.
Leslie nunca havia sado para um encontro de verdade antes, exceto pelas vezes em que sara com Ed, que era mais como um irmo do que um namorado para ela.
 Adorarei jantar com voc, se no se importar com esse detalhe afirmou, com um brilho de expectativa no olhar.
 J disse que no me importo.
 Ento est combinado.
 Combinado  repetiu Matt, com outro do seus sorrisos charmosos.
Os dois se entreolharam por algum tempo. Era como se houvesse uma espcie de eletricidade entre eles. Para Leslie, compartilhar aquele tipo de olhar era uma experincia nova e excitante. Quando deu por si, sentiu o rosto esquentar. Matt sorriu com sensualidade, como que deduzindo o que ia na mente dela.
 No agora  disse ele, em um tom de voz profundo, fazendo-a enrubescer ainda mais.
Ento se dirigiu  porta e a abriu.
 Edna, voltarei amanh  anunciou  secretria.
 Sim, senhor.
Matt seguiu pelo corredor, sem olhar para trs. Ento ouviram a porta da frente ser aberta e fechada. Com certo esforo, Leslie andou at a porta do escritrio.

 Quer que eu retire a bandeja? perguntou a Edna.
 No, querida, claro que no. Como est sua perna?
 Estranha  respondeu Leslie, olhando para a prpria perna.  Mas ser bom no voltar a mancar  acrescentou, esperanosa.  Sou grata ao sr. Caldwell por isso.
 Ele  um bom homem  declarou a secretria, com um sorriso. E um bom chefe tambm. Tem l seus dias de mau humor, mas quem no os tem?
 Sim,  verdade.
Devagar, Leslie voltou para sua sala. Ed saiu da sala dele assim que a ouviu mexer em alguns papis, do lado de fora. Ao v-la, arqueou as sobrancelhas.
 Est se sentindo melhor?  perguntou ele.
Leslie assentiu.
 Ando muito sensvel ultimamente. No sei por qu.
 Ningum precisa necessariamente de um motivo para sso  falou Ed, sorrindo com gentileza.
 Mudou de idia quanto a Matt?
Ela balanou a cabea afirmativamente.
 Ele no  o que eu pensei no inciO.
 Acho que ele tambm mudou de opinio a seu respeito.  Aps uma pausa, ele acrescentou:
 Ag&ra preciso que anote algumas coisas para mim. Pronta para uma dose de ditado?
Leslie sorriu.
 Pode apostar que sim.

Matt chegou tarde na manh seguinte e foi direto  sala de Leslie.
 Ligue para Karla Smith, e pergunte se ela pode substitu-la  disse ele, inesperadamente.
 Ns dois vamos tirar a tarde de folga.
 Vamos?  Leslie sentiu-se tomada por uma agradvel onda de surpresa.  E o que faremos?
 Boa pergunta  respondeu Matt, rindo. Em seguida, apertou o interfone e avisou a Ed que iria roubar a secretria dele pelo resto da tarde. Enquanto isso, Leslie telefonou para Karla, na outra sala, e pediu a ela que fosse substitu-la.
No demorou muito para tudo ser providenciado. Minutos depois, Leslie se viu sentada no Jaguar de Matt, enquanto ele conduzia o veculo em direo  estrada.
 Para onde estamos indo?  perguntou ela, animada.
Matt olhou-a de soslaio, admirando o vestido com uma delicada estampa azul e branco que ela estava usando.
 Tenho uma surpresa para voc  respondeu.
 Espero que goste.
 Deixe-me adivinhar: vai me levar ao zoolgico?  brincou ela.
Ele riu.
 Gosta de ir ao zoolgico
Leslie torceu o nariz.
 No muito. Na verdade, acho que essa surpresa no me agradaria muito.
 Ento pode ficar tranqila. No h bichos no lugar para onde estamos indo.

 timo.  Mais adiante, Leslie olhou para as placas dispostas na estrada e se surpreendeu.
 Ei, mas esta estrada vai para Houston.
 Sei disso.  Matt olhou para ela.  Vamos visitar sua me.
A tenso de Leslie se tornou visvel no mesmo instante. Sem perceber o que estava fazendo, ela cravou as unhas na palma das mos. Porm, sentiu-se aliviada quando a mo carinhosa de Matt pousou sobre a sua.
 No  proveitoso fugir dos problemas, Leslie. Fncar-1os de frente sempre nos traz mais experincia. Vocs no se vem h mais de cinco anos. No acha que chegou a hora de afastar esses fantasmas do passado?
Leslie no conseguiu disfarar a apreenso.
 A ltima vez que a vi foi no tribunal, quando foi lido o veredicto. Na ocasio, ela nem sequer olhou para mim.
 Ela estava envergonhada, Leslie.
Ela ficou surpresa ao ouvir aquilo. Franzindo o cenho, olhou para ele.
 Envergonhada?
 Ela no estava tomando grandes doses de droga, mas certamente j estava viciada. Ela havia se drogado antes de voltar para o apartamento e encontr-la naquela situao, com o amante dela. O efeito da droga deixou-a desorientada. Ela me disse que no se lembra nem como o revlver foi parar na mo dela, pois o fato seguinte que lhe vem  mente, quando ela se lembra disso,  ver o amante morto no cho e voc sangrando. Ela mal se lembra de haver sido levada pela polcia.

Leslie continuou ouvindo, em silncio.
 Quando ela voltou a si  continuou Mati
, j estava na priso e ento contaram o quo ela havia feito. De fato, ela no olhou para voc durante o julgamento e depois dele, mas no foi por consider-la culpada pelo que aconteceu. Estava culpando a si mesma por haver sido irresponsvel a ponto de se deixar envolver por um traficante de drogas que fingia gostar dela somente para ter um lugar para viver.
Leslie no gostava daquelas lembranas. Ela e a me nunca haviam sido muito prximas, mas, ao olhar para o passado, reconhecia haver se tornado uma adolescente difcil, principalmente depois da morte de seu pai.
Matt apertou a mo dela, oferecendo-lhe apoio.
 Ficarei a seu lado durante todo o tempo  prometeu ele.  Acontea o que acontecer, no far diferena para mim. Quero apenas tornar as coisas mais fceis para vocs.
 Pode ser que ela no queira me ver  argumentou Leslie.
 Sua me quer v-la  afirmou Matt.  Muito. Ela parece estar ciente de que no lhe resta muito tempo de vida.
Leslie mordeu o lbio inferior.
 No imaginei que ela tivesse problema de corao.
 Provavelmente no tinha, at comear a consumir doses excessivas de drogas. O corpo acaba no suportando esse tipo de coisa e comea a se rebelar.  Ele olhou para Leslie.  Ela est bem por enquanto. S no pode se alterar muito emocionalmente. Mas ainda acho que podemos ajud-la.
 Um novo julgamento seria um grande estresse para ela, Matt.
 Eu sei  concordou ele , mas talvez no BO trate do tipo de estresse que a prejudicaria. Digo isso porque, com uma boa defesa, tenho certeza de que ela seria absolvida.
Leslie apenas assentiu. A parte difcil ainda estava por vir. Teria um encontro para o qual nem sabia se estava preparada.
Leslie logo pde constatar como era complicado entrar em uma priso. Era preciso passar por toda uma srie de revistas e de medidas de segurana destinadas a proteger os visitantes.
Ela sentiu um estremecimento quando eles entraram por um longo corredor que levava  sala onde os prisioneiros recebiam as visitas. Para ela, a idia de perder a liberdade parecia quase to amedrontadora quanto a idia da morte. Enquanto canilnhava, imaginou se sua me pensaria o mesmo.
Na sala, havia uma fileira de cadeiras, separadas do aposento adjacente por um vidro. Uma pequena abertura no vidro, coberta por uma espcie de aramado, permitia que os prisioneiros conversassem com os visitantes.
Matt falou com um dos guardas e indicou uma das cadeiras para Leslie se sentar. Atravs do vidro, era possvel ver uma porta fechada.
Enquanto esperava, ciente da mo protetora de Matt em seu ombro, a porta foi aberta, dando passagem a uma mulher magra e de cabelos loiros bem curtos. Ao se aproximar do lugar que iria ocupar, ela levantou a vista, deparando-se com o rosto tenso de Leslie. Os olhos azuis demonstraram tristeza e incerteza. Quando ela sentou, apoiando-se no balco anexo ao vidro, suas mos estavam trmulas.
 Ol, Leslie  disse ela, devagar.
Leslie apenas continuou no mesmo lugar, sentindo o corao bater com intensidade. Aquela mulher parecia uma sombra do que sua me havia sido.
Marie sorriu com tristeza.
 Eu sabia que isso seria um erro  disse.  Sinto muito...  Ela foi ficando de p.
 Espere  pediu Leslie.
Na verdade, ela no sabia o que dizer. Os anos de afastamento haviam transformado a me em uma estranha para ela. Foi ento que viu Matt se mover e pousar as mos sobre seus ombros, oferecendo-lhe apoio moral.
 V com calma  murmurou ele.  Est tudo bem.
Marie pareceu surpresa ao ver Matt tocar Leslie com familiaridade. Em seguida, recebeu um sorriso de Matt.
Em resposta, Marie mostrou um sorriso hesitante. O sorriso amenizou as linhas duras de seu rosto, fazendo-a parecer mais jovem. Quando voltou a fitar Leslie, seu olhar estava mais ameno.
 Gostei do seu chefe  disse Marie, com simplicidade.
Leslie sorriu para ela.

 Eu tambm gosto dele.
Seguiu-se um momento de hesitao.
 Eu... no sei por onde comear  comeou Marie, com voz rouca.  Ensaiei tanto esse momento, e agora no sei o que dizer.
Os olhos tristes procuraram os de Leslie, como se ela estivesse tentando recordar o passado. Ento estremeceu, ao se lembrar do terror que vira no semblante da filha naquela noite terrvel.
 Eu cometi muitos erros, Leslie. E o maior deles foi pr minhas prprias necessidades  frente das necessidades das outras pessoas. Tinha de ser sempre o que eu queria, o que eu precisava. Mesmo quando comecei a usar drogas, s conseguia pensar no que me deixaria satisfeita.
Ela balanou a cabea.
 O egosmo cobra um alto preo. E eu sinto tanto por voc haver tido de pagar um preo to alto pelo meu... No tive nem coragem de olh-la durante o julgamento, depois do que os tablides publicaram. Estava to envergonhada pelo que a fiz passar que no tive coragem sequer de olh-la. Imaginei como devia estar sendo difcil para voc manter a cabea erguida enquanto metade do Estado comentava coisas ntimas sobre nossas vidas.
Marie pareceu prestes a explodir em lgrimas, mas conteve o choro.
 No tenho nem coragem de lhe pedir para me perdoar. Mas eu queria muito v-la, ainda que uma nica vez, para lhe dizer quanto lamento por tudo que aconteceu.
A viso daquele semblante sofrido provocou um aperto no peito de Leslie, que nem fazia idia do que a me sentia remorso pelo que havia acontecido. No houvera comunicao entre elas no passado. Agora sabia que Matt dissera a verdade a respeito do silncio de sua me. Marie estava envergonhada demais para encar-la at mesmo no presente. E isso amenizou um pouco sua mgoa.
 Eu no sabia sobre as drogas  disse  me. Seu tom fez Marie olh-la e, pela primeira vez, viu-se neles um lampejo de esperana.
 Nunca as usei perto de voc  disse ela, em um tom gentil.  Mas meu problema comeou h muito tempo, na poca em que seu pai... morreu.  O brilho nos olhos dela se desvaneceu um pouco.  Voc me culpou pela morte dele, e estava certa. Ele no tinha condies de ser o que eu queria que ele fosse. No podia me dar as coisas que eu achava que merecia.  Olhou para o balco diante dela.  Ele era um homem bom e generoso, mas eu no soube reconhecer isso. Somente depois que ele morreu foi que me dei conta de quanto ele significava para mim. Mas era tarde demais.
 Sorriu com tristeza.  Dali em diante, tudo foi por gua abaixo. No me importei mais comigo nem com voc, e comecei a usar drogas. Foi assim que conheci Mike. Acho que voc j deve ter deduzido que ele era meu fornecedor.
 Matt deduziu isso  salientou Leslie.
Marie levantou a vista para Matt, que continuava ao lado de Leslie.
 No deixe que a faam sofrer mais  Marie pediu a ele. No deixe aqueles malditos reprteres se aproximarem dela. Leslie j sofreu demais.

- E voc tambm  declarou Leslie, inesperodamente, comovida com a preocupao da me.
Matt disse que...  Ela hesitou.  Ele acha gire os advogados dele podero ajud-la em um novo julgamento.
Marie se sobressaltou. Seu olhar se iluminou, mas logo voltou a adquirir a sombra de tristeza.
 No. Tenho de pagar pelo que fiz.
 Mas voc fez aquilo devido ao choque e em um momento de extrema tenso  argumentou Leslie.  No foi algo premeditado. No entendo direito de leis, mas sei que a premeditao agrava a culpa do ru que cometeu um crime. Voc no planejou matar Mike.
O olhar de Marie encontrou o da filha atravs do vidro.
 E muita generosidade sua dizer isso, Leslie. Muita generosidade, considerando toda a dor que lhe causei.
 Ambas pagamos um preo alto.
 Est usando gesso  observou Marie.  Por qu?
 Ca de um cavalo  explicou Leslie, sentindo as mos de Matt se contrarem sobre seus ombros, como se ele estivesse se lembrando do motivo que a levara a cair. Em um gesto automtico, ela pousou uma mo sobre a dele.  Foi uma queda ocorrida em boa hora porque Matt me levou a um cirurgio ortopedista que operou minha perna.
 Sabe como ocorreu o ferimento na perna dela?  Marie perguntou a Matt.
 Sim - ele respondeu.

A voz dele saiu tensa. O fato era que a carcia da mo de Leslie sobre a dele o estava afetando mais do que ele gostaria de admitir. Era a primeira vez que ela o estava tocando voluntariamente, e ele no pde deixar de se sentir honrado com isso.
 Essa  outra coisa que carreguei na conscincia durante anos  confessou Marie.  Fico feliz que tenha feito a operao.
 Lamento pela situao em que voc est  afirmou Leslie, com sinceridade.  Eu teria vindo visit-la antes se soubesse... Mas o fato  que pensei que me odiasse pelo que aconteceu com Mike.
 Oh, Leslie...
Marie cobriu o rosto com as mos e comeou a chorar, enquanto Leslie a observava, sem saber o que fazer. Aps alguns segundos, Marie enxugou o rosto.
 Claro que eu no a odeio  disse ela, por fim.
 Como poderia odi-la por causa de algo de que voc nem teve culpa? No fui uma boa me. Coloquei-a em risco no momento em que comecei a usar drogas. Falhei terrivelmente com voc. E ao deixar Mike entrar em nossa casa, praticamente armei o cenrio para que ele e os amigos ordinrios fizessem aquilo com voc.  Uma lgrima escorreu pelo rosto dela.  Voc era to jovem, to inocente... E ver-se na mo de homens cruis...  Ela se interrompeu.
 Por isso achei que no tinha o direito de pedir que voc viesse me ver. O motivo pelo qual no tive coragem de lhe escrever ou de lhe telefonar. Pensei que voc me odiasse.
Os dedos de Leslie se fecharam com mais firmeza sobre os de Matt, buscando apoio na presena dele. Sabia que nunca teria conseguido enfrentar tal situao sem ele a seu lado.
 Eu nunca a odiei  disse  me.  Lamento no havermos podido conversar durante o julgamento. Eu realmente a culpei pela morte de papai
 admitiu ela.  Mas eu era muito jovem quando aquilo aconteceu, e ns duas nunca fomos muito prximas. Se houvssemos...
 No podemos mudar o passado, Leslie  Marie a interrompeu, com um sorriso triste.  Mas, para mim, tudo isso j valeu a pena se voc puder me perdoar.
Leslie sentiu um aperto na garganta, ao fitar os olhos marejados de lgrimas da me.
 Claro que eu a perdo.  Mordeu o lbio.
 Est tudo bem com voc? Sua sade est boa?
 Meu corao est fraco, provavelmente devido  grande quantidade de drogas que eu usei. Tomo alguns remdios e estou indo mais ou menos bem. Eu ficarei bem, Leslie, no se preocupe.  Fitando a filha com intensidade, acrescentou:  Espero que voc tambm fique bem, agora que no est sendo mais perseguida por aquele reprter. Obrigada por ter vindo me visitar.
Estou feliz em ter vindo  declarou Leslie, com sinceridade.  Passarei a lhe escrever e virei visit-la quando puder. Enquanto isso, os advogados de Matt tentaro ajud-la de alguma maneira. Deixe-os tentar.
Houve um momento de hesitao, enquanto Marie olhou para Matt, com ar de preocupao.

Matt pousou a outra mo sobre o ombro de Leslie.
 Eu cuidarei dela  Matt prometeu a Marie, sabendo que ela entendera o que ele estava querendo dizer.
Ningum voltaria a incomodar Leslie, enquanto., ele estivesse por perto. Ele tinha influncia e pretendia us-la para manter Leslie em segurana. Ao ouvir aquilo, Marie relaxou os ombros.
 Est bem, ento  disse ela.  Obrigada por tentarem me ajudar, mesmo que isso no d certo no final.
Matt sorriu para ela.
 Milagres acontecem, sra. Murry.
 No o deixe  Marie se dirigiu  filha.  Se eu houvesse tido um homem com esse para cuidar de mim, no estaria nessa situao agora.
Leslie enrubesceu. Sua me falara como se houvesse uma chance de ela e Matt ficarem juntos para sempre. Claro que isso no aconteceria. Ele podia at se sentir responsvel por ela, mas aquilo no tinha nada a ver com amor.
Matt se inclinou e sussurrou-lhe ao ouvido:
 Est vendo? Siga o conselho de sua me.  Dirigindo-se  Marie, acrescentou:  Sua filha  muito especial, sra. Murry.
Marie sorriu com orgulho.
 Sim, eu sei. Cuide-se, Leslie. Eu... Eu te amo, mesmo que nunca tenha demonstrado isso devidamente.
Os olhos de Leslie se encheram de lgrimas.
 Eu tambm te amo, mame  disse, com a voz emhargada.

Marie no conseguiu dizer mais nada. Apenas assentiu, com os lbios trmulos e os olhos cheios de lgrimas. Aps trocar um demorado olhar com a filha, levantou-se e dirigiu-se  porta.
Leslie continuou no mesmo lugar por mais algum tempo, observando a me sumir completamente de vista. As mos de Matt afagaram seus ombros.
 Vamos, querida  falou ele, com gentileza, entregando um leno a ela.
Todo aquele carinho por parte de Matt era uma arma letal, pensou Leslie. Chegara a ser quase doloroso senti-lo, sabendo que no duraria para sempre. Melhor seria no interpretar erroneamente aquela atitude. Viveria um dia de cada vez ao lado dele, sem gerar expectativa a respeito do futuro.
Leslie se manteve em silncio durante todo o trajeto at o estacionamento. Matt acompanhou-a mantendo as mos nos bolsos, parecendo to imerso nos prprios pensamentos quanto ela. Ao se aproximarem do carro, ele acionou um boto no controle remoto que destravou as portas.
 Obrigada por haver me trazido at aqui  Leslie agradeceu, quando Matt abriu a porta para ela.  Estou feliz em ter vindo, mesmo depois de haver relutado no incio.
Matt se aproximou dela, fitando-a intensamente nos olhos. Quando o olhar dele se fixou em seus lbios, ela os entreabriu em um gesto involuntrio. Seu corao estava batendo feito louco, como sempre acontecia quando Matt se aproximava daquela maneira. Naquele momento, foi quase como 
se ela pudesse sentir o sabor dos lbios dele sobre os seus. No deixava de ser assustador sentir tantas emoes novas e intensas.
Matt notou que a expresso do rosto dela se suavizou, mas ele se manteve no mesmo lugar. Os msculos de seu maxilar pareciam enrijecidos no esforo de se conter.
O estacionamento em torno deles estava deserto. No havia nada audvel, exceto o som do trfego a certa distncia.
Matt deu um passo  frente.
 Matt?  ela o chamou com voz trmula. Ele estreitou o olhar. Devagar, tocou o rosto dela. Ento roou o polegar sobre os lbios dela, j enquanto a fazia levantar o rosto em direo ao dele. Leslie se sobressaltou ao sentir o quadril msculo roar o dela.
Havia ousadia no apenas no modo de ele se aproximar, mas na maneira como a estava tocando e olhando para ela.
Leslie sentiu-se completamente vulnervel sob o efeito daquela aproximao, e com certeza Matt percebeu isso, pela experincia que tinha com mulheres.
 Voc  to diferente das outras mulheres murmurou ele, com os lbios a centmetros dos dela.  Elas costumam fingir inocncia ao mesmo tempo em que provocam, mas sua inocncia  genuna. Quando olho para voc, consigo perceber tudo o que voc est pensando. Voc no tenta esconder o que sente ou dar explicaes. Est tudo a, no seu semblante.
Leslie abriu um pouco mais os lbios. Estava ficando dificil respirar e ela no sabia o que dizer.

Matt inclinou a cabea um pouco mais e Leslie conteve o flego ao sentir a respirao dele sobre os lbios.
 No imagina o prazer que me d v-la com esse olhar. Sinto-me privilegiado.
 Por qu?  sussurrou ela.
Ele roou os lbios sobre os dela.
Porque sinto que estou conseguindo despertar a feminilidade que existe dentro de voc. Meu maior desejo nesse momento  poder despi-la e am-la sobre lenis de cetim...  disse e a beijou com voracidade.
Leslie deixou escapar um leve gemido, ao imaginar o que ele acabara de descrever. Ouvir aquilo de um homem atraente como Matt era excitante e amedrontador ao mesmo tempo.
Quando deu por si, estava afundando os dedos nos braos musculosos de Matt, enquanto ele roava o quadril no dela, evidenciando sua excitao. A sbita onda de desejo que invadiu o corpo de Leslie pegou-a de surpresa, tornando suas pernas trmulas.
Matt praticamente esmagou os lbios dela em um beijo ardente e, quando finalmente se afastou, todo seu corpo parecia estar vibrando de desejo.
Leslie adorou ver a expresso de desejo no rosto dele. E adorou sentir o corpo trmulo e msculo junto ao seu.
 Gosta de saber que estou assim por sua causa?  perguntou ele, com voz rouca.
 Sim.
Leslie abaixou a vista devagar, at a parte mais sensivel do corpo de Matt. Ento voltou a fit-lo nos olhos no mesmo instante, surpresa com o que vira. Parecia muito ntimo observ-lo daquela maneira.
Devagar, levou as mos ao peito dele, sentindo os msculos rijos atravs do tecido da camisa e a textura macia dos plos.
Matt no tentou det-la em nenhum momento. Foi ento que ela se lembrou do que ele havia dito a respeito de ela ter de provoc-lo quando se sentisse pronta para isso.
Ora, por que no?, pensou consigo. Mais cedo ou mais tarde, teria de descobrir quais eram seus prprios limites quanto a essa questo. Hesitante, foi descendo a mo devagar, em direo  cala de Matt.
Ele enrijeceu o maxilar. Deus, teria ela idia do que estava fazendo com ele?, Matt se perguntou. A mo de Leslie foi descendo centmetro a centmetro, at hesitar mais uma vez.
Matt conteve a respirao, lutando para se controlar. Seu rosto se tornara impassvel, com o desejo evidenciado apenas no brilho selvagem de seus olhos.
 Continue, se quiser  disse a ela, com voz rouca.  Mas se me tocar a, vou possu-la aqui mesmo, no carro. E juro que no vou me importar de ser preso por isso.



CAPTULO XII



A inusitada ameaa trouxe Lslie de volta  realidade. Sentiu o rosto esquentar e, sem hesitar, afastou-se de Matt.
 Ah, meu Deus  murmurou, horrorizada com o que estivera fazendo.
Matt fechou os olhos e encostou a testa na dela. A pele dele estava mida de suor e ele estremeceu, ainda tentando se recuperar. Ento riu do embarao de Leslie.
Ela continuava com a respirao alterada e com o corpo trmulo.
 Sinto muito, Matt. No sei o que deu em mim. Ele levantou a cabea, sorrindo para ela. Desejava Leslie desde que a conhecera e saber que estava tendo o poder de despertar todo aquele desejo deixava-o feliz e excitado ao mesmo tempo, mas no era o melhor momento de levar aquilo adiante.
 Leslie  disse, fitando-a nos olhos , est comeando algo que ns dois sabemos que voc ainda no tem condies de terminar.
 Tem razo  admitiu ela.  Ainda no tenho certeza de que posso...  ela no terminou a frase.

Sentiu o calor emanado do corpo dele, maravilhando-se com a vulnerabilidade que conseguira provocar nele. Matt sempre parecera to forte, to cheio de controle, mas, naquele momento, demonstrava estar to afetado pelo desejo quanto ela.
Observando os lbios dela, ele falou:
 Se ainda lhe resta algum senso de autopreservao,  melhor entrar no carro, Leslie.
 Est bem  concordou ela, com um suspiro. Devagar, sentou-se no banco do passageiro e posicionou o cinto de segurana. Matt deu a volta pelo carro e sentou-se ao volante.
Os dedos de Leslie seguravam com firmeza a bolsa de tecido macio que ela levara consigo. Sem coragem de encarar Matt, continuou olhando para frente. Continuava no acreditando no que tivera coragem de fazer.
 No fique to abalada com o que aconteceu
 falou Matt, em um tom gentil.  Afinal, eu havia lhe dado a liberdade de me provocar.
Leslie limpou a garganta.
 Acho que levei sua sugesto a srio demais. Matt riu, fazendo o agradvel som de seu sorriso se misturar ao do motor do carro que ele havia acabado de ligar.
 Definitivamente, voc tem potencial srta. Murry  gracejou ele, olhando-a com afeio. Acho que estamos tendo muito progresso.
Leslie olhou para a bolsa.
 Um progresso lento  corrigiu ela.
 Mas esse  o melhor tipo de progresso.  Matt manobrou o carro em direo  sada.  Vou lev-la para casa, para que possa trocar de roupa. Vamos jantar na cidade essa noite, com gesso e tudo!
Leslie sorriu com timidez.
 No vou poder danar  avisou.
 Teremos muito tempo para danar quando voc se recuperar  afirmou ele.  Vou cuidar de voc de agora em diante, Leslie. No deixarei que corra mais riscos.
Os lbios de Leslie se curvaram em um sorriso. Matt tinha o dom de faz-la sentir-se especial, e ele no tinha idia de quanto isso era maravilhoso para algum que nunca recebera muito carinho. Imersa nos prprios pensamentos, s se deu conta de que havia falado quando ouviu o riso dele.
 Mas voc  mesmo especial  afirmou ele.
 Est ficando cada vez mais difcil me manter longe de voc, Leslie.  Tornando-se srio, ele perguntou:  Tem certeza de que no h nada entre voc e Ed?
 Eu e Ed somos apenas bons amigos  Leslie assegurou.
 Otimo.
Parecendo mais relaxado, Matt ligou o rdio. Leslie nunca o vira to tranqilo. A atmosfera entre eles estava parecendo a de um recomeo. No tinha idia de qual seria o futuro do relacionamento entre eles, mas j no se sentia mais com coragem de voltar atrs.
 noite, durante o jantar, Matt mostrou-se a prpria personificao da cortesia. Abriu portas para ela, puxou a cadeira e fez tudo que era comum a um cavalheiro, mostrando a Leslie que ele no era um completo adepto do modernismo. Ela adorou. Ser cortejada daquele jeito por um homem to atraente quanto Matt era de deixar qualquer mulher envaidecida.
Eles jantaram em restaurantes de Jacobsville, de Victoria e de Houston nas semanas seguintes. As vezes, Matt at ligava para ela tarde da noite, depois de chegar em casa, e os dois conversavam um pouco mais por telefone.
Ele mandava flores para a casa dela, fazia comentrios ntimos quando passava por ela no escritrio, sem que houvesse ningum por perto, e sorria para ela com ar de cumplicidade s para v-la sorrir tambm.
Conforme as pessoas de Jacobsville comearam a v-los juntos, passaram a consider-los como um casal. Para Leslie, foi como se seus sonhos estivessem comeando a se tornar realidade, exceto pelo detalhe que continuava a assaltar seu ntimo: como iria reagir quando Matt fizesse amor com ela? Conseguiria compartilhar sua intimidade com ele apesar do que lhe acontecera no passado?
A questo insistia em perturb-la, porque, embora Matt estivesse sendo afetuoso e carinhoso com ela, eles ainda no haviamtrocado nada alm de alguns beijos no carro ou  porta da casa dela.
Matt no tentou ir adiante em nenhum momento, e ela se sentia embaraada demais depois do que acontecera no estacionamento da priso para ter coragem de voltar a ser to ousada novamente.

O gesso de Leslie foi retirado pouco antes da festa dos Ballenger, para a qual toda Jacosbville fbra convidada. Leslie olhou para a prpria perna, j livre do gesso, no momento em que Lou Coltrain pediu a ela que se apoiasse naturalmente nela, sem o auxlio do suporte que havia no gesso.
Leslie obedeceu, mesmo preocupada com a reao que seu corpo teria. A um canto da sala, Matt continuou a observ-la com ateno, tambm parecendo preocupado com ela.
Porm, ao apoiar o peso do corpo sobre a perna, Leslie se surpreendeu.
 No est doendo!  exclamou.  Matt, veja, estou conseguindo me apoiar nela sem sentir dor!
 Era esse o trato  brincou Lou, rindo.  O dr. Santos  o melhor especialista que conhecemos em ortopedia.
 Nem acredito que poderei voltar a danar
 falou Leslie.
Matt se aproximou dela e lhe segurou as mos, levando-as aos lbios.
 Ns voltaremos a danar  corrigiu ele, fitando-a nos olhos.
Lou sorriu, com ar de aprovao. Aquilo acabaria em um casamento e tanto, pensou ela.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Matt foi apanhar Leslie em casa. Ela estava trajando um vestido longo de tecido prateado e com alas flnssimas que davam um charme especial ao traje. Havia colocado as lentes de contato e deixara os cabelos naturalmente soltos. Seu andar tornara-se calmo e elegante, fazendo-a sentir-se ainda mais feminina.

 Est linda, Leslie  Matt a elogiou, sorrindo enquanto se dirigiam ao carro.  Vamos tentar no fazer muitas extravagncias esta noite, est bem?
 Como quiser, chefe  brincou ela.
Ele riu, abrindo a porta do carro para ela.
 Parece que teremos uma noite promissora  falou ele, ao sentar-se ao volante.
Tenho planos ainda melhores para depois  arriscou ela.
Matt olhou-a no mesmo instante.
 Isso  uma promessa?
Leslie fitou-o com timidez.
 Depende de voc.
Ele no respondeu de imediato.
 Leslie, voc s deve ir at onde sabe que conseguir chegar com um homem  comeu ele, devagar.  Voc no entende muito de relacionamentos, por no haver tido experincia nisso. Mas quero que entenda como eu vejo isso. No toquei em nenhuma outra mulher desde que a conheci. E isso me deixa bem mais vulnervel do que eu ficaria em outras circunstncias.  Enquanto falava, Matt olhava dela para a estrada.  Acho que no conseguirei ser to delicado quanto gostaria quando fizer amor com voc  confessou ele.  No sei se serei capaz de controlar todo esse desejo.
Leslie conteve o flego.
 Ento prefere que as coisas entre ns continuem como esto  afirmou ela, como que falando consigo mesma.
 No  isso  ele se apressou em corrigi-la.
 S no quero pression-la. Falei srio quando disse que a iniciativa teria de ser sua.

Leslie moveu a bolsa de mo sobre o colo, vendo os reflexos prateados que surgiram nela como efeito da luz da estrada.
 Tem sido muito paciente comigo.
 Porque fui muito rude com voc nas primeiras semanas em que nos conhecemos  lembrou ele.  Estou tentando lhe mostrar que nosso relacionamento no se baseia apenas em sexo.
Ela sorriu.
 J notei isso. Tem sido maravilhosamente cuidadoso comigo, Matt.
Ele respirou fundo.
 No imagina quanto tem sido difcil me conter.
Leslie sorriu, lisonjeada com o comentrio. Matt j havia lhe mostrado de inmeras maneiras como se sentia em relao a ela. At mesmo as outras mulheres do escritrio j haviam percebido isso.
Ele olhou-a de soslaio.
 Sem comentrios?
 Oh, desculpe-me. E que me pus a pensar de repente.
 Pensar em qu?  indagou ele, em um tom trivial.
Leslie deslizou o dedo pela borda da bolsa.
 Se voc poderia me ensinar a seduzi-lo. Leslie se surpreendeu quando ele desviou o carro para o acostamento, parou e desligou o motor. Ento voltou-se para ela.
 O que disse?
Leslie olhou-o com timidez, em meio  iluminao indireta dentro do carro.
 Quero seduzi-lo.

Matt balanou a caba.
 Devo estar febril ou algo assim  murmurou. Ela sorriu, sentindo-se estranhamente  vontade na presena dele. Matt a fazia sentir como se ela fosse capaz de qualquer coisa. De qualquer ousadia. Inclinando-se no assento, moveu-se com sensualidade, gostando de sentir o roar do tecido leve sobre seus seios. Sentia-se viva. Maravilhosamente viva.
O olhar de Matt voltou-se para o lugar onde o tecido prateado deslizava sobre os mamilos dela, deixando-os evidentes. Ao ver o modo como Leslie moveu o corpo, notou que ela estava excitada, o que o deixou excitado no mesmo instante.
Inclinou-se para o lado e cobriu os lbios dela com os seus, insinuando a mo no decote at alcanar-lhe um dos seios.
Leslie gemeu, arqueando o corpo em direo  mo dele e abrindo os lbios sob os dele. Rendendo-se s novas sensaes, deixou que a mo experiente de Matt continuasse a acarici-la.
 Isso  perigoso  murmurou ele, com os lbios roando nos dela.
 A sensao  maravilhosa  Leslie sussurrou, pressionando a mo dele contra seu seio.  Quero senti-lo assim. Quero acariciar sua pele por baixo da camisa...
At ento, Matt no havia se dado conta da rapidez com que era capaz de se livrar de uma gravata e de uma camisa. Devagar, abaixou as alas do vestido de Leslie at deixar seus lindos seios expostos, ento inclinou-se na direo dela, at seu peito nu toc-los com sensualidade. O olhar de Leslie se tornou lnguido de desejo diante da deliciosa sensao dos plos macios do peito de Matt roando em seus mamilos.
Os lbios de Matt foraram os dela a se abrir um um beijo to explcito quanto o ato de fazer amor. Leslie sentiu a lngua dele invadir sua boca dc maneira possessiva, enquanto o peito forte e nu continua a roar sobre seus seios.
Ao tocar o membro viril de Matt por sobre o tecido da cala, ela adorou ouvir o gemido sensual que ele emitiu. No, ele no voltaria atrs nessa noite. E o mais curioso naquilo tudo era que ela no estava com medo.
Matt levantou a cabea e olhou para ela, desejvel e ofegante em seus braos. Tocou os seios dela possessivamente, antes de voltar a fit-la nos olhos.
 No est com medo de mim  murmurou.
 No  respondeu Leslie.
Matt estreitou o olhar.
 E voc me quer  afirmou ele.
Ela assentiu, tocando os lbios dele com a ponta dos dedos.
 Eu te quero muito, Matt  sussurrou ela.
 Gosto de v-lo demonstrar que me deseja. Sinto-me excitada com isso.
Matt gemeu, fechando os olhos.
 Por favor, Leslie, no me fale essas coisas agora.
Ela tocou o peito dele.
Por que no?  indagou, com ar inocente Quero ver se consigo compartilhar minha intimidade com voc. Preciso saber  acrescentou ela, hesitante.  Nunca consegui desejar um homem antes e nunca senti algo como o que estou sentindo agora, Matt. Tudo isso  muito novo para mim, e eu preciso obter algumas respostas.  Ela adquiriu uma expresso mais sria.  Matt, no podemos... ir para algum lugar?
 E fazer amor?  perguntou ele, como que duvidando que ela estivesse em seu juzo perfeito.
O olhar de Leslie se amenizou.
 Sim  respondeu ela.
Matt hesitou. O lado racional de sua mente lhe dizia para no fazer aquilo, mas seu corpo clamava para possuir Leslie.
 Querida, ainda  cedo demais...
 No, no   ela o interrompeu, deslizando os dedos sobre o peito dele.  Sei que voc no quer um relacionamento permanente, mas eu no me importo com isso.
Matt se surpreendeu ao ouvi-la dizer aquilo.
 O que quer dizer com no quer um relacionamento permanente?
 Quero dizer que voc no  do tipo que se casa. Ele arqueou as sobrancelhas. Aos poucos, um sorriso curvou seus lbios.
 Leslie, voc ainda  virgem  lembrou ele, em um tom gentil.
 Sei que isso  um empecilho, mas todos temos de comear em algum momento. E voc pode me ensinar como  insistiu ela.  Aprenderei rpido.
 No  refutou Matt.  Leslie, no  assim que as coisas devem ser. No saio por a possuindo virgens.

Ela franziu o cenho. No estava entendendo o que ele estava querendo dizer com aquilo.
 No?
 Claro que no  respondeu Matt, com firmeza.
 Bem, mas se voc colaborar, no continuarei sendo uma por muito tempo  salientou ela.  Portanto, l se vai seu ltimo argumento, Matt.
Dizendo isso, pressionou o corpo deliberadamente junto ao dele, tentando provoc-lo.
Para sua surpresa de Leslie, ele se afastou no mesmo instante e puxou as alas do vestido dela para cima, cobrindo-lhe os seios. Ento vestiu a camisa e ajeitou a gravata, agindo como se houvesse recebido um balde de gua fria ou algo do gnero.
Surpresa, Leslie ajeitou o cinto de segurana, enquanto Matt prendia o dele. Notou que ele ainda estava bastante alterado com o que acontecera. Ligou o carro com um gesto impaciente e colocou-o em movimento.
Leslie olhou-o de soslaio. Achara estranho Matt se afastar dela daquela maneira. Teria ele se ofendido com sua proposta? Talvez sim.
 Ficou ofendido?  perguntou a ele, sentindo-se embaraada.
 No, claro que no  Matt se apressou em responder.
 Tudo bem, ento.
Leslie exalou um suspiro de alvio. Ao notar que Matt continuou olhando para frente, insistiu:
 Tem certeza?
Ele assentiu.
Leslie cruzou os braos e ps-se a olhar a estrada iluminada, tentando imaginar por que Matt .. estava agindo daquela maneira to estranha. Aquele no se parecia com o Matt que ela pensars conhecer. Antes ele demonstrara desej-la tanto quanto ela o desejava, mas, no momento, ela j no tinha tanta certeza disso.
O Jaguar seguiu pela estrada, e ambos continuaram em silncio. Matt nem sequer voltou a olhar para ela, o que aumentou ainda mais a apreenso de Leslie. Matt parecia muito pensativo, e ela se perguntou se no teria arruinado o relacionamento deles com aquela mera demonstrao de ousadia.
Somente quando ele virou o volante, alguns quilmetros  frente, e entrou por uma estrada secundria foi que ela se deu conta de que no estavam indo para a casa dos Bailenger.
 Para onde estamos indo?  perguntou, quando passaram  margem de um lago.
Ao longo do trajeto, via-se placas indicando vrias cabanas, e uma das que surgiu mais adiante mostrava o sobrenome Caldwell.
Matt estacionou o carro na entrada ao lado do pequeno jardim diante da cabana e desligou o motor.
 Venho para c quando quero fugir do trabalho  explicou ele.  Mas nunca trouxe nenhuma mulher comigo.
No?
Ele estreitou o olhar.
 Voc disse que queria descobrir se era capaz de compartilhar sua intimidade. Pois bem. Este  um lugar onde no seremos perturbados, e eu estou mais do que disposto a servir de cobaia para sua experincia. Portanto, no h motivo para embaraos. Eu a desejo tanto quanto sei que Voc me deseja. Tenho preservativos comigo, ento no correremos nenhum risco. Mas voc precisa certificar de que  isso mesmo que quer.
Leslie olhou-o fixamente. Seu corpo estava quente sob o efeito da maneira como Matt a estava olhando. Lembrou-se da sensao das mos dele sobre seus seios e daqueles lbios sedentos esmagando os seus em um beijo abrasador. Quando deu por si, seus lbios estavam entreabertos, evidenciando seu desejo. E Matt percebeu isso.
Aproximando-se dele, roou os lbios junto iquele queixo firme.
 Eu no deixaria nenhum outro homem me tocar murmurou.  E acho que voc sabe disso.
 Sim, eu sei  admitiu ele.
Matt tambm sabia de outra coisa. Sabia que isso seria um comeo, no um caso passageiro ou um relacionamento de uma noite. Seria o primeiro homem na vida de Leslie, mas ela seria a ltima mulher em sua vida, Queria ter Leslie a seu lado pelo resto da vida.
Quando ambos saram do carro, ele a conduziu at a ampla varanda onde havia uma rede e trs cadeiras de balano. Matt destrancou a porta, e assim que eles entraram ele voltou a tranc-la.
Ento segurou a mo de Leslie e conduziu-a at o quarto. Ela conteve o flego ao ver a cama king-size, coberta por um aconchegante lenol em tons de bege e vermelho.

Pela primeira vez, desde que se dera conta de seu desejo por Matt, a realidade atingiu-a com toda sua intensidade. Continuou no mesmo lugar, olhando para aquela cama enorme, enquanto imagens erticas invadiram sua mente.
Matt se aproximou devagar, notando a hesitao dela.
 Est com medo?  perguntou, em um tom gentil.
 Desculpe-me, mas acho que estou  confessou Leslie, forando um sorriso.
Fitando-a com um olhar carinhoso, Matt segurou o rosto dela entre as mos e beijou-a na testa.
 Esta ser sua primeira vez, mas no a minha, meu anjo. Quando deitarmos naquela cama, voc vai estar pronta para me receber e medo ser a ltima coisa que pensar em sentir.
Dizendo isso, Matt se aproximou devagar e comeou a beij-la. Suas carcias foram ternas, sem denotar sensualidade. Na verdade, chegaram a ser at confortadoras. Leslie, que at ento estivera com medo do universo desconhecido que comeava a se descortinar  sua frente, rendeu-se ao calor dos braos dele, feito uma flor voltando-se em direo ao sol.
A princpio, sentir a proximidade de Matt foi algo apenas prazeroso, mas quando ele se aproximou mais, colando o quadril ao dela, Leslie pde perceber quanto ele estava excitado.
Deslizou as mos pelos quadris firmes, adorando sentir aqueles msculos rijos sob seu toque, enquanto os lbios dele continuavam a explorar os dela.

Matt comeou a mover o corpo junto ao dela, despertando o desejo de Leslie e deixando-a com uma deliciosa sensao de languidez. Seus mamilos intumesceram e a frico do tecido do vestido junto  sua pele intensificou ainda mais as sensaes que as carcias de Matt estavam despertando em seu corpo.
Matt insinuou o joelho entre as pernas dela, posicionando-se de maneira mais ntima. O contato mais ousado levou Leslie a gemer baixinho, tomada pelo enlevo de desejo cada vez intenso.
Em seguida, ela sentiu as mos dele em seus ombros, abaixando as alas do vestido enquanto continuava a beij-la. Somente quando sentiu os plos de Matt roando seus mamilos foi que se deu conta de que ele j havia se livrado da camisa.
Matt se afastou um pouco, admirando-lhe os seios perfeitos, antes de acariciar os mamilos rosados com os polegares, deixando-os enrijecidos.
Leslie fechou os olhos com um gemido, deixando-se levar pelas sensaes.
 Voc  linda, Leslie. Linda...
Ela viu os lbios dele se aproximarem cada vez mais at tocarem os seus, em um beijo sensual. Em seguida, adorou ver os lbios de Matt se fecharem sobre um de seus mamilos, enquanto os cabelos escuros lhe caiam sobre a testa, sob o efeito de seus movimentos. Mantendo os olhos fechados, ele sugou-lhe o seio como quem suga um nctar. Leslie levou as mos  nuca dele, mantendo-o junto de si e acariciando-lhe os cabelos enquanto se deliciava com as sensaes que ele estava lhe provocando.

Quando Matt finalmente levantou a cabea, ela estava apoiada na porta, esforando-se para manter o equilbrio. Fitou-o com um olhar enevoado de desejo, ciente de que seu corpo estava trmulo sob o toque dele.
No fez questo de esconder seu desejo de Matt, pelo contrrio. Sentia repulsa por outros homens, mas ele era diferente. Adorava sentir as mos fortes tocando seu corpo. Queria sentir o peso do corpo dele sobre o seu. Queria tanto que deixou escapar um gemido de protesto quando Matt se afastou um pouco para olh-la.
 Nada de arrependimentos?  perguntou ele, com gentileza.
 No. Eu te quero, Matt  sussurrou, fitando-o com ar de adorao. 
Um sorriso se insinuou nos lbios dele. Devagar, terminou de despi-la e admirou aquele belo corpo nu e vulnervel.
Leslie demonstrou embarao, mas este logo desapareceu sob o poder do toque das mos dele. Arqueou o corpo com um gemido, quando Matt acariciou seu outro mamilo com a boca.
Quando ele finalmente deitou-a sobre a enorme cama, Leslie se acomodou junto aos travesseiros, observando Matt terminar de se despir. A certa altura, ele parou e lanou-lhe um sorriso de tirar o flego, demonstrando um brilho quase selvagem no olhar. Leslie estremeceu, movendo-se sensualmente sobre os lenis. Mal podia esperar para ser amada por ele. Sentia todo seu corpo pulsar de desejo, tomado por um calor e por uma necessidade que reclamava em ser saciada. Ento conteve o flego quando Matt retirou a ltima pea de roupa.
Ele sentiu-se excitado com a expresso que surgiu no rosto de Leslie. Pegou o preservativo que havia levado consigo e sentou-se na cama, abrindo a embalagem. Ento ensinou a Leslie o que fazer com ele. Porm, ela se manteve hesitante.
 No vou machuc-la  avisou Matt, em um tom gentil, fitando-a nos olhos.  As mulheres tm feito isso h centenas de milhares de anos, meu anjo. Voc vai gostar. Eu prometo.
Ela voltou a se deitar, em uma espcie de consentimento silencioso. Matt se deitou ao lado dela.
Leslie fechou os olhos quando ele passou a acariciar o corpo dela, levando-a a aprender quais eram seus lugares mais sensveis. Sorria com prazer ao ouvir um gemido ou quando ela arqueava o corpo em direo s mos e  boca dele.
Matt apreciou a maneira como ela estava se soltando cada vez mais, deixando-se levar pela paixo. Leslie se tornou ofegante quando ele lhe acariciou o ventre e a parte interna das coxas.
A certa altura, um agradvel barulho de chuva chegou at eles, indicando que o clima mudara do lado de fora da cabana. Ali dentro, porm, parecia pleno vero. O calor emanado pelos corpos ardentes e nus lembrava um belo contraste com o frio da chuva que caa l fora.
At ento, Leslie no tinha idia de que o prazer fsico pudesse ser to devastador. Observou Matt provar e tocar cada centmetro de seu corpo, sentindo-se cada vez mais excitada com as coisas maravilhosas que ele ia fazendo.

Ao notar a mudana na expresso no rosto de Leslie, ele sorriu.
 Estou deixando-a chocada? Nunca leu livros ou assistiu a filmes?  brincou ele, deitando-se sobre ela.
 E que... no  a mesma coisa  respondeu Leslio arqueando o corpo quando Matt comeou a provoc-la, roando o membro viril em sua intimidade.
Em um gesto natural, Leslie se abriu para ele, ansiosa para saber como seria receb-lo dentro de si.
Como que entendendo o anseio nos olhos dela, Matt se posicionou com cuidado e foi descendo o corpo devagar at os dois se tornarem um. Leslie arregalou os olhos, atnita com a nova sensao de intimidade compartilhada com Matt.
 Nunca pensei...  comeou, ofegante.
 Shh... No h palavras para descrever este momento  sussurrou Matt, tambm com a respirao alterada. Hesitante, levantou um pouco o corpo, antes de voltar a mov-lo para baixo com infinita ternura.  Voc  linda, Leslie. Seu corpo  lindo, desejvel e parece ter sido feito s para mim.
Moveu-se um pouco mais para baixo, sentindo o corpo de Leslie se retesar diante daquela doce invaso. Ento parou, dando a ela o tempo necessrio para se acostumar s novas sensaes.
 Agora sou seu amante  murmurou junto ao ouvido dela, abraando-a com carinho.  Isso vai parecer um pouco desconfortvel no incio, mas logo passar. Voc ainda me quer?
 Mais do que tudo no mundo  respondeu Leslie, arqueando o quadril em um convite sensual.

Matt levantou novamente a cabea e fitou-a nos olhos.
Estou sentindo como se essa tambm fosse minha primeira vez  confessou.
Dizendo isso, penetrou-a por completo. Leslie segurou as costas dele com mais firmeza, sob o efeito do leve desconforto, mas a sensao inicial foi logo cedendo lugar ao calor sensual que experimentara at minutos antes.
 Sim, Matt... Faa isso  pediu em um sussurro, quando ele comeou a se mover com sensualidade.
 Assim?  perguntou ele, movendo-se com um pouco mais de intensidade.
O gemido de Leslie foi suficiente como resposta. Relaxando mais o corpo, conduziu-a pela trilha que levava ao pice do prazer. Sorriu consigo, ao imaginar que Leslie nem tinha idia do que ainda a esperava, do que ainda iria sentir. O pensamento provocou-lhe uma nova onda de excitao e seu corpo foi adquirindo um ritmo frentico.
Tomada pelo desejo, Leslie passou a acompanh-lo naquele ritmo selvagem, j livre do desconforto e do receio iniciais.
Matt cobriu seus lbios em um beijo devorador, enquanto seus corpos se moviam em um silncio interrompido apenas pelo rudo da chuva cada vez mais intensa. A tempestade dentro de Matt no era menos intensa. Estava tendo de se controlar para conseguir esperar e dar a Leslie o prazer que ela merecia.
Felizmente, no teve de esperar muito. Um gemido mais alto irrompeu da garganta de Leslie, pouco antes de seu corpo frgil vibrar sob o efeito do clmax. O efeito no corpo dele foi quase instantneo. Com um gemido de prazer, atingiu o pice com uma intensidade que o deixou surpreso e saciado ao mesmo tempo.
Quando Leslie conseguiu voltar a raciocinar com clareza, adorou sentir o peso do corpo de Matt deitado relaxadamente sobre o seu. Depois de algum tempo, ele levantou a cabea e beijou-a com carinho. Seus corpos ainda estavam midos de suor e a sensao de compartilhar toda aquela intimidade era maravilhosa.
Leslie sorriu, deixando escapar um gemido lnguido.
 Quer mais? sussurrou ele, com um sorriso charmoso.
 Na verdade, estou com uma sensao esquisita  confessou ela.  Como se houvesse acabado de cair no cho, depois de haver estado no paraso.
Matt sorriu.
 H uma poro de nomes tcnicos de psicologia para isso. A sensao  a de ter ido to alto que se torna doloroso ter de voltar  realidade.
 Sim, eu fui alto  confirmou ela, com um sorriso.  Acho que fui parar na lua.
Matt riu.
 Eu tambm.
Leslie pareceu preocupada de repente.
 Foi... Foi tudo bem?
Matt deitou ao lado dela, com um suspiro de satisfao. Ento virou-se de lado e a olhou.

 Voc  a melhor amante que j tive  disse, com sinceridade.  E, de agora em diante, ser a nica mulher da minha vida.
 Oh, isso est parecendo srio  brincou ela.
 E no ?  Matt deslizou a mo pelo corpo dela, adorando sentir aquela pele macia sob seus dedos. Ento pousou-a sobre um seio de Leslie, ao dizer:  No vou mais conseguir parar.
 Parar?  Ela franziu o cenho.
 Isso  disse ele.  E viciador. Agora que a tive, vou querer t-la sempre para mim. Ficarei furioso se vir algum outro homem olhar com desejo para voc.
Leslie teve a impresso de que Matt estava querendo lhe dizer algo, mas no soube ao certo o que era. Por isso, continuou olhando-o em silncio, sem saber ao certo o que dizer.
Ele sorriu com afeio.
 Quer ouvir as palavras?
 Que palavras?  indagou ela.
Matt roou os lbios sobre os dela, em um beijo provocador.
 Case-se comigo, Leslie.



CAPTULO XIII


Leslie se sobressaltou. Aquilo era muito mais do que ela sequer ousara pensar quando aceitara ir at ali com ele.
Matt sorriu, divertindo-se com o ar de espanto no rosto dela.
 Pensou que eu iria pedir que apenas passasse a viver comigo, sem nenhum compromisso mais srio?  brincou ele, com um brilho diferente no olhar. Deslizou a mo sobre o corpo dela, de maneira possessiva.  Isso no seria suficiente para mim.
Leslie hesitou.
 Tem certeza de que quer ter um relacionamento mais... permanente?
Matt estreitou o olhar.
 Leslie, no se trata apenas de querer um relacionamento mais permanente. Na verdade, quero ter um filho com voc.
Um sorriso iluminou o rosto dela.
 Est falando srio? Confesso que cheguei a pensar nisso enquanto ns... Voc sabe.
Sorrindo, ele afastou os cabelos do rosto dela, lutando contra a vontade de comear tudo de novo e de am-la mais uma vez.

Teremos filhos  prometeu a ele.  Mas primeiro precisaremos construir uma vida juntos. Uma vida segura, que possa receb-los com naturalidade.
Leslie ficou fascinada com a expresso que surgira no rosto dele enquanto fazia planos para o futuro. Era bom demais saber que Matt sentia algo alm do que simples desejo por ela. Nunca imaginara que o veria falar em se casar, ainda mais com ela, e em ter filhos.
 Meus planos a deixaram pensativa? indagou ele.
 Sim.  Leslie acariciou o rosto dele.
 Quer compartilhar seus pensamentos comigo?
 Eu estava pensando em como  bom ser amada.
Matt arqueou uma sobrancelha.
 Fisicamente?
 Isso tambm.  Ela sorriu. 
Tambm?
 No teria me trazido para esta cama se no me amasse  falou Leslie, em um tom simples, mas convicto.  Todo aquele cuidado com minha inocncia...
 Isso no a agradou?
Leslie sorriu, com ar complacente.
 Claro que agradou.  Tornou-se sria.  Foi perfeito, Matt. Simplesmente perfeito. E estou feliz em haver esperado por voc. Eu te amo.
Ele respirou fundo.
 Mesmo depois da maneira como a tratei?
 Voc no conhecia a verdade  lembrou ela.
 E mesmo que tenha sido injusto no incio, j fez mais do que o suficiente para se redimir. Ajudou-me no tratamento da minha perna, deu-me um bom emprego e cuidou de mim...
Matt a interrompeu com um beijo Possessivo.
 No tente fazer as coisas parecerem melhores do que foram  disse, ao se afastar.  Agi feito um idiota com voc. S lamento no poder voltar atrs e comear tudo de novo.
Nenhum de ns pode fazer isso. Mas nos resta uma segunda chance. E devemos nos sentir gratos por isso.
De agora em diante, as coisas sero como voc quiser  prometeu Matt, com ar solene. Para mim, tambm foi dificil superar o passado. Passei muito tempo sem confiar nas mulheres, depois do que minha me fez. Mas voc me fez ver outras possibilidades e superar o trauma em relao minha me. Sempre lhe serei grato por isso.
 E eu serei grata a voc  respondeu Leslie.
 Pensei que nunca saberia o que  ser amada, mas voc mudou isso.
Matt beijou a mo dela.
 Tambm nunca pensei que algum dia iria amar algum de verdade  confessou.
Leslje suspirou.
 E  maravilhoso, no?
Hum-hum. Tendendo a melhorar cada dia mais  gracejou ele, brincando com os dedos dela. Lesije levou a outra mo aos cabelos dele.
Matt?
Hum?
Podemos fazer de novo?

Os lbios dele se curvaram em um sorriso.
 Tem certeza de que no ser desconfortvel?  perguntou a ela.
Leslie se ajeitou entre os lenis e fez uma leve expresso de dor.
 Bem, acho que no  mesmo uma boa idia  admitiu, com um sorriso tmido.
Matt sorriu com charme, puxando-a para si e beijando-a com carinho.
 Vem c. Vamos tirar um bom cochilo, antes de voltarmos para casa e planejarmos nosso casamento.  Acariciou os cabelos dela.  Teremos um casamento simples, sem muita pompa, depois passaremos a lua-de-mel onde voc quiser.
 No me importei se no formos para algum lugar, desde que eu esteja com voc  salientou Leslie.
Matt suspirou.
 Foi exatamente o que pensei.  Olhou para ela.  Voc vai ficar linda vestida de noiva.
Ela sorriu, acariciando os plos do peito dele.
 Nunca imaginei que fosse querer se casar comigo.  Deu de ombros.  Mas tambm nunca imaginei que algum dia conseguiria compartilhar minha intimidade com um homem.
 Ainda bem que decidiu tentar.  Matt riu.
Leslie imitou-o.
 Voc sabe que eu no teria feito isso com mais ningum.
Ele se tornou srio.
 Quis que se casasse comigo desde a primeira vez em que a beijei  confessou.  Isso sem falar daquela vez em que danamos. Foi incrvel.

 Para mim tambm.
 Mas voc continuou a demonstrar uma espcie de repdio por mim  lembrou Matt.  E eu no conseguia entender o motivo. Indignado, continuei tratando-a com rudeza, mesmo depois de Ed perguntar o que estava acontecendo comigo, j que eu nunca havia tratado os funcionrios daquela maneira.
 Ed  uma pessoa maravilhosa.
 Sim, ele . Mas estou aliviado por voc no haver se apaixonado por ele. No incio, no convivi muito bem com a possibilidade da competio.
 Ed sempre foi como um irmo para mim. E continua sendo.  Leslie beijou o peito dele. 
- Eu te amo, Matt.
 Eu tambm te amo.
Ela deitou a cabea no local onde o havia beijado e fechou os olhos.
 Se os advogados conseguirem ajudar minha me, talvez ela consiga estar livre no nascimento de nosso primeiro filho.
 Sim  concordou Matt.  Tenho esperana de conseguirmos isso.
Dizendo isso, abraou-a com carinho, aninhando o corpo delicado de Leslie junto ao dele. Ela sorriu com ar sonhador. No, no havia sado do paraso.
O passado sombrio ficara para trs, e agora s lhe restava aproveitar o futuro luminoso que surgia  sua frente, nos braos de Matt.
Leslie e Matt se casaram na igreja local, que se encheu de convidados satisfeitos com a unio dos dois.

Leslie concluiu que praticamente todos os habitantes de Jacobsville haviam comparecido  cerimnia. Mas no era de surpreender. Matt Caldwell havia sido o solteiro mais cobiado da cidade durante muilo tempo, e todos estavam curiosos para saber quem havia sido a sortuda que conseguira lsg-lo.
Todos os rapazes da famlia Hart comparecemm, alm dos Ballenger, dos Tremayne e dos Jacob, dentre outras famlias ilustres da cidade.
O vestido de Leslie era simples, mas muito elegante, coberto por uma delicada camada de renda sobre cetim. O vu fnssimo cobria-lhe parte do rosto e se estendia at o meio das costas em uma cascata difana.
As outras secretrias do escritrio de Matt haviam sido escolhidas como damas de honra e Ed como o padrinho do noivo. Somente a imprensa local fui convidada para a bela cerimnia.
No momento do beijo, Matt afastou o vu de Leslie para trs, como quem descobre um tesouro. Sorrindo de pura felicidade, inclinou-se e beijou-a nos lbios.
Os dois se mantiveram de mos dadas durante maior parte da recepo, oferecida na fazenda de Matt. Leslie trocara de roupa e caminhava com marido entre os convidados quando se deparou com Carolyn Engles inesperadamente.
A bela loira se aproximou dela com um sorriso sincero e com um presente nas mos.
Trouxe isso para voc, de Paris  disse ela, com certa hesitao.  E uma espcie de pedido de desculpas e de oferta de paz ao mesmo tempo.

 No precisava se incomodar com isso, Carolyn falou Leslie, comovida.
 Abra  pediu a loira, entregando o presente a Leslie.
Leslie retirou o papel com cuidado, comovida com o gesto de Carolyn. Em seguida, abriu a caixinha de veludo e conteve o flego ao ver um belssimo cisne de cristal.
 Pensei que seria uma bela analogia  explicou Carolyn.  Voc se transformou em um belo cisne, e ningum ousar mago-la quando voc sair para nadar pelo lago de Jacobsville.
Em um impulso, Leslie a abraou, fazendo Carolyn enrubescer e sorrir com embarao.
 Sinto muito pelo modo como agi naquele dia  disse ela.  Sinto muito mesmo. Eu no tinha idia...
 No sou de guardar mgoas  falou Leslie, com gentileza.
 Eu sei.  Carolyn deu de ombros.  Estava aborrecida com Matt porque ele no me dava a ateno que eu queria, mas agora entendo que no tnhamos mesmo nada em comum. Desejo que vocs sejam muito felizes.
 Desejo o mesmo a voc.  Leslie sorriu para ela.
Matt estava a certa distncia e franziu o cenho quando as viu conversando. Sem hesitar, aproximou-se de Leslie e passou o brao protetor em torno da cintura dela.
 Carolyn me trouxe este presente de Paris  disse Leslie, mostrando o cisne a ele.  No  lindo?
Matt ficou evidentemente surpreso e trocou um olhar com Carolyn.

 No sou to m quanto voc pensa  brincou ela, em tom de autodefesa.  Desejo sinceramente que vocs sejam muito felizes.
 Obrigado, Carolyn.  Matt sorriu, agradecido.
 J pedi desculpas a Leslie por haver agido daquela maneira.
 Todos ns temos momentos de desvario  observou ele.  Do contrrio, aposto que ningum em s conscincia entraria no ramo da pecuria.
Carolyn riu.
 E o que se diz por a. Preciso ir agora. Vim apenas desejar felicidade a vocs. A propsito, vocs j constam na minha lista de convidados para o prximo baile beneficente da cidade.
 Iremos com prazer, obrigado  respondeu Matt. Carolyn assentiu e se retirou em seguida. Matt abraou Leslie de lado, puxando-a para si.
 Surpresas e mais surpresas  comentou ele.
 Sim,  verdade.  Enlaando os braos em torno do pescoo dele, beijou-o nos lbios.  Quando todo mundo for para casa, quero me trancar no quarto com voc e brincar de mdico.
Matt riu com prazer.
 No podemos ir agora? Aposto que nem notaro nossa ausncia.
 Matt! Somos os noivos!
 E da? Por isso mesmo  que temos o direito de comemorar em grande estilo.
Sem dizer mais nada, tomou-a pela mo e conduziu-a em direo  casa, passando por entre os convidados. Para que esperar pelo futuro se ele poderia comear naquele momento?

Na manh seguinte, Leslie e Matt acordaram um nos braos do outro, em meio a uma profuso de lenis desalinhados. Uma rstia da luz do sol estava entrando por entre as cortinas e incidindo sobre a cama, em uma espcie de saudao matinal.
Leslie deitou-se de costas e se espreguiou languidamente, sem sentir inibio da prpria nudez. Virando-se de lado, Matt se apoiou no cotovelo e fitou-a com um olhar cheio de paixo.
 Nunca pensei que o casamento trouxesse tantos benefcios  disse ela, sorrindo.  No sei se terei foras para andar depois dessa noite.
 Se no tiver, eu a carregarei.  Matt beijou-a.  Vamos tomar um banho, depois iremos comer alguma coisa.
Leslie retribuiu o beijo com o mesmo carinho.
 Eu te amo.
 Eu tambm te amo  respondeu ele.
 No est arrependido do casamento, est?  indagou Leslie, em um impulso.  Quero dizer, o passado no nos abandona assim, to facilmente... Algum dia, pode aparecer algum outro reprter  minha procura...
 Ele ter de se ver comigo  Matt a interrompeu.  E no, no estou arrependido de haver me casado com voc. Essa foi a coisa mais sensata que fiz nos ltimos anos. E, sem dvida, a mais prazerosa tambm  acrescentou e beijou-a com sensualidade.
Leslie sorriu.
 Para mim tambm.

Leslie e Matt foram ficando mais unidos a cada dia, chegando a serem chamados de pombinhos pelo pessoal da cidade, que raramente os viam separados.
A me de Leslie conseguiu o direito a um novo julgamento, por meio do competente trabalho dos advogados de Matt, que fizeram com que a pena fosse, pelo menos, diminuda. Em breve, ela poderia se unir  filha e ao genro.
Trs anos depois do nascimento do primeiro filho dos dois, Leslie deu  luz uma linda menina com os cabelos escuros do pai, na mesma poca em que a me dela foi finalmente libertada. Matt teve de conter as lgrimas quando segurou a filha no colo pela primeira vez. Adorava o filho, mas sempre sonhara em ter uma menina que lembrasse sua Leslie. Sim, sua vida se tornara completa. O passado realmente ficara para trs e o que lhes restava era uma vida de felicidade no futuro.
Muitos habitantes de Jacobsville compareceram no batizado da menina, incluindo a av dela, que estava desfrutando seus primeiros dias de liberdade. Leslie olhou de Matt para sua me, ento para o filho de trs anos e a filha adormecida em seus braos.
Quando voltou a fitar o marido, o brilho em seus olhos era de pura felicidade. Ali estava a prova de que os sonhos podiam sim se transformar em realidade. Uma doce realidade.

Fim

